Partidos buscam caras novas para campanhas após prisão de marqueteiros

Prisão de marqueteiros petistas, avanço das plataformas on-line e mudanças na legislação levam ao surgimento de uma nova geração de profissionais para tocar as campanhas do ano que vem. Em tempo de dinheiro curto, uso da internet é uma boa aposta

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postado em 29/10/2017 08:00 / atualizado em 29/10/2017 09:29



Consequência dos desdobramentos do mensalão e do petrolão, a queda dos dois marqueteiros mais vitoriosos do país levou partidos e candidatos a iniciar uma verdadeira peregrinação em busca de novos nomes para orientar as candidaturas. As prisões de João Santana e Duda Mendonça abriram espaço para novos profissionais e, com as mudanças no sistema eleitoral que limitam os recursos financeiros de quem busca se eleger, a expectativa é pelo fim das campanhas exorbitantes. Especialistas acreditam que para vencer economizando tempo e dinheiro, sai na frente quem souber usar a internet.


É o marqueteiro quem decide a quais compromissos o candidato vai comparecer, com quem ele deve falar e como ele pode abordar determinados assuntos. Trata-se de um dos mais delicados assuntos da República: a construção da imagem. Integrante da equipe do prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, o marqueteiro Marcelo Vitorino vai tentar eleger Daniel Vilela como governador de Goiás e Antônio Joaquim para comandar o Mato Grosso, em 2018. “Com a aprovação da reforma política, o dinheiro foi cortado, mas a arrecadação ganhou novos contornos. Agora, o candidato pode comercializar produtos e patrocinar publicações no Facebook”, diz.

Quanto às vendas de produtos, Vitorino afirma que isso não será um problema, visto que o brasileiro tem o que ele chama de “cultura do escambo”. Por isso, sugere, é melhor vender do que pedir. “Se você anunciar uma caneca personalizada de R$ 10 a R$ 50, o cara quer. Mas, se pedir os R$ 10 em dinheiro sem dar nada em troca, não é viável porque o eleitor simplesmente não aceita. A nossa vida ganha um modelo ianque, mas quem tiver ideologia consegue se virar”, acredita.

Pelos cálculos do marqueteiro, as regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) deixam 30 dias de espaço livre para se trabalhar a imagem dos candidatos. Por isso, o uso de uma ferramenta rápida e de alta penetração torna-se fundamental. “A resposta para isso é a internet. E, seguindo os novos moldes em que o cara vai poder usar 10% do dinheiro da campanha patrocinando publicações nas redes sociais, vamos realizar um sonho: falar o que queremos para o público que nos atende.”

Vitorino acredita que a construção de um nome ultrapassa os antigos bordões e que, hoje, só garante bons resultados nas urnas quem consegue gerar conteúdo. “A internet permitiu o contato direto entre os eleitores e o candidato. Quem não tem nada para falar acaba esmagado. Quando a televisão era o único meio de se ter essa conversa, o público não tinha como escapar do horário eleitoral. Agora que tudo está indo na direção da internet, você precisa de um bom material. Senão, o espectador simplesmente vai embora atrás de outra coisa”, complementa o marqueteiro.

Plataformas

Para Marcelo Senise, presidente da agência Social Play, é possível economizar até 40% usando a internet como principal meio de propaganda. Ele fez essa constatação trabalhando nas plataformas on-line dos então candidatos a governador José Roberto Arruda (PR-DF) e Jofran Frejat (PR-DF), além de auxiliar, em determinados momentos, o ex-governador Agnelo Queiroz (PT-DF). “Acredito muito nas redes sociais. É nesse campo que eu acho que o candidato consegue se diferenciar”, explica.

Segundo o marqueteiro, “o cara que não tem dinheiro sobrando, mas conta com mão de obra qualificada, consegue ganhar as eleições. Foi o que ocorreu num caso em Rondonópolis (MT). Peguei um candidato que era o último nas pesquisas e desenvolvemos uma ferramenta de comunicação pelo WhatsApp que, hoje, com o cara eleito, se tornou o mais importante canal de divulgação da prefeitura”.

Embora não cite nomes, Marcelo Senise garante negociar trabalhos para candidatos na escala federal. Seriam clientes interessados em ocupar cadeiras de deputado e senador. “Não dá para adiantar essas coisas porque a política muda muito, e muito rápido. Mas, tendo em vista um eleitor muito mais criterioso e a dificuldade para escapar dos escândalos, o cara que não tem um bom marqueteiro encontra maior dificuldade na hora de enfrentar as urnas”, complementa.

Também são importantes articuladores e relativamente “novos” no mercado o marqueteiro Lula Guimarães, responsável por muitas ações de João Doria, prefeito de São Paulo; Chico Mendes, alicerce da campanha de Fernando Pimentel para o governo de Minas Gerais; Maurício Carvalho, que trabalhou com o ex-ministro Alexandre Padilha nas últimas eleições para o governo de São Paulo; e Eduardo Braga, que atua entre o Acre e Amazonas.

Avaliação
“O que você pode observar é um grande número de pessoas trabalhando por trás dos nomes fortes da política, mas de uma maneira totalmente diferente de 10 anos atrás. Acabou aquela história de os marqueteiros organizarem situações envolvendo helicóptero, distribuição de santinhos em show, candidato bem-vestido sendo engolido pela multidão maltrapilha e todo aquele esquema cinematográfico para tentar criar uma áurea de santidade no assessorado. Isso é over. O país está em crise. Ficou brega. Acabou”, diz a cientista social Viviane Miller, especialista em ciências políticas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS). “O povo quer ver ideias e promessas que vão ser cumpridas. Isso faz parte das atribuições de um bom marqueteiro. Espero que esses novos profissionais consigam dar à sociedade o recado que ela quer ouvir”, acrescenta.
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