Delfim Netto: "Precisamos terminar a parte fiscal que ficou inacabada"

Economistas chamam atenção para problemas na economia brasileira na última década

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postado em 29/06/2014 07:00 / atualizado em 29/06/2014 15:59

Delfim Netto e Luiz Gonzaga Belluzzo são economistas que lutaram batalhas contra a inflação nas décadas de 1970 e1980. Eles não poupam elogios ao que se conseguiu nesta área a partir de 1994. “O Real foi um plano competente, feito com muita habilidade”, diz Belluzzo, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e um dos responsáveis, como secretário de Política Econômica, pelo Cruzado, tentativa fracassada de combater a escalada dos preços em 1986. “Muita gente no PT falava que o Real não ia dar certo. Não o Lula”, conta. Leia mais matérias sobre o especial Real 20 anos

Os dois economistas chamam atenção, porém, para outros problemas que vêm se destacando na economia brasileira nas últimas duas décadas, seja como consequência dos próprios artifícios usados para derrubar a inflação desde que a nova moeda entrou em circulação, em 1º de julho de 1994, seja pela agenda inacabada da reformas. Entre os problemas, eles destacam o desajuste das contas públicas e do câmbio.

“Vamos ter de terminar um dia a parte fiscal que ficou inacabada no Plano Real”, alerta Delfim, professor emérito da Universidade de São Paulo (USP), que foi ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento durante o regime militar e mais tarde deputado federal por vários mandatos.
Mesmo no controle das contas públicas, porém, houve ganhos, nota Delfim. “A Lei de Responsabilidade Fiscal é uma pequena joia. Introduziu um equilíbrio fiscal nas unidades federadas”, diz. Mas alerta para o fato de que a lei não pode ser tomada como algo garantido: “A todo instante se tenta modificá-la”.

Entrevista com Delfim Netto




Para Belluzzo, o maior problema dos instrumentos usados para segurar os preços está na perda de competitividade para os produtos industrializados do Brasil. “Acaba-se caindo na armadilha do câmbio valorizado, um tipo de populismo agradável”, comenta.

Entrevista com Luiz Gonzaga



O economista explica que todos os planos de estabilização da América Latina nos anos 1990 recorreram de um modo ou de outro à âncora cambial. Mas destaca que o governo brasileiro fez bem em não ter optado por algo tão radical quanto os argentinos, que criaram a Lei de Conversibilidade, fixando o valor do peso em um dólar. “Fomos mais prudentes do que os hermanos, que costumam ser ou muito heterodoxos ou muito ortodoxos”, avalia Belluzzo. A lei levou a uma crise no início da década passada que resultou no calote da dívida do país. Em um embate judicial de longa duração com os credores, os argentinos estão à beira de uma nova moratória.

Delfim concorda quanto ao prejuízo causado à indústria do país. Ele calcula a perda de demanda nos últimos 20 anos, somando-se mercado externo e interno, em R$ 320 bilhões. Ele destaca, porém, que além de corrigir isso, é necessário preocupar-se com os preços. “Não se perdeu o controle da inflação. Só que um índice acima de 6% ao ano é muito alta para um país com as características do Brasil de hoje. Não só porque nosso crescimento é muito baixo, mas porque, ante os competidores, temos o dobro da inflação”, afirma.(PSP)
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