Península dos (não) ministros: região deixa de ser usada por autoridades

Agora, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), última figura política que mora no local, é vizinho de grandes empresários, advogados, escritórios e diplomatas

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postado em 30/10/2017 06:00 / atualizado em 30/10/2017 00:33

Hamilton Ferrari/Esp.CB/D.A


A Península dos Ministros, na QL 12 do Lago Sul, historicamente ocupada por autoridades, não tem mais representantes do Executivo. No primeiro semestre deste ano, o governo vendeu a última residência oficial na região, que era do Ministério da Fazenda. Agora, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), última figura política que mora no local, é vizinho de grandes empresários, advogados, escritórios e diplomatas.

 

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O nome da região se refere ao formato, com acesso ao Lago Paranoá por todos os lados. No local, há a casa oficial da presidência do Senado e a do Ministério de Relações Exteriores, mas Eunício Oliveira (PMDB-CE), presidente da Casa Legislativa, e Aloysio Nunes, chefe do Itamaraty, não moram no local. Os imóveis são usados somente para encontros políticos.

O perfil dos habitantes mudou desde a saída dos ministros. Marcos Drumond Coelho, 42 anos, presidente da Associação de Moradores da QL 12, está há 37 anos no local e acompanhou a história da região. Segundo ele, a maioria dos moradores hoje é aposentada. “Desde 1990, quando o então presidente (Fernando) Collor promoveu a venda dos imóveis funcionais do Poder Executivo, o perfil da península mudou radicalmente. Os imóveis funcionais que ainda existem são do Legislativo e do alto comando das Forças Armadas. A QL 12 passou a ser o endereço preferido dos grandes escritórios de advocacia”, comenta.

A península tem 18 conjuntos residenciais e dois parques para lazer, o Península Sul e o Asa Delta. Ambos têm trilha e local para descanso. Moradores e vendedores de imóveis dizem que as casas são mais caras por causa da localização e da pompa do nome, que dá fama ao local. Geraldo Vasconcelos, 84, diretor de imobiliária, vende residências e vive no local desde 1972. “Muita gente tem interesse em morar porque é um local sossegado, tem guarita, associação que cuida da vistoria e dos conjuntos. É realmente um endereço ‘VIP’, sem muitas ocorrências de violência”, garante.

Levantamento feito com imobiliárias mostra que as casas não são vendidas por menos de R$ 5 milhões. “O ambiente tem fama de bairro chique. Além disso, tem acesso às duas pontes para o Plano Piloto de forma fácil”, afirma Vasconcelos. Por isso, com a saída dos ministros da península, os grandes empresários e os advogados ocuparam a quadra. A exigência pelo alto padrão faz com que a região tenha uma grande estrutura para segurança, com câmeras e vigilantes. Cássio Veloso, 35, corretor de imóveis, conta que as casas disponíveis para o aluguel ganham novos hóspedes rapidamente, entre um e seis meses. “O imóvel é de alto padrão e diferenciado. É para cliente mais exigente, que se importa com detalhes”, comenta. Ele destaca que o valor mensal do aluguel varia de R$ 20 mil a R$ 70 mil.

 

 

"Os imóveis funcionais que ainda existem são do Legislativo e do alto comando das Forças Armadas. A QL 12 passou a ser o endereço preferido dos grandes escritórios de advocacia”
Marcos Drumond, presidente da Associação de Moradores 


Segurança aumenta valores

Com a saída das autoridades, cresce a quantidade de empresas e de escritórios de advocacia na Península dos Ministros. Dados da associação de moradores revelam que 30% dos imóveis da QL 12 não são mais residenciais. Um deles é o escritório de advocacia Jacoby Fernandes. Os sócios escolheram o local pelo fato de estar muito próximo à Esplanada dos Ministérios. Os advogados atuam com tribunais superiores e a localização permite que o trânsito não seja intenso. A sede está lá desde 2010. Entretanto, o presidente da associação de moradores, Marcos Drumond Coelho, afirma que a presença de escritórios e empresas incomoda. “Atrapalha muito os moradores, sobretudo quando ocupam as ruas com os carros de funcionários e clientes”, afirma.

O administrador Bener Claudino, 23 anos, morou durante 17 anos no local. Ele só tem elogios à península, onde passou da infância até a fase adulta. “É extremamente seguro, porque a rua é sem saída para fugas. Em termos de beleza e moradia, é um ponto maravilhoso. Sempre muito tranquilo”, destaca. A família de Claudino está vendendo a casa no local. Ele diz que ela é “um pouco antiga” e menor que o padrão das outras residências. O valor estimado é de R$ 5,9 milhões. Segundo ele, como a qualidade de vida é melhor, é inevitável que os terrenos sejam mais caros. “Só o espaço custa R$ 4 milhões. Em outras quadras do Lago Sul, um terreno similar é a metade do preço”, detalha.

“A quadra não é uma passagem para outro lugar, é uma área sem saída. Só entra quem realmente vem para cá. Essa característica é o grande diferencial”, acrescenta Drumond. Para o presidente da associação, há uma “mística” em torno da quadra, que é o próprio apelido. “Lamento profundamente isso, porque ser ministro, há muito tempo, deixou de ser sinônimo de algo bom, pelo contrário. Hoje, ser ministro é atestado de desonestidade. A fama passou a ser algo prejudicial”, lamenta.

Orla

Outra iniciativa que mudou o perfil da região foi a ação do governo do Distrito Federal para desobstruir a orla do Lago Paranóa. A maioria dos moradores teve de recuar as cercas e diminuir os terrenos que invadiam área pública. Muitos deles alegam que a ação trouxe aumento da sensação de insegurança para a região. “Pessoas passaram a circular na frente das casas em um local ‘abandonado’. Antes, era cuidado pelos moradores. O governo não consegue cuidar de lá. Ficou uma chateação, lixo jogado e ponto para uso de drogas”, reclama Bener Claudino.

Fabio Pereira, secretário-adjunto da Casa Civil do Distrito Federal, repudia a afirmação e destaca que o aumento da percepção da violência pode ser um discurso para se queixar da desobstrução da orla. “Vale lembrar que os moradores não gostaram do processo de recuo das cercas, então, a reclamação é um processo natural. Eu, particularmente, acompanho com muita frequência os dois parques da Península e, até hoje, não tive conhecimento de assalto”, argumenta.

Pereira diz que o governo ampliou as trilhas e está no processo de revegetação com 20 mil mudas. “Na semana passada, começou a ampliação da iluminação, permitindo que os parques deem acesso ao público por mais tempo.” Atualmente, as áreas de lazer funcionam das 6h às 18h. A intenção é interligar, até meados de 2018, as trilhas do Asa Delta, do  Península do Sul e do Pontão. 
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