Em município rural, moradores acumulam notas do "símbolo da hiperinflação"

Consideradas relíquias, as cédulas antigas são lembranças de prejuízos causados em lugares isolados do interior do país

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 05/07/2014 11:10 / atualizado em 06/07/2014 09:12

Luiz Ribeiro , Enviado Especial

Itacambira (MG) — Dono de uma mercearia, no pequeno município de Itacambira, no norte de Minas Gerais, Cristóvão Colombo Ferreira Leão, 80 anos, guarda calhamaços de notas de cruzeiro, que não têm mais valor. Consideradas relíquias por ele, as cédulas antigas são lembranças de prejuízos causados em lugares isolados do interior do país, há 20 anos, durante a criação do Plano Real. Devido à falta de informação sobre a conversão da Unidade de Referência de Valor (URV) ou mesmo sobre a necessidade de troca da antigo moeda pelo real, muita gente ficou com dinheiro velho no bolso.

Luiz Ribeiro/DA Press


Em junho de 1994, às vésperas da entrada em vigor do real, o Correio visitou Itacambira, então, com 4 mil habitantes, dos quais apenas 500 na zona urbana. Na ocasião, os moradores se mostraram apreensivos, com poucas informações sobre o que seria a “nova moeda”. Duas décadas depois, o sentimento é de satisfação. “Antes, na época da hiperinflação, tudo era muito difícil. A gente comprava as coisas por um preço num dia e, no outro, tudo havia aumentado”, afirma Cristóvão, que, com o Real, saiu do aluguel e construiu o próprio ponto comercial.

Leia outras reportagens no Especial 20 anos do Real

Ele se recorda que, pouco antes do anúncio do plano econômico, a carestia chegava a 50% ao mês. “Teve gente que vendeu quase tudo — carro e gado — para aplicar o dinheiro no banco, achando que estava ganhando muito por causa dos juros altos. Na verdade, estava perdendo dinheiro”, relata. Cristóvão conta ainda que, quando do lançamento do Real, muitos moradores da zona rural de Itacambira, mantinham o hábito de “guardar dinheiro em casa” e não ficaram sabendo que, com a entrada em vigor da nova moeda, as cédulas de cruzeiro perderiam valor se não fossem trocadas dentro de um prazo estabelecido.

“Muita pessoas vieram com notas de cruzeiro depois que passou o prazo para a troca. Eu dizia que o dinheiro não valia mais. Elas não acreditavam e xingavam”, lembra Cristóvão. Mas ele próprio acabou guardando as cédulas sem valor. “São relíquias que, um dia, serão mostradas para meus tataranetos”, diz o comerciante. “Tenho muitas notas de dinheiro, mas não sou rico”, brinca.

Mudança de vida

A desinformação sobre o Real era evidente em Itacambira. Em junho de 1994, o pedreiro Oswaldo Batista Santana, então, com 32 anos, afirmava que não sabia nada sobre como estava sendo feita a transição do cruzeiro para a URV e para o real. No escuro, informou que tiraria as economias do banco e “aplicaria em outra coisa” porque os juros “acabariam”. Aos 52 anos, Oswaldo trabalha na construção de uma casa na zona rural da cidade, localidade conhecida como Vargem Grande. Ele lembra que, logo depois da estreia do real, viajou para São Paulo e acabou usando o dinheiro que tinha aplicado para pagar despesas domésticas e dívidas, sem comprar nenhum bem durável. Trabalhou em Mogi das Cruzes ao longo de 17 anos. Depois, prestou serviços durante dois anos em Angra dos Reis, litoral do Rio de Janeiro. Em janeiro deste ano, retornou para Itacambira.

A matéria completa está disponível aqui, para assinantes. Para assinar, clique aqui.
Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.