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Estado de Minas

PT busca fôlego para se manter em pé até as eleições

Diante da condenação em segunda instância de seu maior líder e da possibilidade de vê-lo atrás das grades, o PT busca fôlego para se manter em pé até as eleições. De acordo com especialistas, a encruzilhada é comum quando ícones se tornam maiores que as próprias siglas


postado em 28/01/2018 10:37

(foto: Mauro Pimentel /AFP)
(foto: Mauro Pimentel /AFP)


O PT não pode, ainda, admitir publicamente. Mas, internamente, os principais líderes — inclusive o próprio ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva — foram avisados de que a batalha para manter o petista como candidato em outubro é inglória. Ainda assim, os planos traçados são de esticar esse réquiem até o prazo máximo, dando tempo para que seja construída uma alternativa. A dificuldade reside aí. Não apenas Lula é maior do que o PT. Os brasileiros e a esquerda, de forma geral, são personalistas e enfrentam  dificuldades para substituir ícones políticos por nomes comuns.

A política nacional ainda é extremamente personalista. O risco calculado que o PT precisa dosar é como fazer a substituição sem perder a força. Dois exemplos recentes em partidos do mesmo campo ideológico demonstraram que, sem a cabeça, o corpo definha. O PDT era muito espelhado na força do presidente Leonel Brizola. Ex-governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro, defensor da marcha da legalidade para garantir a posse de João Goulart como presidente, Brizola fundou o partido após perder a queda de braço com Ivete Vargas pelo comando do PTB.

A morte de Brizola também sepultou o brizolismo e, com isso, o PDT passou a ser uma legenda mediana. Tenta recuperar agora o protagonismo com a candidatura de Ciro Gomes ao Planalto. Esta, inclusive, depende e muito de uma transferência de votos do lulismo para ter alguma chance no pleito eleitoral. Tanto é que o pré-candidato, conhecido pela afiada língua, cessou os discursos agressivos contra Lula. Mais recentemente, outra legenda tradicional da esquerda passou por um baque, também por causa da morte do principal líder. O acidente aéreo que tirou a vida de Eduardo Campos em 2014, interrompeu uma trajetória ascendente do PSB. Agora, a sigla não sabe se insiste em uma candidatura de Joaquim Barbosa ou se  se alia ao governador tucano de São Paulo, Geraldo Alckmin.

“A realidade do personalismo político aparece de maneira mais intensa na esquerda porque eles tendem a ter uma postura mais populista e, por isso, precisam de um nome forte para se apoiar”, confirma o especialista em marketing digital Marcelo Vitorino. Para ele, a tarefa do PT não será fácil porque o sistema de transferência de votos não é automático. “Parte das pessoas votam em um candidato porque o escolhem e parte votam por rejeição a outro candidato. Com precisão, podemos dizer que apenas 30%  são transferidos”, afirma.

Padrão mundial

O professor de ciência política do Ibmec-MG Adriano Gianturco acredita que é uma falácia a teoria de que a política brasileira é mais personalista do que em outros pontos do mundo. Ele lembra vários nomes internacionais que foram eleitos com base nas próprias forças, independentemente de serem de esquerda ou não. É o caso, segundo ele, do ex-presidente da Itália Silvio Berlusconi. No Brasil, Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek foram ícones políticos sem estarem filiados a partidos de esquerda. “Na esquerda, talvez fique mais nítido porque muitos desses governantes foram revolucionários ou instalaram ditaduras. Por isso tem-se a imagem de que eram fortes individualmente”, completa Gianturco. Ele cita também  nomes como Margareth Thatcher, Ronald Reagan e Winston Churchill.

Para Lula, os cenários são turvos. Por onde a pré-candidatura passar, serão colocadas travas quase intransponíveis. A ideia, por enquanto, é não sair do páreo e brigar na Justiça para segurar uma eventual prisão. Solto, o ex-presidente poderá fazer campanha pelo país ao lado de nomes cogitados para substituí-lo, entre eles, o do ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad. Coordenador do programa de campanha do PT, Haddad pode ser alçado ao posto principal caso o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) impeça o registro da candidatura.

Esses são os planos de Lula e da turma dele, mas a instabilidade do líder já faz com que outros petistas não aceitem qualquer ordem. Medalhões como o ex-senador Eduardo Suplicy defendem prévias internas em caso de substituição. O mesmo Suplicy disputou prévias contra Lula em 2001. À época, o todo-poderoso petista estava desgastado após três derrotas ao Planalto. Lula conteve os ânimos internos, chamou o empresário José Alencar para vice, autorizou Antonio Palocci a redigir a Carta ao Povo Brasileiro para acalmar os bancos e ordenou José Dirceu a controlar os radicais. Hoje, Lula está fraco, Alencar morreu, Palocci e Dirceu estão condenados na Lava-Jato e a situação cada vez mais complicada.

 

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