Índio ganha casa, picape e voadeira

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 29/06/2014 07:00 / atualizado em 29/06/2014 15:56

Paulo Silva Pinto - Enviado Especial /Redação

Altamira (PA) — Tapedá é como se chama, no idioma karyb, dos índios Arara, o retângulo de papel que pode ser trocado na cidade por mantimentos, roupas, facas e aparelhos de TV. Motibj Arara tinha 18 anos quando o Plano Real foi lançado e já sabia bem o que era dinheiro. Trabalhava na colheita de cacau de fazendas vizinhas às terras de seu povo. Estranhou, porém, a quantidade de notas que recebeu do patrão. “Só isso tu me pagou?” Quando foi às compras, porém, Motibj trocou a desconfiança pela surpresa com o poder da nova moeda. “Com R$ 100, o rancho era muito. Dois sacos grandes. Hoje, dá só uma sacola”, compara. Leia mais matérias sobre o especial Real 20 anos

Quando Motibj nasceu, as terras dos Arara já haviam sido cortadas pela rodovia Transamazônica. Desde cedo, conviveu com gente que veio de longe. Só pelas histórias contadas pelos mais velhos, ele conheceu a época em que o povo era nômade, mudando-se de pouso quando acabava a comida em volta.

A Fundação Nacional do Índio (Funai) realocou mais tarde o grupo de Motibj para a Terra do Meio, às margens do rio Iriri, uma das regiões mais preservadas da Amazônia. Outros índios, que vivem na Volta Grande do Xingu, tiveram pior sorte. Ali, o rio será menos caudaloso, já que grande parte da água vai ser desviada para as turbinas de Belo Monte. Mas todas as 11 terras indígenas da região de Altamira, onde vivem cerca de 2.200 pessoas, receberam compensações.

Aos Araras foram entregues duas voadeiras, uma picape Mitsubishi L200, que fica estacionada em um município próximo, e moradias novas, a pedido dos índios, em substituição às de palha. “A gente não perde raça na casa de madeira. Festa é mais importante. E língua também”, comenta Tatja Arara, 38 anos. Motibj reivindica também ajuda para produzir cacau e pimenta, como se fazia na aldeia anterior. “Quero plantar, mas falta técnica. Podiam mandar uma pessoa aqui”, diz ele, que, aos 38 anos, tem sete filhos e três netos.

Os últimos 20 anos foram de grandes mudanças para os Araras. Os próximos 20 tendem a ser ainda mais. Mas há uma chance de que Tjangot, 3, e Tjainaiam, 5, ainda conversem com o pai, Tjilau, no idioma karib, às margens do rio Iriri, como fazem hoje.(PSP)

Disparidades de renda


Dinheiro é indispensável aos Araras, que não conseguem tirar da natureza tudo o que precisam para viver. Na aldeia, 18 pessoas têm aposentadoria rural, que dividem com os membros de suas famílias. É o caso de Pmbguri Arara, 68 anos. E quem não tem renda? “Se vira”, explica Turu, 32, o chefe da aldeia. Tada, 27, está entre os mais bem aquinhoados. Com diploma de ensino médio, ele fez um curso de um mês para se tornar professor. Agora, ganha R$ 2,3 mil da prefeitura de Altamira para tocar a escola da aldeia. Sua mulher recebe quantia igual como agente de saúde. Como a renda dá e sobra para alimentar os cinco filhos, eles dividem um pouco com os vizinhos.