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Sim, eles podem!

O preconceito ainda existe, mas um número crescente de homens tem recorrido a tratamentos estéticos e a cosméticos. Além dos ganhos com a aparência, quem aderiu à moda garante: a sensação de bem-estar é muito boa

postado em 30/10/2011 08:00

Quando Elvis Presley tirava do bolso um pente fino para ajeitar o topete lambuzado por brilhantina, outros milhares de garotos repetiam o mesmo gesto do rei do rock. Elvis foi um dos símbolos de uma geração a comprovar: vaidade pode, sim, caminhar lado a lado com virilidade. No entanto, esse cuidado masculino com a aparência, apreciado ao longo dos séculos em maior ou menor grau, ganhou nova preocupação no século 21. Nessa primeira década, os homens voltaram a se olhar no espelho com mais frequência e preocupação. E a lista de cosméticos voltados para o público masculino ficou extensa. Médicos e esteticistas acreditam que esse comportamento se deve ao aumento da expectativa de vida. Eles também querem estar belos com o passar dos anos e, por isso, investem cada vez mais em produtos e tratamentos. Tanto que o país já ocupa o segundo lugar no consumo de cosméticos masculinos, desbancado apenas pelos Estados Unidos. Ao demarcar território com um crescimento anual de 10%, os brasileiros dispensaram o perfil ;homem das cavernas;.

Desleixo nunca mais
O preconceito ainda existe, mas um número crescente de homens tem recorrido a tratamentos estéticos e a cosméticos. Além dos ganhos com a aparência, quem aderiu à moda garante: a sensação de bem-estar é muito boaO empresário Valmir Biberg, 42 anos, encaixa-se nesse novo conceito de homem preocupado com a aparência. Vaidoso, começou a fazer limpeza de pele mensalmente há quatro anos. Foi ele quem incentivou a mulher a adotar o mesmo procedimento. ;Acho que essa é uma questão tanto de higiene quanto de vaidade;, acredita. Em casa, Biberg faz a manutenção: usa adstringente e filtro solar, faz esfoliação facial e não dispensa produtos que retiram o excesso de oleosidade. O empresário ainda aplica máscara de hidratação uma vez por semana. ;A aparência é um cartão de visitas;, aposta.

Os cuidados de Biberg não param por aí. Todo fim de semana, quando vai ao clube, não dispensa uma sauna e uma massagem relaxante. Mas quem vê esses cuidados do empresário não acredita que durante muitos anos ele foi bastante desleixado. ;Fui meio caubói (risos), mas percebi que o homem que se cuida tem mais chance com as mulheres. Hoje, não há espaço para o homem das cavernas. Até porque a informação nos torna preocupado com a saúde. Ninguém quer envelhecer de qualquer jeito.;

Biberg é um dos clientes da esteticista facial Mayara Ribeiro. Ela atesta: há um investimento crescente de homens em cuidados e produtos para a beleza. Apesar de o número ainda ser menor que o de mulheres, hoje os homens correspondem a 30% do total de clientes da esteticista. ;Atendo desde menino de 11 anos que pede para a mãe levá-lo para uma limpeza de pele, até homens com mais de 70;, conta. Além disso, a esteticista revela, eles seguem à risca os conselhos de manutenção dos cuidados ao comprar e usar produtos de qualidade.

Dados da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC) confirmam que a vaidade masculina vai mesmo de vento em popa. De 2005 a 2010, a evolução do mercado brasileiro do gênero, voltado para o segmento masculino, foi de 166%. Em números, esse crescimento correspondeu a US$ 3,28 bilhões arrecadados com a venda de produtos apenas em 2010. Aproveitando-se desse interesse masculino, Maria Amélia Abdala, diretora de comunicação de uma empresa paulista, criou o congresso Men;s Beauty Show, em São Paulo, no ano passado. Pioneiro no país, o evento anual oferece a oportunidade de profissionais da área compartilharem conhecimento para que esse homem do século 21 seja melhor atendido.

De acordo com a criadora e organizadora do congresso, esse investimento responde pela procura de produtos e serviços diferenciados. ;Há 10 anos, a cada 100 homens, um usava cosmético. Hoje, um a cada 10 usa algum produto de beleza;, compara Maria Amélia. Segundo pesquisa feita para o Men;s Beauty Show, esse cuidado masculino com a beleza começou com a compra do sabonete, depois do desodorante, até o gasto com hidratantes faciais, protetor solar, coloração para cabelo, creme anti-idade e depilação definitiva. ;Ainda não existe um ranking de consumo desses produtos e serviços. Mas posso afirmar que as empresas já avançaram no segmento.; Por apostar nesse cenário, Maria Amélia acredita que não existe mais o ;homem ogro;. ;Eles já perceberam que esses cuidados influenciam a vida emocional e profissional;, acrescenta.

Uma dose de bem-estar
A rotina demanda energia para trabalhar, cuidar dos filhos e da casa, resolver problemas como fiação queimada, cano entupido e máquina de lavar com defeito. Ao contrário das mulheres ; que se dão ao direito de uma pausa para relaxamento seja em clínicas ou em casa ;, a maioria dos homens ainda teme o rótulo de ;fraco; por não aguentar o rojão. No entanto, de acordo com a empresária Liane Barros, sócia do spa Kalmma Zen, esse retrato masculino está mudando. ;Homens na faixa dos 35 aos 40 anos estão cuidando mais de si. Muitos são clientes assíduos, devido ao estresse da rotina. Alguns já vêm semanalmente para relaxar ou alongar;, conta Liane. No entanto, quando o serviço oferecido a eles é estético, ainda há resistência. ;Jovens entre 20 e 25 anos não pensam duas vezes ao optar por uma limpeza de pele, enquanto os mais velhos não têm essa preocupação;, conta. Para a empresária, apesar de os homens terem se permitido um avanço ao investir em bem-estar, por enquanto é o jovem que tem uma cabeça diferente quanto aos cuidados com a aparência. ;Mas tudo é uma questão de cultura, comportamento e influência dos pais para que, num futuro, não tão distante, todos queiram cuidar ainda mais de si.;

O desafio estético
O preconceito ainda existe, mas um número crescente de homens tem recorrido a tratamentos estéticos e a cosméticos. Além dos ganhos com a aparência, quem aderiu à moda garante: a sensação de bem-estar é muito boaO assessor parlamentar Victor Hugo Brandão, 26 anos, trabalha num local onde a vaidade circula pelos corredores. Mesmo assim, ele diz descartar o que chama de ;toda essa parafernália de cosméticos;. Na rotina, só adotou mesmo um creme para pele que nem lembra o nome. ;Não me considero vaidoso. Não por convicções machistas ou coisa do tipo, mas porque realmente sou desligado com isso. Se fosse, também teria um limite: passar um creme para cuidar da pele é uma coisa, agora fazer unha, depilação;;, rechaça.

No entanto, Victor não tem problemas em tirar dinheiro do bolso para aliviar momentos em que a corda do trabalho puxa o assessor pelo pescoço. ;Não sou muito assíduo em spas, mas o fato é que a massagem é realmente muito relaxante. É interessante dedicar algum tempo para cuidar de si, esquecer o mundo, fechar os olhos e relaxar, seja com uma massagem, seja em um ofurô;, acredita.

Consciente de que ele pode até não gastar com produtos de beleza, Victor não desdenha a atitude de amigos ou colegas que não saem de casa sem um creme antirruga. Ele acredita que ;o estereótipo de homem troglodita, exalando testosterona está mudando;. ;Acho que ser vaidoso é uma questão de perfil. O cara tem que gostar de se cuidar. Acho que sou o homem à moda antiga, não ligo muito para isso. Quem sabe no futuro, quando o sinal do tempo aparecer, comece a me preocupar mesmo;, deixa escapar. Antes que as rugas da idade batam à porta do assessor parlamentar, a Revista propôs a Victor um desafio: acrescentar cinco cosméticos de três marcas diferentes para uso diário. Uma semana depois, ele nos contou, em forma de diário, a experiência.

Diário de Victor Hugo
O arsenal
Natura Homem (Creme para barbear) e Clarins Men (pós-barba): somente para barbear.
Clarins Men Gel Revitalizante e Clarins Men Filtro Solar: pela manhã.
Natura Homem Hidraturbo: pela tarde.
Men Boticário: pela noite.

Acordo, geralmente, às 7h45, gasto cerca de 25 minutos para chegar ao trabalho, dependendo do trânsito. Como essa é uma rotina nova e não estou habituado ao ritual, não levo cinco minutos para passar todos os cremes;Também não sei se estou fazendo corretamente (risos). Não faço o tipo vaidoso. Um benefício, que é difícil de mensurar, é de talvez começar a me preocupar mais com a pele, sobretudo do rosto, uma vez que não passo protetor solar, nem quando corro em horários de insolação. Já sobre o que não gosto é o fato de despender tempo em algo que não curto tanto: essa vibe de se cuidar.

Sexta-feira
Depois de acordar e lavar o rosto, lembrei de passar os produtos Clarins Men Gel Revitalizante e Clarins Men Filtro Solar, graças à função lembrete do celular. Não é uma prática que tenho, nunca tive. Será interessante ver se ao fim dessa experiência vou incorporar o ritual. Pela tarde, depois de lembrar que o fotógrafo viria, lembrei de passar o Natura Homem Hidraturbo. À noite, passei o Men Boticário. Nunca passei tantos cremes e hidratantes diferentes em um só dia.
Sábado
Usei todos os produtos. Fiz a barba e pude experimentar o gel e o pós-barba. Gostei!
Domingo
Esqueci completamente de usar os produtos.
Segunda-feira
Me lembrei de usar os produtos, pois tinha hora marcada no spa. Fiz limpeza de pele e massagem relaxante. É a primeira vez que faço esse tipo de coisa, e gostei bastante, principalmente da massagem. Acho que, depois desta semana, será a única coisa que vou tentar incorporar à rotina. A limpeza de pele também foi legal, mas demora muito tempo e, no final, já estava impaciente.
Terça-feira
Já usei os produtos naturalmente: dois pela manhã, um à tarde e outro antes de dormir, embora tenha escolhido essa ordem e combinação ao acaso (risos).
Quarta-feira
Já não uso a função lembrete para me lembrar de passar os produtos.
Quinta-feira
Hoje é o último dia da experiência. Apesar de achar legal o processo, sinceramente, não sei se vou manter (risos). Não porque não gostei, mas por me considerar um cara prático. Para você ter ideia, eu mesmo corto meu cabelo, comprei uma máquina e agora aposentei o salão. Então, não gosto muito de ;perder tempo; cuidando da estética. Mas, quando chegar aos 30, acho que vou começar a cuidar mais disso, sim, por necessidade e não por gosto (risos).

O que cabe na nécessaire masculina?
O preconceito ainda existe, mas um número crescente de homens tem recorrido a tratamentos estéticos e a cosméticos. Além dos ganhos com a aparência, quem aderiu à moda garante: a sensação de bem-estar é muito boa


O preconceito ainda existe, mas um número crescente de homens tem recorrido a tratamentos estéticos e a cosméticos. Além dos ganhos com a aparência, quem aderiu à moda garante: a sensação de bem-estar é muito boa

Agradecimento: loja Lord do Brasília Shopping

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