Carta de Palocci revela proposta de leniência do PT

Palocci pediu a desfiliação do partido e voltou a confirmar pedido de propinas feito por Lula

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postado em 26/09/2017 20:36 / atualizado em 26/09/2017 21:10

AFP / Heuler Andrey

 
"Continuo a apoiar a proposta de leniência ao PT." Assim, o ex-ministro da Fazenda do governo Lula e da Casa Civil de Dilma Rousseff, revela uma discussão interna do PT para que a legenda buscasse um acordo de leniência (espécie de delação premiada para pessoas jurídicas) na Operação Lava Jato.
 
 
Absolvido pela segunda vez nesta terça-feira, 26, pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) dos processos da Lava Jato, João Vaccari Neto é citado por Palocci na histórica "carta ao PT" como autor da proposta de leniência do partido levada ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

"Há alguns meses decidi colaborar com a Justiça", afirma Palocci, que virou réu confesso da Lava Jato no dia 6 de setembro, quando incriminou Lula em depoimento ao juiz federal Sérgio Moro.

"Há pouco mais de um ano tive oportunidade de expressar essa opinião de uma maneira informal a Lula e Rui Falcão, então presidente do PT que naquela oportunidade transmitia uma proposta apresentada por João Vaccari, para que o PT buscasse um processo de leniência na Lava Jato", escreve Palocci em sua carta ao Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores, dessa terça-feira, 26.

Preso há exato um ano, Palocci redigiu a carta de quatro páginas ao partido, depois de ser alvo de suspensão em decorrência de suas revelações de crimes na Lava Jato.

Palocci pediu a desfiliação do partido e voltou a confirmar pedido de propinas feito por Lula, em negócios da Petrobras para construção de sondas de exploração marítima de petróleo para os campos do pré-sal.

O PT é apontado como principal partido do esquema de indicações políticas na Petrobras, alvo da Lava Jato, que contava ainda com PMDB e PP.
 

"Mais honesto"

Por suas acusações a Lula, o ex-ministro foi suspenso do PT pelo prazo de 60 dias, em decisão do Diretório Nacional do partido, e submetido a um processo disciplinar da legenda em Ribeirão Preto Palocci foi ao ataque, com a carta de quatro páginas e assinatura de próprio punho.

O documento é endereçado à presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann.

Palocci desafia Lula. "Até quando vamos fingir acreditar na autoproclamação do homem mais honesto do país enquanto os presentes, os sítios, os apartamentos e até o prédio do Instituto (!!) são atribuídos a Dona Marisa?", reagiu.

Palocci escreveu que "sabia o quanto seria difícil passar por tantos desafios políticos sem qualquer desvio ético".

"Sei dos erros e ilegalidades que cometi e assumo minhas responsabilidades", admite. "Mas não posso deixar de destacar o choque de ter visto Lula sucumbir ao pior da política no melhor dos momentos de seu governo."

No interrogatório a Moro, Palocci disse que Lula fechou um "pacto de sangue" com a Odebrecht - em troca da superpropina de R$ 300 milhões para o partido e para ele próprio, o então presidente teria propiciado facilidades para a empreiteira nos governos petistas.

Na carta, o ex-ministro disse. "Com o pleno emprego conquistado, com a aprovação do governo a níveis recordes, com o advento da riqueza (e da maldição) do pré-sal, com a Copa do Mundo, com as Olimpíadas, 'o cara' nas palavras de Barack Obama, dissociou-se definitivamente do menino retirante para navegar no terreno pantanoso do sucesso sem critica, do "tudo pode", do poder sem limites, onde a corrupção, os desvios, as disfunções que se acumulam são apenas detalhes, notas de rodapé no cenário entorpecido dos petrodólares que pagarão a tudo e a todos."

Palocci afirma ter presenciado "o desmonte moral da mais expressiva liderança popular que o país construiu em toda nossa história".

Na carta, Palocci afirma que recebeu "as notícias de abertura de procedimento ético em razão das declarações no interrogatório judicial ocorrido no último dia 6 de setembro de 2017". O ex-ministro enumerou sete respostas ao PT.

Em uma delas, afirmou estar "disposto a enfrentar qualquer procedimento de natureza ética no partido sobre as ilegalidades" que cometeu durante os governos do partido.

"Ressalto que minha principal motivação nesse momento é que toda a verdade seja dita, sobre todos os personagens envolvidos. Sob o ponto de vista político, estou bastante tranquilo em relação a minha decisão. Falar a verdade é sempre o melhor caminho. E, neste caso, não posso deixar de registrar a evolução e o acúmulo de eventos de corrupção em nossos governos e, principalmente, a partir do segundo governo Lula." 
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