Membros dos Três Poderes estão cada vez mais ativos na internet

As redes são usadas para fazer política ou simplesmente comentar amenidades. Para especialista, hábito aproxima as autoridades do cidadão

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Reprodução/Twitter

 
O ministro Gilmar Mendes usou o Twitter para parabenizar o São Paulo em sua vitória contra o Santos, no Brasileirão. Na mesma rede, o ex-procurador-geral da República dá opiniões sobre a Justiça brasileira em francês, inglês e português, e o presidente Michel Temer publica imagens de viagens aos cantos mais desconhecidos do país abraçando a criançada de uma escola pública, e das tardes que passa ao lado de seu cachorro, Thor. Também é possível, vez ou outra, esbarrar em uma crítica do senador Renan Calheiros usando metáforas e letras em destaque para delatar bastidores da política. Após anos de resistência, finalmente, a República brasileira ficou on-line.

Quem começou com este movimento de expressar ideias e até traçar estratégias de defesa — ou de ataque — usando as redes foi o deputado cassado Roberto Jefferson. Ele usava o microblog na época em que as investigações do mensalão, esquema de desvios de dinheiro público, ainda engatinhavam. Era um dos poucos que tinha coragem de se expor na internet. Rebatia acusações e falava com os seguidores como se a eles estivesse “prestando contas”. Deixou de ser @robertojefferson e transformou-se em @blogdojefferson, uma página seguida por 166 mil pessoas “do Brasil e do mundo”.

Com a repercussão das palavras publicadas por Jefferson, outros parlamentares passaram a tomar frente das contas que antes eram gerenciadas pelos assessores. Os textos prontos e sem graça foram substituídos por postagens mais consistentes, com opiniões e críticas. Um dos últimos casos que exemplificam essa mudança foram as críticas de Renan Calheiros no caso envolvendo as malas de dinheiro de Geddel Vieira Lima. A Polícia Federal disse que Geddel era o chefe de uma quadrilha, mas Calheiros afirmou não acreditar. “Para mim, o chefe era ouTro”, escreveu, assim mesmo, com o “T” maiúsculo, numa suposta referência à participação de Temer em esquema de corrupção.

Calheiros tem 116 mil seguidores, mas fala majoritariamente de política. Assim como o ex-procurador-geral da República Janot, que, embora tenha ingressado no Twitter há apenas duas semanas, é acompanhado por 19,9 mil leitores. Ele costuma escrever, em vários idiomas, a sua percepção dos últimos acontecimentos. Elogiou, por exemplo, a visita da procuradora-geral de Paris, Catherine Champrenault. “Excellent entretien avec la procureur général de Paris, lors d’une visite au Brésil” (Ótimo encontro com a procuradora-geral de Paris no Brasil, em tradução livre). Ele também escreve em inglês e espanhol, além de português. Ali, ele negou ter intenção de se candidatar a cargos políticos, em sua segunda postagem, dia 2 de novembro.

Futebol


O apreço pelo futebol é tamanho que o gabinete de Gilmar Mendes no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é decorado com camisetas de times emolduradas e autografadas. O assunto também aparece em conversas e, claro, nas postagens do magistrado na web. “Estive no Pacaembu, acompanhando @SaoPauloFC x @SantosFC. Encontrei meu amigo Clodoaldo, grande jogador Corró. Pena que meu time perdeu!”, publicou em 28 de outubro, dia de Brasileirão.

Mendes também gosta de compartilhar reportagens em que aparece como protagonista, e, vez ou outra, se permite colocar na rede uma foto em família, como a do dia 1º de outubro, com a legenda “em família, na peixaria Lélis, em Curitiba”. “Essa ferramenta aproxima as pessoas das autoridades, o que acaba criando um sentimento de proximidade. A sociedade se sente perto das figuras consideradas inatingíveis, vê que elas estão antenadas no que ocorre no mundo e comparecem a eventos familiares, como todos nós”, afirmou a socióloga paranaense Christina Dias de Barros, da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
 
Ed Alves/CB/D.A Press
 

Em equipe


Um especialista em redes sociais que trabalhou na campanha de Dilma Rousseff — e pediu para não ser identificado — explicou que, embora exista tendência de os próprios figurões escreverem o que querem que o público veja, usando as próprias palavras e fugindo do “institucional”, algumas pessoas não conseguem agir sozinhas. Ele citou os ex-presidentes Dilma e Luiz Inácio Lula da Silva, e Temer, como exemplo. “A Dilma não entende quais as necessidades do perfil, o Lula tem dificuldade com as palavras e o Temer precisa de equipe eficiente que consiga melhorar a imagem.”

A dica, segundo ele, também serve para o presidente norte-americano, Donald Trump, que, embora conte com toda a estrutura da Casa Branca, prefere ele mesmo escrever as postagens na internet. Ele expressa opiniões políticas e faz comunicados oficiais a partir de suas contas no Twitter e no Facebook. Trump publica sozinho desde a campanha para assumir a chefia do governo, alegando que a imprensa “só escreve o que quer” e que, muitas vezes, “distorce os fatos”.

Embora os políticos e autoridades governamentais tenham se rendido às redes sociais, a penetração deles ainda é esmagadoramente inferior à das celebridades, por exemplo. Os números chegam a menos da metade, quando comparamos o perfil oficial de Temer com o de Madonna. Ele tem 842 mil, e ela, 1,9 milhão. “Cada um tem seu público”, complementa Christina Barros.

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