Base comemora indicação de Andrada para relatar denúncia contra Temer

"Ele vai fazer um relatório com base na própria consciência. A escolha foi benfeita, pois o governo quer alguém que tenha capacidade técnica para uma denúncia inócua", avaliou o deputado Beto Mansur (PRB-SP)

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Gustavo Lima/Camara dos Deputados

A decisão do presidente da Comissão de Constituição e Justiça, Rodrigo Pacheco (PMDB-MG), de escolher o deputado Bonifácio de Andrada (PSDB-MG) como relator da segunda denúncia contra o presidente Michel Temer pegou a Câmara de surpresa e, mais ainda, os tucanos. “Essa decisão é definitiva?”, questionou preocupado o deputado Betinho Gomes (PSDB-PE). “É”, respondeu Pacheco. Betinho apenas balançou a cabeça desanimado.
 
 
O deputado pernambucano é o coordenador do PSDB na CCJ. Pacheco não conversou com o líder do partido na Câmara, Ricardo Trípoli. “Mas vou ligar para ele”, prometeu. Dois dias atrás, Trípoli pediu para que nenhum nome do partido fosse escolhido para relatar a nova denúncia contra o presidente. O PSDB rachou na tramitação da primeira acusação e Trípoli foi obrigado a encaminhar o voto contrário em plenário, rejeitando o texto do deputado Paulo Abi-Ackel (PSDB-MG).

“A jogada do Pacheco foi genial, ele colocou o PSDB nas cordas de novo”, celebrou um líder governista. Na hora do almoço, o presidente Michel Temer se encontrou com alguns deputados. Na Câmara, a decisão estava para ser tomada. Um dos convivas garantiu que o presidente estava tranquilo. O mesmo interlocutor questionou o ministro da Secretaria de Governo, Antonio Imbassahy, se o nome que seria indicado era bom. Discreto, o ministro apenas sorriu. O parlamentar entendeu o recado.

Rodrigo Pacheco elogiou Bonifácio, lembrando que ele é o decano da comissão, um parlamentar respeitado e com grande conhecimento jurídico. “As questões partidárias serão superadas, vou conversar com Trípoli até amanhã (hoje) prometeu”. Pacheco também confirmou que o deputado Alessandro Molon (Rede-RJ) pedirá o fatiamento da denúncia, para que sejam analisados em separado os processos contra Temer e os ministros Eliseu Padilha (Casa Civil) e Moreira Franco (Secretaria-Geral).
 
Marcelo Camargo/Agencia Brasil
 

A avaliação é de que, diante da crise vivida pelo PSDB após o afastamento de Aécio Neves do mandato de senador, a escolha de Bonifácio poderá servir para fidelizar uma parte da bancada alinhada ao Planalto. Quem sabe até ampliar esse apoio. “Um nome como o Bonifácio pode convencer alguns cabeças pretas do PSDB da nulidade dessa denúncia”, declarou um dos vice-líderes do governo na Casa, Beto Mansur (PRB-SP).

Para Mansur, Bonifácio tem profundo saber jurídico. “Ele vai fazer um relatório com base na própria consciência. A escolha foi benfeita, pois o governo quer alguém que tenha capacidade técnica para uma denúncia inócua. Ela é pior que a primeira, é mais fraca”, atacou Mansur. Percebendo o que dissera, o parlamentar tentou se redimir. “Não estou antecipando o relatório do deputado. Ele fará uma apresentação técnica e eu espero que positivamente”,  completou.

O deputado Chico Alencar (PSol-RJ) ficou visivelmente desconfiado com a indicação de Bonifácio. “Vejo com preocupação. Bonifácio está no parlamento desde 1979 (10 mandatos). Para progredir, o Brasil precisa superar o derretimento e o descrédito das instituições”, alertou Chico. “A gente espera que ele faça um relatório que nos surpreenda”, afirmou. “A pergunta que faremos na CCJ, no plenário e ao relator é: é de interesse público que a investigação prossiga? Para nós, é elementar que sim”, defendeu Chico.


Tensão

Aliviados, os parlamentares do DEM comemoraram a escolha de Bonifácio. A exemplo do PSDB, o partido não queria relatar a denúncia porque o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ) está na linha de sucessória de Temer. “Qualquer voto que um de nós proferisse interpretariam como um movimento alinhado com o Rodrigo. Mesmo que não fosse”, justificou  o deputado Marcos Rogério (SP).

O líder do partido na Casa, Efraim Filho (PB), lembrou que Bonifácio representa idoneidade e saber jurídico. “O Brasil é maior que nomes, pessoas e partidos. Decisões precisam ser pautados nas provas”, disse Efraim. “Se a votação acontecesse hoje, Temer escaparia. Mas o número de votos a favor da denúncia seria maior do que os contrários”, afirmou o deputado Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força (SD-SP).

“O governo vai ter que trabalhar muito. Eles não têm articulação política. Há quatro meses eu peço uma audiência com o ministro Imbassahy e ele não me atende”, protestou o líder do PP na Casa, Artur Lira (AL). Os parlamentares querem agilizar a liberação de emendas e cargos e o cumprimento de acordos anteriores. “Aí que mora a dificuldade. Os parlamentares querem benesses que estão escassas neste momento”, reconheceu um aliado que já integrou as fileiras do Executivo como ministro.

Passada a fase da escolha do relator, interlocutores palacianos afirmam que é hora de aguardar o parecer técnico do relator. E que é cedo, neste momento, para se contar votos. Desde a quarta-feira, o presidente tem reservado a agenda para parlamentares em busca de mapear as insatisfações contra o governo.

"Um nome como o Bonifácio pode convencer alguns cabeças pretas do PSDB da nulidade dessa denúncia”
Beto Mansur, vice-líder do governo na Câmara

"A pergunta que faremos na CCJ, no plenário e ao relator é: é de interesse público que a investigação prossiga?”
Chico Alencar (PSol-RJ)

Validade da Ficha Limpa

O Supremo Tribunal Federal retomará na próxima quarta-feira julgamento que pode ter implicações diretas nas próximas eleições ao definir o alcance da inelegibilidade fixada pela Lei da Ficha Limpa para políticos condenados por abuso de poder político e econômico. Ontem, cinco dos 11 ministros votaram para que o prazo de inelegibilidade da Lei da Ficha Limpa atinja quem foi condenado por abuso de poder político e econômico antes da legislação entrar em vigor. A norma foi editada em 2010 e passou a ter validade em 2012. A lei prevê que são inelegíveis candidatos condenados por abuso de poder econômico ou político para a eleição na qual concorrem e as que se realizarem nos oito anos seguintes. 
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