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Correio Braziliense

Belo Monte, cacau e asfalto levam desenvolvimento a Altamira (PA)

Apesar disso, população se queixa do alto custo de vida e da demora em avanço social

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postado em 29/06/2014 07:00 / atualizado em 29/06/2014 16:02

Paulo Silva Pinto - Enviado Especial /Redação

Carlos Vieira/CB/D.A Press

 

Altamira (PA) — Nas entranhas do Pará, é mais fácil encontrar ouro do que uma resposta simples para os rumos do país. Quem tem dúvidas quanto ao balanço das perdas e dos ganhos da nossa sociedade nas duas últimas décadas não sairá esclarecido desta terra de superlativos. Altamira já foi o maior município do mundo. Ainda é o maior do Brasil. Seus 159 mil km² abarcariam o estado do Ceará inteiro. Ou então um punhado de nações europeias: Dinamarca, Holanda, Bélgica e Suíça. Todas juntas. Leia mais matérias sobreo especial Real 20 anos

A área é gigantesca e os preços, também. Um galão de água custa R$ 12, mais que o dobro do registrado em Santarém. Aluguel de imóvel pode chegar a R$ 25 mil. A inflação é consequência das obras da hidrelétrica de Belo Monte, que, dentre as usinas que estão só em território nacional (deixando de fora Itaipu), será recordista em capacidade instalada de geração.

Além da carestia, a construção traz prejuízos ambientais: vão-se embora áreas de floresta amazônica engolidas pelo reservatório. Entre os benefícios, estão os novos empregos, renda extra para empresários e várias obras públicas — a maior parte delas ainda na promessa.

Em junho de 1994, o Correio acompanhou a distribuição das primeiras notas de real pela Transamazônica, em uma kombi, que acabou atolada no trecho entre Altamira e Medicilândia, rumo à agência do Banco do Brasil ao lado da usina de açúcar Abraão Lincoln. Hoje, com a estrada asfaltada, a viagem seria tão rápida quanto inútil. A usina está fechada desde 2001. E a agência do Banco do Brasil virou ruína: só paredes, sem portas nem janelas. Todo o patrimônio pertence hoje ao Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Parado há mais de uma década, deteriora-se ainda mais a cada dia. A maior parte dos equipamentos da usina vale só o peso, como sucata.

Os antigos funcionários da usina se viram como podem. Moram em casas na vila, que pertencem ao Incra, e plantam nas terras que, em vez de cana, hoje servem para o cacau, a cultura que mais tem se desenvolvido na região. Com o sul da Bahia ainda muito aquém do auge da produção, antes dos anos 1960, Medicilândia transformou-se em um dos maiores polos brasileiros de produção cacaueira, comprada até mesmo por multinacionais. Como a planta precisa de sombra para se desenvolver, a floresta amazônica se recupera no município, atestam ecólogos.

A prosperidade da agricultura local é algo que atrai novos imigrantes. E também seduz os Araras, que vivem em uma das 11 terras indígenas da região de Altamira. Transferidos para uma área distante, com acesso apenas por rio, depois da construção da Transamazônica, eles sonham com a possibilidade de plantar cacau e pimenta, culturas que dão dinheiro, e não só mandioca. E já se acostumaram com muitos confortos do mundo industrial, providenciadas pelos construtores de Belo Monte como compensação pela obra.

Cacá Dieges filmou em Altamira parte de Bye, bye Brasil, que estreou em 1979. Ao chegar à cidade, o personagem interpretado por José Wilker comenta que o lugar já está mais agitado do que o Rio de Janeiro. A hipérbole é cada vez menos real. Já se constroem prédios de 11 andares na cidade, e as lojas de jet ski mal dão conta de atender os clientes. O que se pode dizer com certeza é que nada ali está congelado. Em que medida as mudanças são boas ou ruins, cabe a cada pessoa decidir. Depoimentos e dados para ajudar nesse esforço estão nas páginas a seguir.

Praias submersas


Os Araras vivem em uma área demarcada de 274 mil hectares, metade do Distrito Federal. A aldeia, de 300 pessoas, fica às margens do rio Iriri, a quatro horas de voadeira de Altamira. Em 2011 começaram as obras da hidrelétrica de Belo Monte na chamada Volta Grande do Xingu. Depois que a barragem for fechada, no fim do próximo ano, Altamira não verá mais o rio baixar. O Iriri, mais distante, continuará com seus ciclos normais. Na época de seca, vão continuar a emergir as praias onde os Araras gostam de, um dia ou outro, passar a tarde assando o peixe que pescam. Só os homens fazem isso, as mulheres ficam na aldeia com as crianças.


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