Tiririca faz 1º discurso na Câmara e diz estar "abandonando a vida pública"

Deputado, que está em seu segundo mandato, se disse "envergonhado" e "decepcionado" com os colegas de parlamento

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postado em 06/12/2017 17:30 / atualizado em 06/12/2017 18:29

Reprodução/TV Câmara

 
Perto de completar sete anos como deputado federal, Tiririca (PR-SP) subiu à tribuna da Câmara pela primeira vez nesta quarta-feira (6/12). Mas, o tom do discurso não foi muito de estreia e, sim, de despedida. Eleito duas vezes com mais de um milhão de votos, o palhaço disse que está "abandonando a vida pública": "Subo nessa tribuna pela primeira e pela última vez", afirmou.
 

Durante sua fala, Tiririca pediu que os parlamentares "esquecessem as brigas e o ego e olhassem pelo país", criticou a corrupção, e puxou a orelha dos colegas. "Todos nós ganhamos bem para trabalhar. Nem todos trabalham. São 513 deputados e só oito estão entre os mais assíduos. Eu sou um dos oito. Um palhaço de circo de profissão. Nunca brinquei aqui dentro", disparou.
 
 

Visivelmente emocionado, Tiririca foi duro ao falar da situação dos hospitais públicos do país. Em um deles, no Ceará, sua mãe está internada desde segunda-feira (4/12) por problemas no coração. Por fim, o deputado relatou ter sofrido com o preconceito por parte de seus pares e disse estar saindo da Casa "envergonhado" e "decepcionado". "Eu ando nos aeroportos de cabeça erguida, mas sei que muitos dos senhores não têm essa coragem", concluiu.

Procurado pela reportagem, Tiririca, por meio de sua assessoria de imprensa, disse que vai concluir seu mandato, mas que não buscará a reeleição. De acordo com ele, essa era a ideia desde 2013 — quando seu primeiro mandato chegou ao fim. O deputado disse que, à época, ficou receoso por conta das críticas e do preconceito com que teve que lidar na Câmara. Porém, nas eleições de 2014, decidiu se candidatar novamente para "provar que fez um bom trabalho", sendo reeleito, novamente com uma votação expressiva. 

Confira a íntegra do discurso:

 
"Senhor presidente, senhoras e senhores deputados,
 
Eu subo nessa tribuna pela primeira vez e pela última vez. Não por morte, porque estou abandonando a vida pública. Já dei meu depoimento em uma entrevista e eu quero falar um pouco do que vi aqui e pedir um pouco para os colegas de trabalho: vamos olhar um pouco para o nosso país. Vamos esquecer um pouco as brigas, vamos esquecer um pouco o ego e vamos olhar para o nosso povo. O povo que eu falo é aquele povo que necessita de saúde. Eu tenho certeza que nenhum de vocês passou por isso.
 
A gente sabe que todos nós ganhamos bem para trabalhar. Nem todos trabalham. São 513 deputados. Só oito mais assíduos. Eu sou um dos oito. Um palhaço de circo de profissão. Nunca brinquei aqui dentro. Votei de acordo com o povo em todas as minhas votações se vocês fizerem um levantamento e ver como eu votei.
 
Eu tô saindo triste para caramba, tô muito chateado, muito chateado mesmo com a nossa política, com o nosso parlamento. Eu como artista popular que sou e político que estou, estou saindo chateado. Não com os meus sete anos aqui na política. Não fiz muita coisa, mas pelo menos fiz o que sou pago para fazer. Estar aqui, votar de acordo com o povo. Minhas emendas eu tento... Eu fui votado em São Paulo todo. Eu tento não repetir cidades. Eu não tenho base. Então eu mando as emendas de acordo não com votação. Cidade em que eu tive dez votos eu mando emenda pra lá. Meu trabalho eu fiz bem feito, eu saio de cabeça erguida.
 
Agora eu peço para os colegas. Cara, vocês não sabem o que é... Muitos de vocês não sabem o que é passar fome. Muitos de vocês não sabem o que é precisar de um hospital público. Você vê: eu sou um artista popular, estou político e minha mãe não tem plano de saúde. Minha mãe não tem plano de saúde. Segunda-feira eu saí às pressas do show. Domingo eu fui para o Ceará, tive que internar ela. Está no hospital público e graças a Deus está sendo bem tratada pelos doutores lá. Mas é muito triste, assim, você precisar, sabe... Seu filho adoecer e você precisar de um hospital público... A saúde...
 
Se vocês andarem como eu ando pelo país, que eu ando fazendo shows, se vocês verem como é que é o pai de família, o filho pedir comida para o seu pai e o seu pai não ter condições, porque não tem trabalho, não tem de onde tirar, vai fazer o quê? É triste e o que eu vi nesses sete anos aqui eu saio totalmente com vergonha. Não vou generalizar, não são todos. Tem gente boa aqui dentro, como em qualquer outra profissão, mas eu gostaria que vocês... Só um pedido de gente, de povo. Vamos olhar mais pelo nosso país. Vamos olhar mais pela nossa saúde. Vamos olhar mais pelo nosso povo.
 
Quero deixar aqui um abraço à galera toda da limpeza, aos seguranças da Casa, a alguns colegas que eu fiz aqui, galera da Mesa, maior respeito que tem por mim todos eles, do faixineiro até o diretor-geral, muito obrigado por tudo e eu jamais vou falar mal de vocês em qualquer canto que eu chegar e não vou falar tudo o que eu vi, tudo o que eu vivi aqui. Mas eu seria hipócrita se eu saísse daqui e não falasse realmente que eu tô decepcionado. Decepcionado com a política brasileira. Decepcionado com muitos de vocês. Muitos. Muitos.
 
Deixo o meu abraço. Aprendi muito. Muitas coisas boas com alguns veteranos aí. Sofri preconceito. Ontem mesmo, ao chegar, um colega... Colega não. A gente discutiu ali e tudo. Eu pensei até que ele ia me agredir. Depois fui levantar a ficha dele o cara é mais sujo do que pau de galinheiro. Tem mais de cinco processos aí por desvio de dinheiro público e vem falar o quê? Por eu ser um cara humilde, um cara do povo, por eu respeitar todo mundo, por eu conversar com todo mundo, sabe?
  
Eu tô saindo muito chateado mesmo e muito... É vergonhoso. Eu ando de cabeça erguida, porque eu não fiz nada de errado. Eu ando nos aeroportos de cabeça erguida. Mas eu acho que muitos dos senhores não têm essa coragem. Anda até disfarçado. De dizer que é parlamentar, porque é uma vergonha. Tá vergonhoso.
 
Eu não tô generalizando não. Tem gente boa, mas não dá para fazer muita coisa, porque a mecânica daqui é louca. Eu costumo dizer que o parlamentar trabalha muito e produz pouco. Agora... Não admito. A gente é bem pago. A gente tira livre R$ 23 mil se eu não me engano. Livre pra gente. A gente tem apartamento, direito a carro. Eu uso o meu carro. Eu não preciso do carro da Câmara. Mas a gente tem toda essa mordomia. Sem falar na carteirada que muitos de vocês dão. E eu ando de cabeça erguida, mas eu tenho certeza que eu já vi deputado se escondendo, porque para o povo realmente isso aqui é uma vergonha e eu saio decepcionado.
 
Desculpe a todos vocês. O cara falou: 'você nunca subiu para dar um discurso'. Eu falei: 'cara, eu sou ator. Se eu quisesesse subir ali para mentir...'. Ó, eu sem falar — é a primeira vez e a última vez que eu tô falando —, eu sem falar todas as duas minhas votaçõe foram mais de um milhão de votos. Sem falar. Brincando e falando a verdade. Falando a verdade na brincadeira e é vergonhoso. Eu... Muitos dos senhores... Não sei, mas é vergonhoso. É uma vergonha muito grande.
 
Eu tô saindo decepcionado mesmo, mas de cabeça erguida, porque não fiz nada, mas o pouco que eu fiz eu fiz muito. É minha obrigação e eu tô cumprindo. Obrigado a todos vocês. Obrigado pela atenção de todos e vamos olhar pelo nosso povo e pelo nosso país. Obrigado."
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