Em entrevista ao Correio, Haddad defende reinvenção do PT para 2018

O ex-prefeito de São Paulo avalia que a legenda precisa ser cabeça de uma chapa presidencial no ano que vem para se reerguer

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postado em 20/08/2017 08:00 / atualizado em 20/08/2017 11:00

Minervino Junior/CB/D.A Press
Apesar de participar de palestras e seminários em todo o país, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT) não admite ser o plano B dos petistas à Presidência da República, caso o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva seja impedido de disputar por causa de condenação judicial. Entretanto, Haddad ressalta a necessidade que o partido tem de ser cabeça de chapa. “A pretensão era que o candidato em 2018 fosse de outro partido com o apoio do PT, em outras condições, não nas em que o partido está ameaçado de extinção pelas forças de oposição”, comenta.

Para Haddad, o desgaste do PT com o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, a fragmentação de forças políticas e as denúncias de corrupção contribuíram para a derrota, em primeiro turno, nas últimas eleições municipais, para o atual prefeito João Doria (PSDB-SP), candidato que ele considera que não será um bom presidente, se eleito. “Nunca acreditei nesse tipo de político. Uma pessoa que diz que não é político, mas só faz política. Também não acredito em um tipo de política que se afirma pela desconstrução do que foi feito”, afirma.

O Lula começou uma caravana pelo Nordeste. Como o senhor vê essa antecipação da corrida presidencial?
Não classificaria assim. Na verdade, o Lula está em uma epopeia há dois, três anos, em função da situação pessoal dele. A expectativa é de que, pela fragilidade da sentença condenatória, se consiga reverter isso no tribunal e que ele possa figurar entre os candidatos no ano que vem. Ele trabalha com essa única hipótese.

A epopeia do Lula não é, necessariamente, para votos em 2018?
O Lula, neste momento, tem duas tarefas: a questão da honra dele, que não tem a ver, especificamente, com a campanha. Não fossem esses processos, talvez isso não se fizesse necessário. Quando você é atacado na honra, é uma situação diferente dos demais candidatos. A caravana tem a ver com o que o Lula fez no passado. A ideia é que, se você não deve, não tem que temer estar no espaço público com as pessoas.

Existe um ambiente de tensão nas viagens?
Existe mais risco em função do fato de que tem gente jogando lenha na polarização e não é só no Brasil. Existe uma intolerância crescente no mundo inteiro como desdobramento da crise de 2008. As eleições estão mais polarizadas à direita, às vezes, polarizando com a extrema-direita. No Brasil, as coisas se conformam um pouco diferente, porque você tem um governo Temer que aglutina contra si forças progressistas. Do outro lado, você tem a figura do Lula, que é uma pessoa que remete a uma memória recente de um Brasil que deu certo. A mesma crise global vai se adaptar às condições locais, dependendo das variáveis.

Essa especificidade é por conta do Lula ou a esquerda ainda tem discurso?
São duas variáveis. A figura do Lula tem importância, mas o governo Temer, também. Ele é pedagógico porque organiza a compreensão do que está em jogo. Ele educa pelo contraexemplo. Na eleição do ano que vem, o Temer estará com dois anos e meio de governo; isso pode orientar as pessoas a se posicionarem em outra direção.

Para chegar ao poder, o PT teve que ir mais ao centro. Agora, com a polarização, é hora de voltar mais à esquerda?
Vai haver uma discussão difícil de ser feita, mas em dois planos completamente diferentes, e teremos que ter sabedoria para navegar neles. Um primeiro plano parte da compreensão de que o tecido institucional do país está esgarçado e precisa ser recuperado. Nesse plano, temos que ter um tipo de aliança, rigorosamente, com todo mundo de bem que tenha a compreensão de que o estado democrático de direito está em jogo, independentemente da questão programática sobre o que fazer em relação à crise, que é o outro plano.

Parte do PSB, por exemplo?
No geral. Acho que tem gente, inclusive no PMDB, que entende que as coisas foram longe demais. Muita gente não vê o Brasil mais com instituições sólidas. O fato é que tem um desequilíbrio na República que precisa ser recuperado. Isso não é bom para o presente e não será bom para o futuro.

Mas o Lula eleito, com discurso de nós contra ele, não amplia essa tensão?
Duas coisas diferentes: a postura conciliatória do Lula e o “nós contra eles” que parece antagônico à primeira. O Lula sempre procurou a mediação porque é da natureza do sindicalismo pensar que existe patrão e empregado.  Eu vejo o Lula muito da ótica desse trabalhismo que nasceu no fim dos anos 1970. Uma pessoa com bastante consciência de que a situação do empregado e do empregador é diferente, mas que era possível acordos favoráveis ao nós.

Mas ele voltar ao cenário conciliador não vai decepcionar esse PT mais raivoso?
Uma coisa é a compreensão que o próprio Lula tem de tarefas que talvez ele pudesse ter cumprido e não cumpriu. Apesar do êxito popular que ele teve, dos próprios indicadores econômicos e sociais, há uma compreensão de que tarefas não foram cumpridas. Reforma política é uma delas, tributária é outra.

E a da Previdência?
Na Previdência foi feita alguma coisa, tanto no governo Lula, quanto no governo Dilma. Na minha opinião, temas como Previdência têm de ser discutidos com foco porque todo mundo terá que reformar. A objeção que se faz ao governo Temer é sobre equidade. Alguém duvida de que precisa modernizar as relações trabalhistas? Não. Mas a equidade foi observada? Não. Houve um enfraquecimento no lado do trabalhador, evidente.

O senhor consegue avaliar por que perdeu a reeleição para a prefeitura de São Paulo? A imagem do PT está desgastada?
Não tenho dúvida. Estive no Recife e passei dois dias com aquele que foi, segundo pesquisas, o melhor prefeito da cidade. O João Paulo saiu com mais de 80% de aprovação do segundo mandato. Esse mesmo João Paulo teve 23% dos votos no primeiro turno.

O prefeito de São Paulo, João Doria, é um forte candidato em 2018?
Não é possível avaliar quem será um bom candidato. Como há um clima de paixão, as tensões sociais estão muito exacerbadas e, em um momento desses, a pior pessoa do mundo pode ser um grande candidato. O que posso dizer é que ele não será um grande presidente, se eleito for. Primeiro, pelo trabalho que ele vem realizando na prefeitura e, depois, pelo estilo antigo. Prometer ficar quatro anos e largar, prometer apoiar o Alckmin e se desdizer. Não termina um ano e já está fora da cidade fazendo campanha. Nunca acreditei nesse tipo de político. Uma pessoa que diz que não é político, mas só faz política. Não é uma crítica pessoal ao Doria, mas não acredito em um tipo de política que se afirma pela desconstrução do que foi feito antes, e não pela afirmação de um projeto próprio. São sintomas de uma política antiga. Vamos supor que tem alguém que desprezo no PSDB, seja uma mulher, jamais chamaria de anta. É um estilo de política muito antigo. Você não chama uma mulher de anta, seja quem for.

Como o PT vai trabalhar para melhorar a imagem em 2018?
O PT, no Brasil, perdeu 60% dos votos, mas mudou completamente a conjuntura. A primeira razão é o governo Temer, as pessoas estão vendo quais são os propósitos do governo Temer. Ponto dois: todo aquele material represado até 2016 sobre dirigentes de outros partidos veio à tona. Em setembro do ano passado, não havia discussão sobre o PSDB e o PMDB. O cidadão foi exposto a informações que ele não tinha no ano passado.

Mas o partido precisa fazer uma autocrítica?
O que aconteceu em 2017 abre um campo de discussão novo. Uma coisa é você fazer uma autocrítica quando só você está sendo acusado de práticas que foram identificadas em todas as agremiações. Vamos passar um período difícil, mas vamos identificar que existe gente boa em todos os partidos, mas que há problemas em todos, também. E o discurso depende muito do candidato porque tem que ter grau de veracidade. Se não for autêntico, não vai passar.

O senhor pode ser esse candidato?
Eu estou pensando no Lula.

Mas o Lula condenado tem capacidade de fazer autocrítica do PT?
O Lula condenado não vai ser candidato.

Vocês contam com o julgamento em segunda instância antes da campanha? Tem gente no PT que fala em esgotar os recursos para ele continuar concorrendo.
Acho muito difícil não haver decisão de segunda instância até lá porque corre o risco de ele ganhar a eleição e ser condenado depois. É muito difícil prever o que o Judiciário vai fazer, até porque o entendimento dos magistrados tem alterado substancialmente ao longo do tempo. Para o bem do país, o ideal seria uma decisão em segunda instância antes da eleição. Mas imagino que, enquanto houver recurso possível, tem de usar.

O senhor é o plano B do PT?
Essa discussão não está colocada. O que aconteceu? O Lula tem muito apreço pelo meu trabalho como ministro da Educação. Perguntado, ele respondeu que temos quadros e me citou como exemplo. Isso gerou especulações, mas esse é o único fato concreto que deu margem a isso. Internamente, não discutimos sobre, nem discutiremos.

Mas o senhor começou a viajar depois disso…
Eu já estava sendo convidado para os seminários de que estou participando. Tive uma conversa com Lula no começo do ano e ele me perguntou o que eu queria para 2018. Disse que não sabia, mas, para 2017, gostaria de ser um canal de comunicação para a sociedade, para ajudar a estruturar o plano de governo dele. E ele disse: “Olha, é uma boa ideia porque o teu legado na Educação é muito forte. Você tem sido chamado para falar em universidades?” Eu respondi “tenho”. Ele falou “vamos começar por aí, seria uma grande coisa você rodar o país, conversar com a academia”. É o que estou fazendo.

Uma aliança com Ciro Gomes é viável? Tem gente que coloca o senhor como vice do Ciro.
O Ciro é um excelente quadro político, tem o país na cabeça. Fico lisonjeado, mas espero que o Lula seja candidato.

O senhor teria o Ciro como vice?
Não vou cair nessa, treino em casa.

Não seria o momento de o PT recuar?
A pretensão era que o candidato em 2018 fosse de outro partido com o apoio do PT, em outras condições, não nas condições em que o partido está ameaçado de extinção pelas forças de oposição. Lula pensava assim. Não acho que o Lula queria voltar à Presidência.

Mas o PT tem chances sem o Lula?
O PT tem votos. Não é maior que o Lula. Já foi um dia, mas o Lula se tornou maior. É natural que isso aconteça quando você ganha a eleição. O PT pode ter o tamanho do Lula? Na largada, não, mas o PT não vai ter menos de 20% de intenções de votos.

Se não for o Lula, então será um nome do PT?
O que eu ouço na base do partido é que a gente tem que ter um candidato para se reerguer. Tem que ser do PT. As pessoas desejam que o PT tenha candidato em qualquer hipótese.

A Dilma foi uma boa presidente?
Todo mundo erra e acerta. Na crise de 2008, o Lula tomou decisões muito certeiras, a ponto de a economia girar em torno de 7,5% em 2010. Isso foi para uma situação emergencial, mas não se sabia que bicho era aquele, não se tinha clareza do que tinha acontecido. Não houve, da parte do governo Dilma, a percepção de que aquela mudança era estrutural da economia global. O governo dizia que tomaria medidas na suposição de que, em dois anos, a economia global retomaria o patamar pré-crise. Essa aposta que não se confirmou. O que aconteceu? Você começa a onerar o orçamento público federal com medidas que a um só tempo visava combater a inflação e manter o emprego. Partiu-se de um erro de diagnóstico. Quando a Dilma se reelege, ela não tem mais gordura, aí chama o Levy para dar um cavalo de pau. Obviamente, a oposição, diante dessa vulnerabilidade, sabotou o governo e o PMDB viu a chance de chegar ao poder.
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