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Estado de Minas

Emprego, eleições e PEC da Previdência vão pautar os políticos em 2018

Com a virada de ano batendo à porta, emprego, retomada do crescimento e eleições estarão presentes no dia a dia da sociedade. E ainda tem a Copa da Rússia para animar o futebol


postado em 24/12/2017 08:00 / atualizado em 24/12/2017 12:04

O Brasil entrará em mais um ano eleitoral aliviado pela certeza de que, depois de quatro anos turbulentos, voltará às urnas para escolher um novo presidente. Mas deprimindo, angustiado e preocupado com o próprio futuro depois de tudo que vivenciou ao longo deste período, iniciado, indiretamente, pelas manifestações de junho de 2013. De lá para cá, o carrossel brasileiro experimentou de tudo: morte de candidato na campanha eleitoral de 2014, reeleição de Dilma Rousseff, crise econômica que devastou o mercado de trabalho, impeachment, novo governo, fracasso da política e Operação Lava-Jato.

Nunca, em um período tão curto da nossa história recente, o país passou por experiências tão traumáticas e dramáticas. Por isso, a tradicional esperança de que, daqui a uma semana, a virada da folhinha no calendário será, obrigatoriamente, um período de renascimento, soa quase como profecia, embora carregada de dúvidas agudas: que país veremos em 2018?

Emprego, PEC da Previdência, retomada do crescimento, dúvidas cada vez maiores sobre a segurança nas grandes cidades. Um sentimento de indignação com toda a classe política, que pode abrir caminho para novidades, renovações ou até aventureiros. Tudo isso, segundo especialistas ouvidos pelo Correio, povoará a cabeça dos brasileiros nesse ano que se iniciará.

“O país precisará amadurecer desta fase de angústia e sofrimento que estamos vivenciando há tanto tempo”
Carlos Eduardo de Freitas, integrante do Conselho Regional de Economia do Distrito Federal

(foto: Arte/CB/DA Press)
(foto: Arte/CB/DA Press)

 O enigma político

O que será das eleições deste ano? Poucas pessoas têm certeza quanto ao cenário político, mais uma vez fruto do poço cavado com afinco pela classe política ao longo dos últimos quatro anos. Se na virada de 2013 para 2014 o país já havia se surpreendido com o julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal, em março de 2013, o Brasil viu o submundo oficial ser escancarado pela Operação Lava-Jato, que continua fazendo estragos até hoje. “O brasileiro entra em 2018 indignado com tudo que aí está”, declara a vice-presidente da Ideia Inteligência, Cila Schulmann. “Esse quadro joga a eleição do ano que vem sob o signo de uma imprevisibilidade que não se vê desde 1989”.
Cila lembra que as eleições de 1994 também foram delicadas, porque o país vinha do trauma do impeachment de Fernando Collor, do escândalo de corrupção dos anões do orçamento e com uma inflação galopante que só foi abatida pelo Plano Real, que elegeu Fernando Henrique Cardoso. De lá para cá, as coisas correram em um ritmo mais ou menos natural de opções postas à mesa. “Agora, não. Dependendo do resultado das urnas em outubro, o país vai virar do avesso”, avalia a especialista em marketing político.

As descobertas e condenações da Lava-Jato criaram uma espécie de selo de garantia para os possíveis candidatos. A primeira avaliação para saber quem será depositário dos votos é se a pessoa é honesta, sem citações em algum caso de corrupção. “Nessa esteira, surge a figura de Jair Bolsonaro. Ele tem 30 milhões de interações diárias nas redes sociais. Vindas não de robôs, mas de pessoas espontâneas”, reconhece Cila. 

Há duas semanas, o relator da reforma da Previdência, Arthur Maia (PPS-BA), estava em um evento em seu estado e viu cinco pessoas com uma camiseta preta, a foto de Bolsonaro e a frase: “É melhor já ir se acostumando”. Maia abordou o grupo e perguntou se o deputado estava financiando o material. “Não, foi iniciativa nossa”, disse uma das mulheres.

(foto: Arte/CB/DA Press)
(foto: Arte/CB/DA Press)


Além da indignação, a aposta é de que a segurança pública também estará presente no imaginário da população. “São temas que sempre preocuparam os brasileiros, mas nunca estiveram no debate explícito. Agora será inevitável o enfrentamento dessa questão”, diz Cila. Durante a convenção do PSDB, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso admitiu que retomou o seu lado de sociólogo e passou a visitar comunidades carentes, como a da Rocinha e a da Maré, para tratar da violência e das drogas.

“Uma mãe me disse que um filho tinha cedido à criminalidade e outro, não. Mas quando a polícia chegava à casa dela, batia no filho criminoso, no filho que não era e nela. Temos de ter um estado que imponha respeito, mas que também tenha noções mínimas de cidadania e vida em sociedade”, defende FHC.

Para Cila, todo desejo de renovação que os brasileiros levarão para 2018 poderá ser frustrado por conta das novas regras eleitorais aprovadas recentemente pelo Congresso. “Tudo que vai reger a disputa eleitoral favorece quem já está aí ou quem tem ligação ao atual status quo. A indignação do brasileiro pode terminar em frustração”, conclui ela. 

A economia reage

O país entra em 2018 ainda com dificuldades no campo econômico, no entanto, com perspectivas de melhora. Mas o 1% de crescimento projetado para este ano pode ser considerado uma bênção após a queda vivida nos últimos dois anos. Dos 2,3% de crescimento do PIB e 4,3% de desempregados na virada de 2013 para 2014, o Brasil conta agora com uma massa de 12 milhões de pessoas sem trabalho. Por isso, no campo econômico, o que os brasileiros, certamente, pedirão a Papai Noel e nas sete ondas puladas no réveillon, será mais emprego.

“O país precisará amadurecer desta fase de angústia e sofrimento que estamos vivenciando há tanto tempo. Atravessamos uma depressão brutal nos últimosque deixa marcas nas pessoas individualmente e na coletividade”, afirma Carlos Eduardo de Freitas, integrante do Conselho Regional de Economia do Distrito Federal. Ele lembra que as pessoas que foram às ruas em 2013 tinham uma percepção difusa, quase intuitiva, de que algo estava errado.

Mas o PT conseguiu reeleger Dilma Rousseff para mais quatro anos. Como a realidade se sobrepôs às maquiagens financeiras, ela teve de dar um cavalo de pau no rumo, o que acabou derrubando de vez a economia. O país entrou em recessão e os empregos desapareceram.

Oposição, governo e analistas concordam com os pesadelos dos brasileiros. A economia pode até estar dando sinais de retomada, mas os indicadores apresentados pouco significam no imaginário direto dos brasileiros. Juros mais baixos? Bom sinal, prova de que a inflação está sob controle e há mais margens para a retomada do crédito. Mas não adianta a janela se abrir se as famílias não tiverem salário para cobrir os gastos diários.

Em um cenário idílico, autoridades governamentais acreditam ser possível gerar 6 milhões de empregos aí incluídos os informais captados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os planos são de que isso ocorra até o início das eleições de outubro, o que poderia impulsionar uma candidatura governista. Se esse cenário projetado se confirmar, seria uma redução da taxa atual da desocupação de 12% para 8%. Para não frustrar expectativas ou virar alvo de críticas, aliados do Planalto afirmam que não são empregos com carteira assinada, medidos pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). “Seis milhões de empregos de carteira assinada não é tarefa para 10 meses, mas para um governo inteiro. Mas não temos quatro anos para fazer isso”, reconheceu um interlocutor palaciano.

Dúvidas

Para o professor de finanças do Ibmec-DF, Marcos Melo, esses números estão inflacionados e não há certeza se será possível alcançá-los a curto prazo. “Viveremos um momento novo no país, com as mudanças no perfil do trabalho. Isso acontece não apenas por conta das alterações na legislação trabalhista. Esse é um fenômeno mundial. Além disso, a retomada dos empregos dependerá da retomada da atividade econômica, o que é algo ainda imprevisível”, afirma.

Carlos Eduardo de Freitas também dúvida dos números. E lembra que mesmo a reforma trabalhista, aprovada sob o argumento de que facilitaria a contratação de mais brasileiros, ainda não é uma alternativa confiável. Primeiro, porque podem surgir diversos questionamentos na Justiça e, segundo, porque existe uma medida provisória para regulamentar alguns pontos que não ficaram claros na proposta. “Eu gostaria de ser um pouco mais otimista, mas prefiro esperar para ver o que virá”, disse.

Que país será este?


Para o economista Carlos Eduardo de Freitas, um dos hinos compostos por Renato Russo está bem vivo, com apenas uma mudança no tempo verbal: os brasileiros terão de se perguntar “Que país será este?” “O mundo está mudando e precisamos entender isso. Que tipo de economia e sociedade esperamos daqui para frente?”

Esses dilemas, de acordo com Freitas, são inúmeros. “Nós vamos nos deparar, daqui para a frente, com a velha ou a nova política?” O apresentador de televisão Luciano Huck chegou a ensaiar uma pré-candidatura presidencial, mas acabou sendo tragado pelas circunstâncias. O prefeito de São Paulo, João Doria, também foi engolido pela candidatura tucana de Geraldo Alckmin. No fim das contas, as candidaturas tradicionais vão prevalecer. “Jair Bolsonaro terá um bom desempenho, mas não chega. Em uma eleição majoritária, você tem debates, entrevistas e as verdades acabam derretendo”, afirma um cacique do DEM.

Na economia, Freitas lembra que o Brasil precisa definir se quer um país mais aberto ou mais fechado. Nos últimos anos, temos enfrentado esse dilema, em contradição com alguns movimentos que estão ocorrendo no plano mundial, como a China, por exemplo. “Não adianta assumir o governo se não entender o que está acontecendo com o mundo”, vaticina o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Freitas lembra também outro dilema com o qual o Brasil precisará se deparar: “Seremos um país liberal ou de capitalismo de Estado?” Nos últimos anos, essa segunda opção foi mais comum, especialmente com o boom de empréstimos subsidiados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDES). “Chegou-se ao absurdo de o Tesouro ser obrigado a repassar R$ 500 bilhões para o BNDES. Claro que a conta não fecha”, reclama o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Moreira Franco.

Essa confusão acaba refletindo no próprio discurso dos partidos. “Em qualquer canto do mundo, social-democracia é uma ideologia de centro-esquerda. Só aqui dizem que o PSDB é um partido de direita. Pode não ser Marx, mas Keynes também está mais à esquerda”, diz o professor de ciência política do Ibmec-MG Adriano Gianturco. 

(foto: Arte/CB/DA Press)
(foto: Arte/CB/DA Press)

Ainda tem o futebol


Brasileiros também torcem para que Tite e companhia tragam o sexto título mundial da Rússia em 2018. Uma das razões é apagar a má impressão deixada pela Copa de 2014, quando o Brasil foi eliminado com um 7x1 para a Alemanha. Na virada de 2013/2014, o país vivia a euforia de ter ganhado a Copa das Confederações diante da Espanha e estava na expectativa do Mundial no Brasil. Quatro anos depois, os estádios viraram elefantes brancos, muitos deles afundados em denúncias de corrupção.

Uma possível vitória na Rússia traria, segundo especialistas, efeitos benéficos não apenas do ponto de vista esportivo. “Existem estudos mostrando que países que ganham a Copa do Mundo conseguem ter um incremento médio de 0,3 ponto percentual no PIB”, calcula o professor de finanças do Ibmec-DF Marcos Melo. “As vitórias aumentam a estima, a confiança e fazem com que as pessoas se sintam mais dispostas a comprar”, explica. (PTL) 

287 dias
Tempo que falta para o primeiro turno das eleições presidenciais, marcado para 7 de outubro de 2018.

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