REPORTAGEM DE CAPA

Ri melhor quem ri com elas

Durante anos, as mulheres, de fato, foram renegadas a papel secundário quando o assunto é comédia. Mas, com suas peculiaridades, cada vez mais conquistam espaço

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postado em 22/09/2011 18:40 / atualizado em 24/09/2011 19:10

Carolina Samorano / Especial para o Correio

Sem floreios nem meandros, vamos logo ao que interessa: homens são mais engraçados do que mulheres. Antes que rapazes esbocem sorrisos de satisfação e moças indaguem, incrédulas, "quem foi que disse?", é bom esclarecer: foram pesquisadores em um estudo publicado no início do mês pela Universidade do Novo México, nos Estados Unidos. E, que fique claro, com base em análises e números e muitos voluntários, como qualquer pesquisa que se propõe a analisar temas da mais pura seriedade. Para chegar a essa controversa conclusão, eles convidaram 400 jovens — 200 homens e 200 mulheres — a criarem situações cômicas para tirinhas da revista New Yorker. As piadinhas foram analisadas por seis juízes, quatro homens e duas mulheres, que acabaram no consenso de que as melhores delas haviam sido feitas pelos voluntários do sexo masculino. Se é que interessa, os autores do estudo são dois homens, não se sabe se engraçados ou não.

Por mais esquisito que possa parecer um estudo sobre algo tão subjetivo quanto o humor, a ideia não é completamente absurda. A crença de que eles, os homens, herdaram de seus ancestrais símios ou ganharam de presente na criação divina o dom da comédia, de alguma forma, ronda a sociedade desde os primórdios. Os pesquisadores só tentaram dar um sentido científico a ela. Muito antes da publicação do tal estudo, o jornalista Christopher Hitchens já havia exposto sua teoria para o porquê dessa crença em um artigo na revista Vanity Fair intitulado Por que mulheres não são engraçadas. "Uma das maiores preocupações da minha vida sempre foi fazê-las rir. Se você consegue lhes arrancar uma gargalhada alta e sincera, pelo menos conseguiu fazê-las relaxar, mudar a expressão", teoriza. "Já elas não têm essa necessidade de se aparecer para os homens da mesma maneira que nós. Elas simplesmente aparecem, se é que você me entende." Fazer rir, portanto, seria só mais uma qualidade que os homens adquiriram forçadamente ao longo dos anos como forma de chamar a atenção, garantir sucesso entre a mulherada e reproduzirem-se. Darwin explica.

Juntando tudo isso a uma outra pesquisa, dessa vez da antropóloga brasileira Mirian Goldenberg, que diz que, além de menos engraçadas, as mulheres parecem achar menos graça do mundo — 84% dos homens dizem rir muito, contra 68% delas —, toda essa falação até parece fazer algum sentido. Somando o fato, por exemplo, de que entre as comédias produzidas por Hollywood no ano passado, apenas 16% dos cargos-chave nas produções, como roteirista, diretor e produtor, foram ocupados por mulheres. Mas, a um passo de cada vez, elas têm conquistado seu lugarzinho sob os holofotes dos palcos e dos cenários televisivos, fazendo rir em cima de saltos altos e tudo o mais. Que o diga Adriana Falcão, à frente dos diálogos cômicos do seriado A grande família, da Rede Globo, desde 2001, ano de estreia. Foram bem uns três ou quatro anos ralando como a única mulher da equipe, antes de ela tomar o formato que tem hoje — Adriana ganhou duas companheiras de roteiro. "Acho que antes não tinha espaço no humor como não tinha em lugar nenhum. Mas ele está se abrindo", observa.

Na TV, no teatro, na internet ou no stand up comedy, gênero que virou modinha e que acabou emprestando muitos comediantes à TV — caso de Danilo Gentili, Rafinha Bastos e Marcelo Adnet —, cabelos compridos, saias e saltos se fazem presentes, e em grande estilo. Para provar que não há pesquisa que convença sobre a suposta monotonia cômica que ronda o universo feminino, a Revista foi atrás de moças que se profissionalizaram em fazer rir e arrancam deliciosas gargalhadas de mulheres e homens, do tipo bem alta, com boca aberta e dentes à mostra.

Humor é humor, p#**a!

Carlos Vieira/Esp.CB/D.A.Press
A vida de Carolina Zoccoli, 33 anos, envolve um mestrado em filosofia, literatura alemã e uma depressão, agora sob controle. Descrevendo assim, parece até o estereótipo da mulher tão centrada em livros e na própria vida que jamais conseguiria arrancar uma gargalhada de alguém. Mas, ironia do destino ou não, no mesmo dia em que este texto tomava forma, ela se apresentava em um teatro em Brasília com outros três comediantes de stand up comedy, todos eles homens. É quase sempre assim nas apresentações. Uma mocinha entre tantos outros do sexo oposto. Talvez menos agora do que início da carreira, mas a desproporção ainda existe, e grita.

Escrachada, Carol não faz o tipo "humor de mulherzinha". E rejeita, sem papas nem pudores, qualquer rótulo de "mulher no humor". "Não existe isso de humor feminino! Humor é humor" — e solta um palavrão de desabafo. "Não sou a mulher no humor. Sou o humor na mulher", filosofa, com a permissão que a academia lhe concedeu. Na tentativa de conquistar, seja à força ou na boa vontade, um espaço entre a moçada da comédia, criou com outras três colegas o grupo Humor de Salto Alto. Por questões geográficas — Carol mora no Canadá, onde continua debruçada sobre livros, só que de humor —, ela não faz mais parte do grupo, que continua a toda na capital paulista. O Humor de Salto Alto foi uma forma de acabar de vez com uma coisa recorrente em grupos já existentes por aí: o limite de mulher por trupe.

"Eu batia na porta e me diziam que o limite de mulher era de uma só, e que a vaga já estava preenchida, sem nem conhecerem o meu trabalho." O Humor de Salto Alto hoje tem um homem no elenco — o apresentador. "É o limite", brinca. Na conta da polêmica da existência ou não de um humor propriamente feminino, a humorista ainda contesta o espaço destinado às mocinhas em alguns programas cômicos na TV. Mais de uma vez ouviu de diretores que, para fazer piadas, eles já tinham homens. "Assim como já me convidaram porque precisavam de mulher na equipe. Não me convidem quando precisarem de uma mulher, porque quem precisa de mulher, quer o estereótipo. Me convidem se precisarem de humorista", provoca.

De humor ácido, Carol não se importa em entrar no palco com um consolo dentro das calças e fazer piada com a própria depressão, mesmo que suas atitudes arrepiem os cabelos de algumas plateias mais conservadoras. Quem dá o limite é sempre o público, ela defende, mas se o humorista tem uma função, é empurrá-lo cada vez mais. "O comediante não pode ter nada a perder quando sobe num palco. Nem a própria dignidade", alfineta, quando perguntada sobre piadinhas que desagradam seja pela acidez, seja por não despertarem um único sorriso entre os espectadores. "A partir do momento em que ele teme pelo nome, por isso e aquilo, deixou de ser comediante."

Gargalhadas universais
Todo ser humano tem a capacidade de dar umas boas risadas. Rir faz parte do sistema de recompensa do cérebro, o mesmo que libera todos aqueles hormônios responsáveis pelas sensações de prazer e relaxamento. Logo, fisiologicamente falando, rir muito e sinceramente é quase como fazer sexo, pelo menos para o cérebro. E parece que as pessoas têm entendido bem o que é isso: 94% delas dizem rir acima da média, mesmo que, na prática, só 50% delas realmente façam parte dessa estatística.

Aqui no Brasil, a antropóloga Mirian Goldenberg, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, tem se debruçado sobre as nuances que diferem o humor feminino do masculino. Analisando entrevistas e questionários, ela percebeu que, embora todo mundo ria até doer a barriga, elas têm bem mais dificuldades em soltar uma gargalhada do que eles. "É uma coisa cultural. Elas dizem que riem com as amigas ou com a família. Já eles riem em qualquer lugar", explica. "Elas não têm a mesma facilidade de rir em ambientes mais sérios, como a universidade ou o escritório. Parece que elas têm medo de as pessoas as acharem fúteis ou bobas", continua.

É como se o homem já estivesse tão seguro sobre sua posição social no mundo, que não precisasse de nenhuma ruga de preocupação sobre o que os outros dizem e pensam a seu respeito — o que, no geral, ainda não funciona com as mulheres. "Para rir de algumas situações embaraçosas, é preciso que você tenha alguma segurança sobre o status de quem está na tal situação. Senão, tende a levar tudo mais a sério", analisa Rod Martin, professor de psicologia da Universidade de Ontário, no Canadá, e que há 30 anos dedica-se a estudar o humor. "Tradicionalmente, homens têm mais status e poder que mulheres, o que torna mais difícil para elas rir em situações como essas", finaliza.

É possível que essa dificuldade em rir se aplique, de certa forma, ao fazer rir, e ajude a justificar por que é mais fácil arrancar da memória nomes de grandes homens humoristas do que de mulheres. "Pode ser que os homens não queiram que as mulheres sejam engraçadas. Eles preferem tê-las como audiência, não como rivais", observa Hitchens no seu artigo na Vanity Fair. Tudo bem que Hitchens seja só um observador, talvez nem tão embasado assim, mas a tese é sustentada também por Rod Martin, que acredita que moças metidas a engraçadas possam ser vistas como ameaças à masculinidade. "Se os homens usam o humor como uma maneira de impressioná-las e atraí-las, eles querem que elas riam de suas piadas, mas enxergam as que fazem piadas como competitivas ou um tanto masculinizadas", comenta.

Guerra dos sexos à parte, outra hipótese compartilhada por alguns comediantes para essa suposta falta de tino da mulherada para o humor vem do fato de que comédia não combina com vaidade, característica ainda muito associada ao universo feminino. "Eu subo no palco e digo que estou ‘brocha’, que meu pinto é pequeno e que engordei. Mas quantas mulheres têm coragem de, sinceramente, aceitar que todo mundo dê risada da sua celulite ou da sua condição de encalhada?", questiona o humorista Danilo Gentili, do quadro do programa CQC, da Band. Quem está do outro lado, no entanto, se recusa a embarcar na mesma teoria. "A mulher humorista acha muito legar ser engraçada e não deixa de ser linda. Veja Marieta Severo, Deborah Secco, Andréa Beltrão. Todas lindas e ótimas atrizes cômicas", acrescenta Adriana Falcão.

Não é à toa que desde bem pequeninos eles são incentivados constantemente a serem os engraçadinhos da turma, o que não acontece tanto assim com mocinhas comportadas. "Parece que os homens têm uma autorização da sociedade para serem cômicos. Se um garoto arrota na mesa, todo mundo dá risada, comenta ‘nossa, olha só que engraçado’. Agora já pensou se uma menina arrota? Todo mundo fica apavorado!", comenta a comediante Dani Calabresa, que veio do stand up — de onde nunca saiu completamente — para a TV, com um programa na MTV. A mesma observação é feita por Marianna Armellini, do grupo As Olívias, no ar no canal pago Multishow. "Normal você ouvir de um pai a respeito do filho ‘nossa, meu filho é ótimo, ele é espontâneo, é engraçado! ’. Da filha você não ouve isso. Você ouve que ela é linda, estudiosa, educada. Engraçada, não. Vai dizer que não é assim?", indaga.

Mulher é isso!
Sylvia Sanchez/Divulgação
Elas se conheceram na escola de artes dramáticas. Mas de dramático, nas esquetes espalhadas pela internet e agora também encarnadas no canal pago Multishow, só mesmo as situações absurdas vividas em cena por Cristiane Wersom, Marianna Armellini, Renata Augusto e Sheila Friedhofer — As Olívias. Embora nenhuma delas carregue o nome que batiza a trupe, a sugestão foi de um antigo diretor do grupo, que achou que a namoradinha alta e magricela de Popeye se parecia com as meninas . "Isso nos anos 1980, quando começamos. Agora a gente brinca que virou um conceito", adianta-se em explicar Renata.

O universo feminino vai além do nome e das justificativas pela passagem do tempo. A falta de paciência com a caixa de supermercado que devolve o troco em moedas miúdas, o "jeitinho feminino" de enrolar o guarda de trânsito na iminência de uma multa, a vergonha de marcar um exame ginecológico pelo telefone, na frente dos colegas de trabalho, tudo virou temática de esquetes que, elas garantem, fazem gargalhar igualmente mulheres e homens, com a mesma altura e intensidade. Eles riem da maluquice que é o universo feminino. Elas, por se identificarem nos absurdos. "Elas apontam e gritam ‘é isso, é assim!’", ri a "Olívia" Marianna. Nada proposital. A diferença do humor delas para o feito por eles é simplesmente uma questão de ponto de vista. "Eu não sei o que se passa num vestiário masculino depois do futebol, mas eu sei o que é depilar a virilha pela primeira vez com uma depiladora diferente", continua Marianna. "É que a gente se acostumou, mas ser mulher é tão esquisito que, se você se distancia por um minuto, dá risada mesmo", completa Cristiane Wersom.

Vindas de uma escola tradicional, como é a Universidade de São Paulo, tiveram de lidar, por algum tempo, com os olhares desconfiados de quem não colocava assim tanta fé no trabalho que começavam, na época em que se uniram em nome do humor. No universo acadêmico, nem sempre a comédia é vista com bons olhos. Nas plateias, no entanto, a mesma desconfiança não se aplica. "Quando as pessoas se sentam para lhe assistir, elas podem ter todos os preconceitos do mundo — por ser comédia ou até porque são mulheres no palco. Mas no momento em que você as faz rir pela primeira vez, o preconceito fica para trás. A comédia une", resume Cristiane.

Três mais uma
Carlos Vieira/Esp.CB/D.A.Press
Desde que a companhia brasiliense de comédia De 4 é Melhor estreou seu primeiro espetáculo, em 2004, a atriz Fabianna Kami, 27 anos, é a única mulher entre os outros três integrantes da trupe, Flávio Nardelli, Bernardo Felinto e Márcio Minervino. Na verdade, há controvérsias. A convivência "mais do que diária", como ela mesma define, acabou por torná-la tão íntima dos marmanjos que há muito os pudores nas brincadeiras no palco ou fora deles deixaram de existir. A própria Fabianna garante que "tanto faz" se ela é ou não do chamado sexo frágil: fala palavrão e besteira em pé de igualdade e faz dos atributos femininos objeto de brincadeira e piadinha nos espetáculos. "Acho que as nossas melhores piadas envolvem os peitos da Fabi", brinca Flávio, que assina como produtor, diretor e roteirista do grupo. Ela, só risadas.

A presença de Fabianna no grupo é fundamental não só pelo talento nos palcos e com os roteiros, que assina junto com Flávio. O consenso ali é de que, sem Fabianna, algumas coisas simplesmente não funcionariam. As personagens femininas, por exemplo. "As pessoas dariam risada se a gente colocasse qualquer um de nós vestido de saia e peruca no palco, mas porque a situação por si só é cômica e não porque acreditam de verdade na personagem", comenta Flávio. Por isso, eles comentam que nunca quiseram "travestis" no palco. A piada perde o foco do público para o ridículo da fantasia.

A falta de mais mulheres no grupo não tem relação nenhuma com o tal "limite", comentado pela humorista Carol Zoccoli, tampouco com um desinteresse do grupo em agregar a mulherada à trupe. Sempre foi assim, desde os tempos de faculdade, quando se conheceram. "É como um casamento sem a parte boa", diverte-se. Com sete anos de estrada, vão-se as diferenças sexuais, ficam as piadas sobre primeira vez, sabonetes íntimos, bolsa de mulher, todas trazidas por Fabi aos palcos. "O humor serve um pouco para tirar essa carapuça de amargura que as pessoas às vezes vestem por causa da dureza do cotidiano. Deixa mais leve", finaliza a atriz.

Dani cheia de graça
Kelly Fuzaro/MTV
Dani Calabresa é maria-graça, avisaram, antes do bate-papo. Os acessos de sua versão cômica de Luciana Gimenez no YouTube — medida incontestável do sucesso nos tempos modernos — chegam a quase 400 mil. Um trecho de sua visita ao programa do Jô Soares já quase alcança a marca das 500 mil visualizações. Diante disso, difícil contestar o aviso. A apresentadora do Furo MTV, programa de notícias comentadas no canal de entretenimento, em que divide a bancada com o também comediante Bento Ribeiro, sempre soube que, se fosse ocupar um lugar nos holofotes, ele seria na comédia.

"Oi, gente, eu sou a Dani. Eu sou mulher mesmo, não sou tão engraçada quanto os meninos, então quem quiser levantar e sair, por mim, tudo bem." Era mais ou menos assim que ela se apresentava ao público logo que começou a se aventurar pelo stand up comedy, quando ela e a também comediante Marcela Leal eram as únicas representantes femininas no gênero. "Acho que, nesse momento, o pessoal perdia um pouco o preconceito e resolvia dar uma chance", justifica. Hoje em dia, com audiência garantida onde quer que vá — ela segue se apresentando em clubes de comédia e bares especializados em São Paulo —, a introdução já nem se faz mais necessária. O segredo, segundo ela, está na honestidade com o público ao qual se direciona. "Acho que dá para sacar se a pessoa está ou não falando a verdade ali no palco. O pessoal tem que pensar ‘essa mulher tem cara mesmo de quem leva tombo, passa por essas situações absurdas. E é engraçado como o povo curte uma desgraça alheia. Já viu que todo mundo fala mal, mas todo mundo ri das videocassetadas do Faustão?’", diverte-se.

As temáticas das piadas contadas no palco ou em tom de deboche na bancada da MTV, no entanto, só são sucesso provavelmente porque Dani não tem o menor pudor em rir de si mesma, e em voz alta, para plateias lotadas. Até porque a comédia nada mais é do que uma lente de aumento sobre os ridículos do dia a dia que quase ninguém percebe se ninguém os cutuca — e aí entra o humorista. "Se você não quer ficar feia no palco, não quer se desprender da vaidade, você não serve para isso", enfatiza. "Quem se leva a sério demais, não permite que as pessoas debochem da sua vida. E humor é isso."

Engraçadinhas
O mérito de encarnar personagens cômicos inesquecíveis não é só deles. Há muito elas fazem rir. Vale lembrar algumas das mais emblemáticas da TV:

Aqui…

Arquivo/TV Globo; Ana Limp/Divulgação; Davi Almeida/Divulgação

 

... e lá

Lance Staedler/Reuters; Chris Pizzelo/AP; Jason Redmond/Reuters