Planalto não vai se pronunciar sobre as declarações de Torquato Jardim

Ministro reafirmou a existência da associação de policiais do Rio de Janeiro em cargo de comando com o crime organizado; Jungmann, da Defesa, diz que a cidade está "refém dos criminosos"

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Minervino Junior/CB/D.A Press - 15/8/17


A crise entre Rio e Brasília após as acusações feitas pelo ministro da Justiça, Torquato Jardim, de que a cúpula da Polícia Militar é dominada pelo crime organizado, só aumenta. Para tentar amenizar os efeitos do confronto, o Palácio do Planalto decidiu blindar Torquato e não se pronunciar oficialmente sobre o assunto, para tentar conter os estragos. Mas eles se alastram. Ontem, em entrevista ao programa CB.Poder, uma parceria do Correio Braziliense com a TV Brasília, o ministro da Defesa, Raul Jungmann, afirmou que a cidade do Rio tornou-se refém dos criminosos, abolindo da teia social a figura da rua como espaço de convivência. “Um milhão e 100 mil cariocas estão em um regime de exceção, sem direitos e garantias constitucionais. Eles estão sob um comando da tirania do crime organizado, o que é de uma grande gravidade”, resumiu.


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Por um caminho reverso, Jungmann chegou ao mesmo raciocínio de Torquato. “Quem tem controle do território tem o voto que termina penetrando nas instituições. Aí, o crime se torna uma ameaça e uma ameaça grave, à sociedade, às instituições e à própria democracia” (leia mais na página 3). Torquato, após ser criticado pelas autoridades públicas fluminenses, não recuou e repetiu as duras palavras ditas na terça-feira. E foi além. Ele disse ter informação de que “R$ 10 milhões são gastos na Rocinha por semana com ‘gato’ de energia elétrica, TV a cabo, controle da distribuição de gás e o narcotráfico”. Em um espaço pequeno, qualificou o ministro, “você tem um batalhão, uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) lá. Como aquilo tudo acontece sem o conhecimento das autoridades? Como passa na informalidade?”

De acordo com Torquato, embora as investigações da inteligência federal não se voltem para condutas individuais ou de batalhões específicos, os dados apontam a necessidade de apurar “toda uma linha de comando”. Sobre a associação de policiais em postos de comando com o crime organizado, Torquato voltou a afirmar que ela existe e que há dados oficiais do estado que comprovam isso. “Existe um serviço de inteligência sobre tudo que eu falo. Todo serviço de inteligência é sigiloso. Você não pode dizer quem, quando, como”, destacou.

O deputado Alessandro Molon (Rede-RJ) deu entrada em uma representação no Ministério Público do Rio de Janeiro pedindo que sejam investigadas as acusações do ministro da Justiça. “As informações são gravíssimas. Diante da inércia dos poderes executivos federal e estadual, estamos pedindo que o Ministério Público tome as devidas providências e responsabilize penalmente quem for encontrado culpado”, disse.

Troca de comando

A cúpula do poder fluminense irritou-se de vez e decidiu que vai processar o ministro da Justiça. Do governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, aos comandantes da Polícia Militar, todos vão questionar as declarações dadas por Torquato. O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), classificou as palavras do ministro de “infantis” e “irresponsáveis”.

“Fiquei perplexo esperando o recuo do ministro. Em vez do recuo, ele deu uma longa entrevista reafirmando as acusações graves e relevantes. Parece uma inversão de valores. Ou duas coisas: uma empolgação juvenil — que não cabe pela experiência, idade dele — ou uma vontade não proposital inclusive de ajudar os bandidos — que foi o que basicamente ele fez dando informações do governo”, afirmou Maia.

Pezão, por sua vez, indicou um novo corregedor-geral para a PM do Rio. A primeira tarefa do coronel Jorge Fernando de Oliveira Pimenta será tentar resolver o mal-estar. A chefia da Corregedoria Interna da PM estava vaga desde que o coronel Wanderby Braga de Medeiros foi exonerado do cargo, logo após a morte da espanhola Maria Esperanza Ruiz Jimenez, baleada depois de um passeio turístico pela favela da Rocinha, em outubro.

Além disso, Pezão se reuniu ontem com a cúpula da PM na sede do governo, mas não houve um comunicado oficial sobre o que foi conversado. A avaliação na Procuradoria-Geral do Estado do Rio de Janeiro (PGE-RJ) é que o encontro tenha sido para alinhar as diretrizes de defesa contra as acusações do ministro. Além de criticar o governo e a polícia, Torquato desafiou “qualquer um” a dizer o contrário.

Para o presidente da Assembleia do Estado do Rio (Alerj), Jorge Picciani (PMDB), a “lamentável declaração” é fruto de desconhecimento ou má-fé. “Deputados felizmente não interferem na política de segurança do Rio há pelo menos 11 anos”, afirmou o parlamentar. Picciani avalia que Torquato Jardim deveria estar preocupado com a entrada de armas ilegais no Rio e o aumento da violência no país como um todo.
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