Opinião: CPI da caça às bruxas

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postado em 24/09/2017 15:12

Na semana que passou, tive a chance de entrevistar, com Ana Maria Campos e Helena Mader, Rodrigo Janot, que acabara de deixar o comando da Procuradoria-Geral da República. Durante duas horas e 20 minutos, ouvimos respostas a todas as perguntas. Sem se esquivar e com segurança, Janot falou sobre os bastidores dos momentos mais importantes da Lava-Jato. Da morte do ministro Teori Zavascki à polêmica em torno da delação premiada e consequente imunidade concedida a Joesley Batista, além das suspeitas envolvendo integrantes do Ministério Público. Um retrospecto extremamente interessante e rico em detalhes. Chamou a minha atenção, no entanto, algo que Janot trouxe como certeza absoluta: as ameaças contra quem investiga o poder não vão parar.

Janot deixou o cargo em meio a turbulências e continuará sendo alvo. Quem denuncia não tem perdão. Ele sabe disso e fala com a serenidade de quem espera os ataques. Sabe que a CPI da JBS, orquestrada por parlamentares denunciados no exercício do cargo e outros tantos que perderam o poder, abrirá fogo contra o Ministério Público. Foi assim com a Operação Mãos Limpas, na Itália, e com todas as investigações sérias mundo afora. Aqui, não será diferente. E esse tipo de retaliação só se justifica por um motivo em particular: o poder real foi atingido. O núcleo poderoso, que comanda a política no país anos a fio, está totalmente imerso no lamaçal de corrupção. Praticamente, não há exceções. A maioria das legendas tem seus representantes na podridão.

Por décadas, os políticos inventaram as suas próprias regras para angariar dinheiro, financiar campanhas, enriquecer e, é óbvio, manter seus cargos públicos, sempre tão lucrativos. Roubaram tanto, lotearam tantos cargos e empresas, influenciaram e marcaram tantas licitações que já não sabem fazer política sem essas artimanhas e estratégias. Vão, portanto, fazer tudo que estiver ao alcance para manter o modus operandi e escapar da prisão.

Em sua entrevista, Janot disse: “Eu não criminalizei a política, e sim os bandidos”. É preciso saber separar a atividade política, tão necessária a um país democrático, dos políticos sujos que temos. Em tempos de eleição, eles virão com tudo e mais um pouco, traçarão as mais hediondas estratégias para desqualificar denúncias e atingir os investigadores. Vamos cair nessa armadilha? Não podemos. A Lava-Jato está passando o país a limpo, com todos os possíveis erros e exageros que possam ter sido cometidos. Negar isso é vendar os olhos.

Investir contra os acusadores e transformá-los em vilões será o ataque de quem não tem defesa técnica, como disse o próprio Janot na entrevista. Há explicação para as malas com R$ 51 milhões encontradas num apartamento? Há justificativa para encontros e diálogos mais do que comprometedores para quem exerce cargo público? Não, não há. O que resta, então, é atingir quem denuncia, politizar o debate, desqualificar quem trabalhou duro nos últimos anos para abrir a vala que vai enterrar politicamente os corruptos. Inocente será quem cair nessa.

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