Ministros de Temer planejam disputar cargo nas eleições de 2018

Situação se torna um problema para o governo: com o passar do tempo, eles estarão cada vez mais distantes de Brasília

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postado em 24/09/2017 07:50 / atualizado em 24/09/2017 15:21

Denunciado pelo ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot por obstrução de Justiça e organização criminosa, o presidente Michel Temer deve se preocupar com mais coisas do que apenas organizar a própria defesa. Ele já admitiu o inevitável atraso que a tramitação da denúncia provocará no calendário da reforma da Previdência. Mas há uma outra nuvem cinzenta no ar: pelo menos 18 ministros pretendem se candidatar em 2018. Quanto mais a agenda do governo demorar a ser implantada, mais o foco desses auxiliares se distanciará de Brasília e passará a se concentrar nos esforços para a própria sobrevivência.




Muitos deles, inclusive, como já mostrou o Correio, aproveitam cada vez mais as agendas institucionais para fazer agrados e participar de atos em seus redutos eleitorais. O tempo, nesse caso, corre contra o presidente. A Câmara deve analisar a denúncia do Ministério Público Federal até o fim de outubro, a exato um ano das eleições. Se os debates da reforma da Previdência acontecerem, de fato, a partir de meados de novembro, ela só será votada em plenário, se for, próxima ao recesso de fim de ano. Após o réveillon, dificilmente os ministros manterão o mesmo empenho em suas pastas. Talvez aqueles cujos discursos dependam mais diretamente dos bons resultados da economia, como o titular da Fazenda, Henrique Meirelles. Os demais pensarão nas bases eleitorais e no esvaziamento das gavetas.

Outro ponto pesará na avaliação desses ministros. Mudanças na Previdência não são medidas populares. Além disso, o governo Temer desfruta índices de populare baixíssimos — próximos dos 3% — e está carimbado por crises e denúncias. “O presidente Temer não terá condições de tocar o dedo em um candidato e ungi-lo como seu escolhido. Isso também vai pesar no discurso que os ministros terão de fazer junto às bases eleitorais”, avaliou o professor de ciência política do Insper Carlos Melo.

Melo reconhece que estar alinhado ao governo não traz só ônus, embora, no caso atual, eles sejam maiores que os bônus. “Tem sempre a vantagem de você estar inserido na máquina e em condições de garantir recursos e obras para os seus redutos eleitorais”, lembrou o cientista político. Ele afirma que a realidade ficará mais latente para titulares de ministérios com obras visíveis, como Bruno Araújo (Cidades) e Maurício Quintella (Transportes), por exemplo. Mas outros titulares da Esplanada, como Antonio Imbassahy (Secretaria de Governo) e Aloysio Nunes Ferreira (Relações Exteriores), teriam ativos menos tangíveis para apresentar aos eleitores.

A economia, que sempre pesa, positiva ou negativamente, na decisão do cidadão de escolher entre este ou aquele candidato, tampouco apresentará resultados esplendorosos. “Aquela euforia com o crescimento da economia, como aconteceu em 2010, quando o PIB cresceu quase 8%, não virá mais. Mesmo que sejam criados meio milhão de empregos até o início da corrida eleitoral, ainda assim o passivo é de 13 milhões de desempregados”, completou o professor do Insper.

Sem bonança


Na opinião do professor do Ibmec-MG Adriano Gianturco, os tempos de bonança exagerada não virão mais. O próprio Banco Central, em um cenário otimista, projeta um crescimento da economia na casa dos 2% em 2018. Este ano, se chegar próximo aos 1%, já é motivo de euforia. “O atual governo pode enveredar por um discurso real de que assumiu o país em uma situação difícil e que conseguiu fazer algumas coisas (ajuste fiscal) e outras, não (reforma da Previdência)”, disse Gianturco.

Entre os candidatos em 2018, aquele que planeja o voo mais ousado é justamente o que depende mais diretamente dos êxitos do governo Temer: Henrique Meirelles, ministro da Economia, que sonha em ser eleito sucessor do peemedebista. Para o cientista político Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, o fato seria visto positivamente pelos investidores, que no momento dirigem a atenção à disputa interna do PSDB, entre o prefeito paulistano João Doria e o governador paulista Geraldo Alckmin.

A ressalva, contudo, é de que este não seria o momento certo para se debater o assunto. “Isso deve ficar para o ano que vem, pois há o risco de contaminação política na gestão macroeconômica”, afirmou. Outras preocupações passam pela cabeça dos investidores. A primeira é se Meirelles, caso deixe de fato o governo em abril do ano que vem, conseguirá nomear um sucessor tão duro do ponto de vista fiscal quanto ele. O segundo questionamento é se, sem Meirelles, Temer não cairá na tentação de abrir a torneira de gastos para tentar eleger o sucessor.
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