Entrevista: Gleisi Hoffmann diz que oposição não aceitará Maia no Planalto

Ao Correio, senadora e presidente do PT defende a eleição direta como única saída para a crise política do país

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postado em 10/07/2017 06:00 / atualizado em 10/07/2017 08:35

Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press

 

Com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na frente em todas as pesquisas eleitorais, a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) defende que a única saída para a crise política do país é a eleição direta, sendo por meio da convocação de um novo pleito ou antecipando o de 2018: “Não vamos aceitar outra saída. Não interessa se quem vai ganhar é o PT, o PSDB ou o DEM. Para nós, interessa que o povo retome as rédeas do seu destino. É pela democracia.” Ela faz questão de mandar o recado: os petistas que articularem na Câmara para Rodrigo Maia (DEM-RJ) assumir a Presidência no lugar de Michel Temer serão desautorizados. E Gleisi afirma: Lula é o plano A, B e C do PT. Questionada sobre uma possível condenação judicial do ex-presidente, que o deixaria inelegível, a senadora diz que não há provas no processo e admite que o partido não considera alternativas.


“Uma condenação em cima do Lula é política. Vamos nos movimentar e vamos gritar em alto e bom som que não é uma condenação legítima, que é uma fraude. Ou deixam o Lula participar e ganham dele nas urnas ou vão estar dando um novo golpe”, comenta, dizendo que o partido denunciará o caso até internacionalmente. À frente do PT pelos próximos dois anos, Gleisi acredita que um dos piores erros da legenda enquanto estava no poder foi em 2015, quando o então ministro da Fazenda, Joaquim Levy, aplicou medidas de ajuste fiscal e austeridade no orçamento, o que teria aprofundado a recessão do país. “A mea-culpa não é a melhor resposta. A autocrítica, na prática, é. O PT está se reposicionando ao lado do povo brasileiro nas suas lutas para enfrentar o desmonte do Estado brasileiro e não titubear em nenhum momento com essa gente que sucedeu a Dilma.”

 

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Como a senhora assume o PT em um momento tão complicado? É hora de uma renovação?

Para mim, é um grande desafio presidir o PT, pois é o maior partido de oposição do Brasil, o maior partido de esquerda da América Latina, tem influência e é referência na atuação de muitas organizações sociais. Então, assumir esse partido, principalmente no momento em que estamos vivendo uma situação de exceção, de desconstrução dos direitos dos trabalhadores, é uma grande responsabilidade. Não diria uma renovação. Há um reposicionamento claro do partido. Nós éramos governo, estamos na oposição e temos clareza de qual é nosso papel nesse sentido: é não compactuar com o que está colocado aí e defender o povo brasileiro.


O PT demorou a entender que voltou para a oposição?

Não, isso está claríssimo. Desde o primeiro momento, quando iniciou o processo de impeachment da presidente Dilma, nós já tínhamos claríssimo que, se ela saísse, a nossa posição seria forte e firme na oposição de quem entrasse em seu lugar. Isso foi um golpe contra a democracia e não podemos aceitar.

Há uma possibilidade agora de Michel Temer sair da presidência e Rodrigo Maia assumir. Na época em que ele disputou a presidência da Câmara, contou com alguns votos petistas. Qual seria a postura do PT com Maia no Planalto?

O PT não apoiou a eleição de Rodrigo Maia na Câmara. A posição formal da bancada foi não apoiar o Rodrigo Maia. Nós fizemos uma discussão intensa no partido sobre apoio ou não aos golpistas, tivemos até um problema no Senado, que chegou a ter um racha na bancada, mas a posição na Câmara foi de não apoiar. Se alguém apoiou, não sei. Somos contra desde o início a apoiar golpistas. Nós não reconhecemos Rodrigo Maia como presidente legítimo e não vamos aceitar que algum deputado apoie isso. Inclusive, a saída do Temer só tem sentido se ela for seguida de uma convocação de eleições diretas ou da antecipação das eleições de 2018. Se não, é trocar seis por meia dúzia. Para nós, não tem nenhuma diferença entre Rodrigo Maia e Michel Temer.


Então, um governo de Maia não interessa ao PT?

Não nos interessa. O PT não vai apoiar. Para nós, é farinha do mesmo saco. Não tem nenhuma possibilidade de mediação, de transição. Eu vi o presidente do PSDB (Tasso Jereissati) dizendo que é preciso fazer uma transição com Rodrigo Maia e que vão chamar os partidos da oposição para conversa. Ele que não conte com o PT. O PT não estará nesse processo. Rodrigo Maia é tão perverso quanto Temer para o Brasil. É o homem das reformas contra os trabalhadores, que fez passar a reforma trabalhista, a emenda constitucional 95 (que estabelece um teto para os gastos públicos). Nós queremos eleição direta. É transição em cima de quê, dos direitos dos trabalhadores? É transição em benefício de quem, dos interesses do capital financeiro? Não, isso não está na nossa pauta.

 


“O PT não estará nesse processo. Rodrigo Maia é tão perverso quanto Temer para o Brasil”  


Uma eleição direta agora é boa para o PT?

Não é para o PT. Uma eleição direta é boa e necessária para o Brasil. Só o voto, a legitimidade, pode trazer estabilidade para o país. As pessoas estão dizendo que nós defendemos uma eleição direta porque o PT está bem. Interessante isso. O PT foi desconstruído, cassado, denunciado, fizeram as maiores acusações contra o PT e contra o Lula. Você faz uma pesquisa e o PT é o partido de preferência nacional e o Lula está à frente. Aí você faz um movimento por eleições diretas e não querem porque acham que o PT vai ganhar? Só tem um jeito de salvar esse país, e é fazendo eleição direta. Não vamos aceitar outra saída. Para nós, não interessa se quem vai ganhar é o PT, o PSDB ou o DEM. Para nós, interessa que o povo retome as rédeas do seu destino. É pela democracia.


E quem seria o candidato do PT?

É o Lula. Lula agora, Lula em qualquer momento. É a nossa candidatura. Já digo desde agora, não temos plano B. O Lula é nosso plano A, B e C.


Mas houve um movimento do senador Lindbergh Farias (RJ) com outros partidos de oposição para construir um nome alternativo.

O senador Lindbergh não está fazendo outro nome. Ele é um dos nossos parlamentares mais ativos na defesa do presidente Lula. Não tem dentro do PT quem pense em alternativas. Essa questão de ter feito uma reunião com forças de esquerda, não vejo problema nisso. Nosso caminho tem que ser pela esquerda. Nós estamos dispostos a conversar. Já procurei o PSol, o PCdoB, o PDT, o PSB. A gente quer construir um programa de centro-esquerda para o Brasil.


E se o Lula ficar inelegível ou for condenado? Não era o caso de o partido preparar outro candidato?

A condenação de Lula nesses processos é uma condenação política, e não vamos aceitar. Não tem provas. A Justiça acabou de inocentar o João Vaccari (ex-tesoureiro do partido) por falta de provas. Qual é a prova concreta que se tem contra o presidente Lula? Nenhuma. Só há provas de sua inocência. Uma condenação em cima do Lula é política. Vamos nos movimentar e vamos gritar em alto e bom som que não é uma condenação legítima, que é uma fraude. Ou deixam o Lula participar e ganham dele nas urnas ou vão estar dando um novo golpe, que será uma fraude eleitoral. Vamos denunciar até internacionalmente.

 

Mas não se vê essa movimentação toda nas ruas, esse apoio popular pelas diretas. Por quê?

As diretas ainda não tocaram o coração das pessoas, mas elas estão muito mobilizadas contra as reformas, tanto a trabalhista quanto a previdenciária. Na questão das eleições diretas, as pessoas ainda estão muito reticentes em relação à política. Como a questão eleitoral é uma questão de política pura, não é uma bandeira de direitos que as pessoas reconheçam imediatamente, não há muita sensibilidade. O que temos que fazer é traduzir para as pessoas que esse tipo de saída que está aí é a desconstrução do Estado brasileiro, o desmonte. É o que estamos vendo. Nós não temos dinheiro para as questões básicas. Vão cortar a educação, não temos dinheiro para a Polícia Rodoviária Federal resgatar acidentados nas estradas, paramos de emitir passaportes, a farmácia popular está falindo, estamos sem recurso para o Bolsa Família.


O governo do presidente Michel Temer diz que isso é herança que ele recebeu do governo da Dilma.

Ele foi a única herança maldita que deixamos, porque o que eles fizeram foi aprofundar a recessão. De fato, 2015 foi um ano muito ruim para nós com Joaquim Levy no Ministério da Fazenda. Ele começou a fazer essas medidas de ajuste fiscal e de austeridade no orçamento público e, graças a Deus, não conseguiu fazer tudo. Tiramos ele antes de concluir o ciclo. Só que o Temer entrou, pegou a mesma agenda, botou o (Henrique) Meirelles, botou um banqueiro no Banco Central, e fez todas as barbaridades que poderia fazer em termos de austeridade.


Mas, senadora, o Meirelles foi o nome sugerido por Lula para a Dilma colocar no Ministério da Fazenda.

Meirelles foi presidente do Banco Central do Lula e nós não tivemos retrocesso. Sabe por quê? Porque é a política que tem que dar a direção, não a economia. Se a política tiver clareza, você sabe direcionar a economia para que ela sirva a um objetivo político. Então, se o Meirelles estivesse sob a tutela de Lula, eu não me preocuparia porque o Lula tinha clareza, tinha política, sabia utilizar o Banco Central para fazer os mecanismos de avanço.


A população anda muito descrente da classe política. E o PT, quando estava no governo, teve o mensalão. Aí, parece que o partido não aprendeu, e veio o petrolão. Houve todo aquele roubo na Petrobras, que só aumentou durante a gestão da Dilma. Que resposta dar a esses escândalos?

Nós já estamos dando a resposta. A mea-culpa não é a melhor resposta. A autocrítica, na prática, é. O PT está se reposicionando ao lado do povo brasileiro nas suas lutas para enfrentar o desmonte de Estado brasileiro e não titubear em nenhum momento com essa gente que sucedeu a Dilma. E não vai mais aceitar financiamento de empresas privadas em suas campanhas. Já estamos fazendo a diferença.

 
“O PT foi desconstruído, cassado, denunciado, fizeram as maiores acusações contra o PT e contra o Lula. Você faz uma pesquisa e o PT é o partido de preferência nacional e o Lula está à frente. Aí você faz um movimento por eleições diretas e não querem porque acham que o PT vai ganhar?” 


Há arrependimento da aliança com o PMDB?

Não é uma questão de arrependimento, é uma questão de conjuntura política. Naquele momento, era a aliança necessária que tínhamos de fazer para ganhar o governo. Não podíamos imaginar também que o posicionamento do PMDB seria esse. Nem o Brasil achava. Tanto que as pessoas defendiam que o Temer assumisse, porque, assim, as coisas ficariam boas. Então, se o PMDB enganou alguém não foi só o PT, foi o Brasil inteiro. Mas acho muito difícil fazermos aliança com o PMDB de novo. Com exceções, claro, por exemplo, o PMDB do Paraná, que é conduzido pelo senador Roberto Requião.


E, a senhora, que foi ministra da Casa Civil da Dilma, do que se orgulha e do que se arrepende?

Primeiro, de participar de um governo de uma mulher, que foi eleita presidente e continuou o legado do presidente Lula e que fez coisas importantes. Em termos de arrependimento, acho que seria mais sobre esse fim da política econômica. Foi uma resposta errada a uma pressão muito forte de que tinha de ter uma política de austeridade fiscal. Esse foi o nosso grande equívoco.


Para chegar ao poder, o PT teve de caminhar um pouco para o centro. E, agora, terá de voltar para a esquerda?

A saída é pela esquerda e pelo centro-esquerda, que são os setores progressistas da sociedade.


Então, não tem mais conversa com o centrão (PTB, PR, PP)?

Aliança eleitoral não é agora que nós discutimos né, mas, com certeza, a saída é pela centro-esquerda.


E se houver uma eleição indireta?

Não participaremos do colégio eleitoral, não reconheceremos um presidente eleito assim.


A senhora rejeita alianças, mas é possível administrar o Brasil ou aprovar projetos no Congresso sem o apoio desses partidos de centro?

Por isso, a importância de o PT ter ao lado da eleição do Lula, como uma de suas prioridades, a eleição de uma forte bancada federal. A partir daí, nós construímos uma forte governabilidade.


Mas o PT diminuiu muito nas eleições municipais do ano passado e há um forte crescimento de uma onda conservadora no país. Como é possível para o PT aumentar a bancada federal em 2018?

Nós estamos recuperando o apoio popular. E, se o Lula for candidato, isso tem um reflexo muito grande nas eleições de deputados. O Lula está com 30% nas pesquisas. Tem pesquisa em que ele está com 40%. Qual outro candidato tem isso? Eu desafio. Não tem nenhum. Então, os partidos de direita e centro-direita estão à caça de um candidato e com ausência de programa.


E qual o programa que teriam para reduzir o desemprego?

Temos que ter dinheiro em circulação. Nós apresentamos um seminário sobre economia e fizemos um plano emergencial. Em vez de fazer cortes em programas sociais, a solução é aumentá-los. Foi um erro não ter dado o aumento no Bolsa Família. Isso ia ter uns R$ 800 milhões de impacto orçamentário, mas você tem noção do impacto que isso ia ter na vida das pessoas e no comércio local? É comprar um pouquinho mais de arroz, um pouquinho mais de açúcar, um pouquinho mais de feijão. Tinha que ter dado aumento real de salário mínimo, mesmo com o PIB (Produto Interno Bruto) caindo, porque você aumenta a capacidade de compra. Hoje, chega a 71% a população que ganha dois salários mínimos. As pessoas estão sendo demitidas porque não tem consumo e a economia não circula. É preciso botar dinheiro para que as pessoas consumam e se crie um círculo virtuoso.


E o Ciro Gomes? É possível uma aliança para a presidência?

Respeito muito o Ciro. Não é ele o nosso adversário. Quero conversar com ele enquanto presidente do PT.


O ex-ministro dos governos petistas Antonio Palocci está negociando uma delação premiada. Isso preocupa?

Se a delação dele for verdadeira, não vai ter problema nenhum para o PT.


E o processo que a senhora responde ao lado do seu marido, Paulo Bernardo, também ex-ministro do Lula, preocupa?

Agora está na fase das testemunhas de defesa. Eu ainda não fui chamada para depor. Achei importante o Lula ir, pedi para a Dilma ir também. Porque disseram que me deram recurso para campanha. Isso foi na campanha de 2010. Eu nem era chefe da Casa Civil. Não ocupava nenhum cargo público e, mesmo depois de estar no governo, não estive em nenhuma discussão sobre a Petrobras. Ou seja, não temo nada. O meu processo só tem delação. Vão me condenar por delação? Eles reviraram meus telefones, minha ida à Petrobras e não acharam nada. Vão me condenar porque alguém disse que deu R$ 1 milhão para minha campanha? É uma loucura isso. E meu marido também está muito tranquilo.
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Lotar
Lotar - 11 de Julho às 09:59
O político que é de esquerda, principalmente do partido comunista, deveria distribuir seu salário e vantagens financeiras chocantes com os pobres que nada têm. Defendem tanto a pobreza, mas vivem no luxo. É apenas um modo de enganar o povo para chegar no pote dos prazeres. Quem é empresário tem talento para produzir sua riqueza, mas quem não tem se vale deste subterfúgio para alcançar a invejada bem aventurança. Beber vinho mas pregar...água....