Reforma política está aquém dos anseios do povo

Especialistas apontam que mudanças tímidas na legislação eleitoral, com a classe política focando os esforços na aprovação de um fundo para bancar campanhas, passam longe do que a população espera. Receio é de que o eleitor se afaste ainda mais da disputa nas urnas

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postado em 09/10/2017 08:00

Viola Júnior/Esp. CB/D.A Press

Nos últimos sete meses, deputados se debruçaram sobre a reforma política sancionada na semana passada pelo presidente Michel Temer. Só o deputado Vicente Cândido (PT-SP) elaborou mais de 15 relatórios de projetos que tratavam de diversos temas para alcançar consenso entre os parlamentares. Em meio a muitas polêmicas e disputas por interesses próprios, o resultado ficou bem aquém do esperado, se resumiu a alterações eleitorais pontuais e bem distantes dos anseios da sociedade. Na opinião de especialistas, o desejo de mudança expressado pela população, desde as manifestações que movimentaram o país em 2013, passou longe do texto entregue pelo Congresso.



Diante do impasse a respeito de sistemas eleitorais e mudanças significativas, políticos focaram a nova lei na busca por recursos para a campanha do ano que vem, já que o Supremo Tribunal Federal (STF) proibiu, em 2015, o financiamento empresarial e as dificuldades ficaram explícitas nas eleições municipais de 2016. A solução foi a criação de um Fundo Especial de Financiamento de Campanha, previsto para alcançar cerca de R$ 1,7 bilhão, abastecido com dinheiro público. A ideia afastou ainda mais o eleitor.

De acordo com o sociólogo Bruno Borges, o momento de crise e de instabilidade é inadequado para reformas estruturantes por causa da descrença da sociedade em relação à política. “A população sente dificuldade em reconhecer a legitimidade do que é feito. Tudo que vem da política é visto como algo ruim. Ainda mais quando as soluções são costuradas dentro dos gabinetes, longe das pessoas. Isso estimula esse sentimento que afasta a sociedade dos partidos, do processo eleitoral e da política em si. Estamos observando a pior das patologias da democracia”, comenta Borges.

“Transparente”

O professor ressalta, por exemplo, que o fundo de financiamento público de campanha é uma medida boa, mas o cidadão o enxerga como algo que está levando o dinheiro da saúde ou da educação direto para o bolso dos candidatos. “Temos um país continental e, para a democracia ser real, as campanhas precisam chegar a todos os cantos do Brasil. Então, diante de uma campanha mais barata e com a proibição do financiamento empresarial, o fundo público é, sim, uma solução. Mas o descrédito é tão grande que a gente desconfia da motivação de tudo. Uma reforma política tem de ser clara e transparente, com participação social”, acrescenta.

Na opinião do senador Reguffe (sem partido-DF) — que votou contra o projeto debatido por apenas 20 minutos pelos senadores —, o que o Congresso fez não foi uma mudança no sistema político, mas alterações para beneficiar grupos e interesses específicos. “Essa reforma mostra o quanto o Congresso está divorciado da sociedade brasileira. Enquanto a população sofre sem saúde e educação, cria-se um fundo bilionário com recursos públicos”, critica.

O diretor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (Ipol-UnB), Paulo Calmon, comenta que a reforma buscou somente a sobrevivência política de quem está hoje no Congresso. De acordo com o professor, a falta de consenso se deu, justamente, porque a maioria estava de olho nas urnas e barrou decisões que pudessem afetar a reeleição. “Isso é natural sempre que uma reforma é feita às vésperas de uma eleição e é deliberada totalmente no âmbito dos congressistas já eleitos. O contexto dessa reforma foi inadequado. Há um deficit de representação, um problema fundamental na conexão eleitoral, entre eleitos e eleitores. Isso precisa melhorar”, afirma.

Calmon destaca que não existe modelo eleitoral ideal, todos têm vantagens e desvantagens, mas existe um conjunto de regras que permite estabelecer um sistema de representação que vai melhorando a democracia ao longo do tempo e isso precisa ser exposto e debatido com a sociedade. “A nossa grande crise é a da democracia. Ela é o pano de fundo por trás de todas as outras crises. Agora, optou-se por não mudar o sistema eleitoral, mas o país pode aperfeiçoar isso e o debate tem de ser precedido de uma ampla participação social. A solução é mais democracia e não menos, como defendem alguns por aí”, defende o professor.

Visão positiva

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Gilmar Mendes, acredita que, dentro de um cenário no qual o Congresso se encontra com uma agenda pesada entre denúncias e escândalos, o resultado da reforma foi positivo. “Claro que poderia ter sido melhor. O ideal seria que tivesse mudado o sistema eleitoral, mas era necessário um clima de maior tranquilidade e racionalidade”, pondera.

Apesar de ter passado o prazo para valer em 2018, deputados e senadores não desistiram de alterar o sistema eleitoral e as discussões sobre distritão, distrital misto, e outros modelos permanecem nas duas Casas legislativas. Depois de admitir que a reforma aprovada foi a “possível”, o relator Vicente Cândido insistirá no debate na Câmara. E, no Senado, a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado aprovou, na última quarta-feira, uma proposta que estabelece o voto distrital misto no país. Será debatida em plenário a partir desta semana.

 

Distância intensificada 

 

A aprovação de uma reforma política que contribui para afastar ainda mais os eleitores dos eleitos pode repeli-los das urnas. Dados das últimas eleições demonstram um aumento na ausência dos cidadãos no processo eleitoral. Na eleição suplementar que elegeu um novo governador para o Amazonas, em agosto deste ano, a soma de abstenções, votos brancos e nulos chegou a mais de um milhão, o que significa quase 50% da população apta a votar no estado. A quantidade de nulos bateu recorde chegando a 342.280 votos. Nas eleições municipais de 2016, a soma da rejeição chegou a 32,5%.

O sociólogo Bruno Borges aposta em um cenário de ausência massiva de todas as classes sociais nas urnas no ano que vem, por causa da negação e do desencantamento com a política. “A não ser que se consolide um cenário muito polarizado, de extrema-direita e extrema-esquerda com chances de eleição. Isso fará as pessoas se envolverem. A polarização incita, incentiva o olhar e a atenção do eleitor. O medo de uma vitória do grupo contrário servirá para mobilização”, pondera.

Já o presidente do TSE, ministro Gilmar Mendes, aposta o contrário. Na opinião do magistrado, 2018 significa um “ritual de passagem” para o brasileiro, que tem no pleito a expectativa de renovação, de superação para um país egresso de uma crise. “Historicamente, temos um índice baixo de abstenção e esperamos uma presença muito alta nas urnas. A esperança de mudança estimulará o eleitor.” (NL) 

 

 

 

  • R$ 1,7 bilhão
Valor estimado que terá o Fundo Especial de Financiamento de Campanha, sancionado, na última sexta-feira, pelo presidente Michel Temer

 

 


“A população sente dificuldade em reconhecer a legitimidade do que é feito. Tudo que vem da política é visto como algo ruim”

Bruno Borges, sociólogo
  

 

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João
João - 09 de Outubro às 10:37
SERÁ QUE VAI PREVALECER O ACORDÃO DE JUCA PROPOSTO AO STF?