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Estado de Minas

Julgamento de Lula levou tensão às ruas de Porto Alegre

Julgamento de Lula na capital gaúcha elevou o clima de tensão nas ruas, que ficaram tingidas de vermelho e verde-amarelo


postado em 28/01/2018 07:00 / atualizado em 28/01/2018 10:44

O TRF-4, durante o amanhecer, e os manifestantes que enfrentaram a chuva no entardecer: 2,2 mil policiais militares fizeram a vigilância nas cercanias do tribunal (foto: Simone Kafruni/CB/D.A Press)
O TRF-4, durante o amanhecer, e os manifestantes que enfrentaram a chuva no entardecer: 2,2 mil policiais militares fizeram a vigilância nas cercanias do tribunal (foto: Simone Kafruni/CB/D.A Press)

Porto Alegre — No dia em que a capital gaúcha se transformou no palco de uma batalha épica, o sol raiou perto das 6h30, iluminando a fachada do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, e a noite tardia chegou debaixo de chuva torrencial. Transfigurada, Porto Alegre, que está entre as 50 cidades mais perigosas do mundo, amanheceu armada até os dentes na terça-feira, véspera do julgamento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Além do policiamento ostensivo, que surpreendeu os moradores, a cidade sediou uma disputa mais acirrada do que um Grenal (clássico do futebol gaúcho, com uma das maiores rivalidades do país): as torcidas dos manifestantes favoráveis à condenação do petista e dos defensores do ex-presidente.

Ato na Esquina Democrática, com a presença de Lula e ares de comício eleitoral, tingiu o centro de vermelho um dia antes de a 8ª Turma do TRF-4 julgar, em segunda instância, o caso do tríplex do Guarujá (SP). Confirmada a condenação, com aumento da pena, após quase 10 horas de sessão, foi a vez das ruas serem tomadas pelo verde e amarelo da bandeira nacional. As duas manifestações foram marcadas pela emoção e pela convicção política. A diferença, contudo, era latente.

Caravanas de movimentos sociais foram levadas a Porto Alegre para engrossar o coro em defesa de Lula. A mobilização começou cedo, às 9h, em um ato de mulheres com a presença da ex-presidente Dilma Rousseff, que seria realizado na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. A falta de energia no Palácio Farroupilha, sede do Legislativo, bem no horário do evento, transferiu a manifestação para a Praça da Matriz, em frente ao local.

O corte na eletricidade e o policiamento ostensivo nas ruas instigaram os manifestantes, que acusaram o governo gaúcho de sabotagem e tentativa de intimidação. À tarde, o ato ganhou corpo na Esquina Democrática, onde Lula discursaria logo mais. Na multidão de 70 mil pessoas — segundo a organização e sem confirmação oficial —, a maioria era de pessoas de baixa renda, justamente a parcela da população cujos votos são disputados pela esquerda e por partidos de centro. Público com discurso afinado, fiel e repetitivo: “Não há provas, não há plano B, Lula é inocente, eleição sem ele é fraude, Lula presidente”. “Tem muito militante, mas também tem gente que está no embalo. Trabalhador que, mal ou bem, melhorou de vida com Lula presidente. Para o povão, ele fez muita diferença”, comentou o porteiro Marcos Vinícius Guimarães de Fraga, 40 anos, que saiu mais cedo para o trabalho porque sabia que enfrentaria uma multidão no centro da cidade.

Celebração
Entre os convictos de que o ex-presidente merece ir para a cadeia, há mais divisão, unidos na comemoração dos 3 votos a zero pela condenação a 12 anos e 1 mês de prisão em regime fechado. Algumas organizações, como o Movimento Brasil Livre (MBL) e os que defendem intervenção militar, chamaram a militância. O CarnaLula do MBL reuniu, segundo os coordenadores, cerca de 5 mil pessoas no Parque Moinhos de Vento, zona nobre da capital gaúcha.

Mas também se fizeram presentes em pontos aleatórios da cidade, de forma aparentemente espontânea, cidadãos apartidários, que vestiram as cores da bandeira para colorir as esquinas. O discurso era mais aliviado do que apaixonado: “O povo não suporta mais roubalheira”, “fim da impunidade”, “a corrupção tem que acabar”. “A decisão dos desembargadores foi longa, mas necessária para esmiuçar as provas e mostrar a isenção das instituições”, avaliou Débora Balzan, promotora de Justiça.

Antes da decisão dos três desembargadores, unânime pela condenação do ex-presidente, a roupagem bélica da cidade foi motivo de surpresa para os porto-alegrenses. O motorista de Uber Daniel Oliveira da Silva, 46, estranhou o aparato, rodando seu carro às 5h50. “Nunca vi tanta polícia na rua. Tinha até o Exército. Bem que a gente está precisando”, comentou, a caminho do TRF-4. “Com a violência de hoje, tinha de ser assim todos os dias”, avaliou a vendedora ambulante Maria Estér da Silva, 62, que, logo cedo, montava uma barraca de comes e bebes entre a região bloqueada no entorno do tribunal e a área destacada para o acampamento dos defensores do ex-presidente.

Na quarta-feira, cerca de 2,2 mil policiais militares participaram das atividades nas imediações do TRF-4, segundo a Brigada Militar. Ao fim do dia, a corporação contabilizou a prisão de 28 pessoas e apreensão de um menor após o bloqueio de vias públicas e queimas de pneus. 

Uma chuva torrencial desabou em Porto Alegre após a decisão ser proferida, no início da noite, ainda iluminada pelo horário de verão, enquanto simpatizantes, fanáticos, espectadores e cidadãos brasileiros buscavam informações sobre o que acabara de ocorrer. À medida que a água foi dando uma trégua e as decisões jurídicas eram traduzidas, outro levante se formava. Buzinaços, gritos guardados na garganta, fogos de artifício, apitos, tambores: sons que anunciaram a vitória do lado verde-amarelo na batalha de Porto Alegre. A guerra, esta continua.

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