Filho de ministro do TCU, Tiago Cedraz teria recebido propina de empresário

Polícia Federal cumpre mandados de busca e apreensão contra dois advogados. Existe a suspeita de que novos interlocutores atuaram no esquema de corrupção da Petrobras para favorecer empresa privada e remunerar indevidamente agentes públicos

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postado em 24/08/2017 06:00 / atualizado em 24/08/2017 07:04

Renato Costa/Folhapress
 
As investigações da Operação Lava-Jato avançam em direção ao Tribunal de Contas da União (TCU), órgão responsável pela fiscalização das contas públicas. Na segunda fase da Abate, policiais cumpriram mandados de busca e apreensão contra dois advogados, suspeitos de envolvimento nas fraudes que atingiram a Petrobras. Entre os suspeitos está o advogado Tiago Cedraz, filho do ministro Aroldo Cedraz, do TCU. A operação ocorreu em Brasília, Salvador (BA) e na cidade de Cotia, em São Paulo.
 
 
Tiago já é alvo de investigação em outra ação, que corre no Supremo Tribunal Federal (STF), por envolver pessoas com foro por prerrogativa de função. Neste inquérito, que está sob segredo de Justiça, ele é investigado com o pai, Aroldo Cedraz. O presidente do tribunal, ministro Raimundo Carreiro, também é investigado. O trio é suspeito de favorecer empreiteiras em processo no TCU relacionado a obras da usina nuclear Angra 3, em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro.

As suspeitas sobre integrantes do tribunal, responsável por julgar as contas do governo, não param por aí. Em dezembro do ano passado, o ministro Vital do Rêgo foi alvo de busca durante uma ação da Polícia Federal. Ele é investigado sob a acusação de atuar em um suposto esquema de cobrança de propina envolvendo empreiteiras, entre elas a UTC Engenharia e a Queiroz Galvão. Mesmo com a investigação em curso, ele é o relator de recursos apresentados pelas empresas junto ao TCU.

As empreiteiras pedem que uma declaração de inidoneidade emitida pela Corte seja revista. Por conta da decisão do TCU, as construturas estão proibidas de participar de licitações que ocorrem para obras realizadas com recursos do governo federal. Na época, empresas que fecharam acordo de delação premiada com a Justiça, como é o caso da Odebrecht, tiveram permissão para continuar participando dos processos licitatórios do Executivo.

O advogado Tiago Cedraz prestou depoimento por cerca de duas horas na Superintendência da Polícia Federal, em Brasília. A PF pediu ao juiz Sérgio Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba, responsável pela Lava-Jato em 1ª instância, que o ele fosse alvo de uma condução coercitiva. No entanto, o magistrado determinou que Tiago apenas fosse notificado da necessidade de comparecer à unidade policial, em Brasília ou em Curitiba. A decisão destacou que caso o advogado optasse por depor na capital federal, deveria prestar o esclarecimento no mesmo dia.

Tiago Cedraz tem uma carreira meteórica no mundo jurídico do Distrito Federal. Aos 35 anos, ele faz parte de um seleto grupo de advogados filhos de ministros que ascenderam na carreira jurídica na capital. É dono de três apartamentos, na 316 Sul. Somados, os imóveis estão avaliados em cerca de R$ 10 milhões.


Influência


Em depoimento ao Ministério Público, o empresário Ricardo Pessoa, da UTC, afirmou ter repassado R$ 1 milhão em propina para que Tiago atuasse em um processo envolvendo a empreiteira no TCU. Na delação da Odebrecht, ele também é citado como influenciador dos processos da construtora no órgão onde o pai trabalha. Ele nega as acusações de interferir nas decisões da Corte.

Na decisão que determinou o depoimento de Tiago, o juiz Sérgio Moro afirma que ele e o ex-sócio, o também advogado Sérgio Tourinho Dantas, cometeram “os crimes de corrupção, concussão, lavagem de dinheiro, associação criminosa, evasão fraudulenta de divisas, violação de sigilo funcional e de falsidade, além dos crimes antecedentes à lavagem de dinheiro”. O magistrado determinou o bloqueio de R$ 6 milhões da dupla em contas bancárias. Também foi autorizada uma busca na casa de Ana Cláudia de Paula Albuquerque, ex-assessora do ex-deputado Cândido Vaccarezza, que é investigado na operação. O ex-congressista ficou preso por cinco dias, acusado de favorecer a empresa Sargeant no fornecimento de asfalto para a Petrobras.

Em nota, o ministro Aroldo Cedraz afirmou “que sempre traçou uma linha muito nítida entre sua atuação como magistrado e sua vida privada e familiar”. De acordo com o ministro “todas as questões relacionadas à atuação do advogado Tiago Cedraz devem ser encaminhadas ao escritório dele”. O advogado Tiago Cedraz, por sua vez, informou que negou as acusações, perante a Polícia Federal, e que “mantém sua tranquilidade quanto aos fatos apurados por jamais ter participado de qualquer conduta ilícita”.

O presidente do Tribunal de Contas da União, Raimundo Carreiro, apresentou à Polícia Federal comprovantes de depósitos feitos em sua conta-corrente, colocados sob suspeita pela corporação. Em nota, Carreiro afirmou que repassou documentos que comprovam “a origem de depósitos feitos em sua conta-corrente, entre os anos de 2012 e 2014, no valor de R$ 568 mil”. Ele disse ainda valores entre R$ 60 e R$ 300, repassados por funcionários do TCU no Natal e ano-novo, para a compra de cestas básicas para pessoas carentes, foram “erroneamente classificados pela PF como de origem desconhecida”.

A assessoria do Tribunal de Contas da União afirmou que não vai se manifestar sobre a operação Abate II, porque não está relacionada com as atividades do órgão. O advogado Sérgio Tourinho Dantas não foi localizado pela reportagem, que o procurou por meio dos contatos de seu escritório.

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