Opinião: O jogo de cartas dos governadores

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postado em 13/11/2017 06:00

Eles são governadores, mas podem ser chamados de jogadores de cartas. Estavam reunidos numa sala de trabalho, em Águas Claras, aqui no Distrito Federal, mas poderiam estar muito melhor acomodados em hotéis em Copacabana, no Rio de Janeiro, com roletas e máquinas de caça-níqueis em volta da mesa com feltros esverdeados. Nas mãos, em vez de canetas ou blocos, um baralho para a animada partida de blackjack. A ideia da volta dos cassinos no Brasil, proposta pelos chefes dos governos dos estados, na última terça-feira, é um jogo arriscado em que nenhum dos participantes sabe qual será resultado.


A história dos cassinos no Brasil rima com glamour e crime. A parte luxuosa do enredo apresenta cantoras como Carmen Miranda, hotéis caros, tudo em ambiente cheirando à fumaça de charuto e ao perfume A Wish, o preferido pelas mulheres da década de 1930. A parte criminosa, que se desenvolvia para além das mesas de jogos, envolvia sonegação, lavagem de dinheiro, compadrinho, exploração sexual e narcotráfico. A jogatina funcionou por aqui até 1946, quando o presidente Eurico Gaspar Dutra decidiu fechar os cassinos. No folclore político, a proibição foi um pedido da mulher dele, católica fervorosa.

Tal ação serve de base para os defensores das casas de jogos de azar criticarem a proibição no país, como se o ato de Dutra fosse moralista e religioso. É até possível que a ação do então presidente tenha origem nos “bons costumes”, mas isso não significa que os atuais defensores da proibição sejam fundamentalistas em defesa da “tradicional família brasileira”. Para além da série de crimes associados, representantes do Ministério Público argumentam que o Estado terá dificuldades de fiscalização, abrindo o flanco para a lavagem de dinheiro e caixa 2 nas eleições — um sonho para determinados políticos com o fim da contribuição de empresas.


Contradição

A pretexto de irrigar um fundo para segurança pública, governadores querem regulamentar os jogos de azar no Congresso. No pacote, estariam casas comerciais e na internet. Mas e as consequências? Entre os crimes envolvidos nas ações que correm no Superior Tribunal de Justiça (STJ), estão tráfico de drogas, falsificação de dinheiro, corrupção de agentes públicos, pagamento de propina, porte ilegal de armas, contrabando e roubo. Há ainda o próprio vício adquirido por idosos e pessoas de baixa e média rendas. Defender uma proposta sem pensar nas consequências sociais é um dos maiores erros na condução das políticas públicas, e apenas se explica pela dificuldade financeira dos estados. Mas isso não permite que governadores se transformem em jogadores agressivos de cartas.

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