Brasília deixa de ser passagem e vira moradia para autoridades políticas

Considerada a melhor cidade do país para se viver, Brasília deixa de ser ponto de passagem para autoridades que desejam permanecer próximas ao cenário político

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.
AFP / EVARISTO SA


Antes considerada apenas um ponto transitório na carreira e na vida de autoridades e políticos que tinham cargos na escala federal, Brasília passou a ser, nos últimos anos, uma possibilidade concreta de moradia para essas pessoas — mesmo após deixarem os postos que ocupavam. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), trata-se da terceira maior cidade brasileira e com a melhor qualidade de vida entre as unidades da Federação. A capital também é uma espaçosa tela em branco para a atuação política de figuras com influência ou em busca dela. Quem fez carreira aqui e escolheu ficar, garantem especialistas, viu em Brasília a possibilidade de continuar em meio ao poder.


Há duas décadas, o Distrito Federal sequer era citado entre os 10 melhores lugares brasileiros para morar. Hoje, oferece as melhores condições de vida do país. Um dos figurões que trocou a terra natal por Brasília mesmo após o fim do vínculo com o poder é o ex-presidente da República José Sarney. Aqui, Sarney, que não exerce mais nenhum cargo público desde 2015, ainda é visto como alguém “superinfluente” — conforme qualificou um servidor do Senado Federal que serviu ao maranhense tanto no Congresso quanto no Planalto. Para o funcionário, a imagem é de que José Sarney, embora fora da política, tenha se tornado padrinho de antigos políticos e conselheiro dos novos. Alguém para se estar próximo.

“O Sarney é indispensável por aqui. Por isso, ele não se mudou. É um cara que tem ilha, um monte de terreno no Maranhão e dinheiro suficiente para morar onde quiser, só permanece em Brasília pela proximidade com o poder”, concluiu o assessor, também apadrinhado. Quando não está envolvido nos bastidores da República, no entanto, o ex-presidente cuida das costas, sempre frágeis; e previne-se contra as crises de enxaqueca, que, no passado, lhe trouxeram muito desconforto.

O ex-ministro Ricardo Berzoini, que esteve à frente de três pastas — Previdência, Trabalho e Secretaria-Geral ao longo dos 13 anos de gestão petista —, trocou o domicílio eleitoral de São Paulo para Brasília e vê a cidade como opção para concorrer a algum cargo político em 2018. Mas Berzoini garante ter dado “sua cota de sacrifício” na vida pública e , agora, pretende apenas escrever e acompanhar os filhos. Frequentador de um simplório botequim no Lago Norte, ele é popular nos nobres círculos da capital. “Tenho um grupo de amigos do futebol e nós costumamos esticar uma cervejinha aos sábados. Mas nada de articulação política”, afirma.

Privilégio

“Você sabe com quem está falando?”. Para o cientista político e professor aposentado da Universidade de Brasília (UnB) Lúcio de Brito Castelo Branco, esse “termo canalha” resume perfeitamente o espírito da Brasília habitada pelas autoridades. “Aposentados ou destituídos ainda se apresentam desta maneira. Os filhos, igualmente. É por isso que ficaram aqui, mesmo estando, teoricamente, afastados do alto escalão. Vivemos na cidade onde os poderosos podem tudo: defender bandido, inocentar pervertido e transformar os maiores absurdos em realidade. Sendo privilegiado, mesmo nos bastidores, como podemos observar em diversos casos, você consegue qualquer coisa”, critica.

Procurador-geral da República por seis anos, Aristides Junqueira conta que, diferentemente dos políticos, que têm mandatos mais curtos, outras funções exigem que se fique mais tempo em Brasília. “Não posso discordar dessa ideia de que uma autoridade aposentada que permanece em Brasília consegue abrir portas, porque isso realmente faz a diferença. Nesta capital, considerada a sede do poder, estão aqueles que exerceram ou exercem poder e, claro, querem continuar perto dele.” Do Rio de Janeiro, onde estava quando falou com o Correio, o hoje advogado contou que a motivação é outra. “Aqui, fiz família. Tenho dois filhos que moram em Brasília e quiseram ficar quando propus uma mudança.

Outra figura de prestígio que mora em Brasília é o embaixador aposentado Paulo Tarso Flecha de Lima. Outrora festejado anfitrião em missões diplomáticas pelo mundo, agora prefere passar os dias na tranquilidade da ampla chácara no Lago Sul. Ele ocupou os cobiçados postos de representante do país nos Estados Unidos, em Paris, na Itália e em Londres, onde a finada esposa, Lúcia, tornou-se amiga da princesa Diana. Para se manter fluente em outros idiomas, o embaixador faz aulas particulares. Aproveita a companhia da filha, Isabel, que mora em uma casa contígua, e recebe apenas amigos muito próximos.

Qualidade de vida

Há dois meses, a consultoria Mercer divulgou ranking de melhores cidades do mundo para se viver. Quatro delas são brasileiras, mas nenhuma está entre as 100 primeiras. Considerando 39 fatores, Brasília ficou em primeiro lugar no ranking brasileiro, ocupando a 106ª posição, seguida de Rio de Janeiro, São Paulo e Manaus. Na mesma semana, o Diário Oficial da União trouxe as novas estimativas sobre a população brasileira feitas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O Distrito Federal que, no ano passado, tinha 2,98 milhões de habitantes, agora tem 3,039 milhões. No país, são mais de 207 milhões. Segundo a Associação de Bares e Restaurantes, o DF é o terceiro polo gastronômico do Brasil.

Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.