Legalização da maconha no Uruguai reduz apreensão da droga no Chuí

Policiais militares da fronteira contam que usuários e traficantes atravessam a rua e ficam livres da punição do lado brasileiro

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 30/06/2014 18:48 / atualizado em 01/07/2014 12:08

Diego Amorim - enviado especial


Chuí (RS) - A liberação da maconha no Uruguai teve impacto no combate ao narcotráfico no extremo sul do Brasil. Antes de o presidente José Mujica fazer história ao criar um mercado legal da marijuana no país vizinho, 80% das apreensões feitas do lado brasileiro da fronteira envolviam baseados ou pacotes de maconha. Hoje, esse percentual praticamente caiu a zero. Os policiais nem lembram qual foi a última vez em que flagraram o uso ou a venda da droga no Chuí.

Há 12 anos atuando na fronteira, o soldado Eduardo Ortiz, 38 anos, diz que usuários e traficantes não demoraram a perceber que poderiam se dar bem com a nova legislação uruguaia. "Eles atravessam a rua e fumam do lado de lá. A gente vê tudo daqui e não pode fazer nada", comenta o policial militar. Apesar das restrições, ficou bem mais fácil comprar e consumir maconha na terra de Mujica. "Ninguém se arrisca mais do lado de cá", completa Ortiz.

Zuleika de Souza/CB/DA Press

A situação inusitada ajudou a expor um dos mais graves problemas sociais da fronteira: a proliferação do crack na cidade e no campo. Com a maconha concentrada no Uruguai, a disparada do consumo de crack ficou mais visível. Agora, 80% das apreensões são de pedras obtidas a partir da pasta base de coca que, segundo a polícia, vem do Uruguai. Os outros 20% são de cocaína pura.

Leia outras reportagens no Especial 20 anos do Real

Quase a totalidade de roubos e furtos no Chuí tem relação com as drogas. Os raros homicídios também: o último ocorreu há um mês, quando um ex-presidiário envolvido com o tráfico, de acordo com a polícia, foi assassinado. "É difícil o usuário parar na maconha. Fico muito preocupada com o futuro", opina a uruguaia Valeria Rodrigues, 23, moradora da fronteira contrária à liberalização no país.

A estrutura policial do Chuí é atrelada à de Santa Vitória do Palmar, município a 20 km: 18 homens se revezam e têm à disposição três carros e duas motos. A delegacia funciona somente durante a semana, das 9h às 17h, com pausa para o almoço. As notícias de crime se espalham rápido, mas é raro alguém registrar ocorrência.
Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.