REPORTAGEM DE CAPA

Gratidão

Nas semanas em que celebramos Natal e ano-novo, a Revista foca em sentimentos nobres e reparadores. Hoje, falamos sobre o quão é importante ser grato

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postado em 21/12/2014 08:00 / atualizado em 19/12/2014 19:39

Gláucia Chaves

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
O Houaiss Dicionário da Língua Portuguesa define gratidão como "qualidade de quem é grato" e "reconhecimento por auxílio ou benefício recebido". Dizer "muito obrigado" é também regra básica da educação, um costume ensinado desde que aprendemos a falar. Ser grato, contudo, vai muito além disso.

A ciência, por exemplo, estuda há tempos como o sentimento interfere na saúde das pessoas. Se o conceito é analisado pelo viés religioso, transforma-se em direcionamento de vida. Quando as festas de fim de ano se aproximam, refletir sobre o que é gratidão é algo quase instintivo. Pensando nisso, criamos um pequeno dicionário de verbetes para entender o que significa, realmente, sentir-se grato por algo ou por alguém.

Para muitos, é difícil desvincular o conceito de gratidão de práticas religiosas, mas ter uma religão não é imperativo para desenvolver a habilidade. Marlon Reikdal, psicólogo junguiano, faz palestras pelo Brasil usando como mote a união entre psicologia e espiritismo. Ele explica que, tanto na psicologia quanto na religião, a gratidão é entendida como um sentimento profundo, que tem mais a ver com um estado de graça do que com um comportamento educado. "Gratidão é um sentimento nobre, desenvolvido dentro do processo da personalidade que tem a ver com um estado de preenchimento, de reconhecer coisas boas."

Apesar de ser encarada como um sentimento, a gratidão não é uma característica inata ao ser humano. Rikdal explica que é preciso aprender a ser grato, o que exige habilidade e paciência. "Se eu olhar apenas para as coisas ruins que acontecem na minha vida, isso vai se tornando um problema cada vez maior", explica. Tentar ver o lado bom da vida vale, principalmente, para os momentos ruins. Perder um emprego pode ser o empurrão que faltava para uma repaginada profissional, por exemplo. "É tudo uma questão de interpretar os problemas da vida."

Para dar, não para vender
Três amigos se uniram para promover no último dia 13 a primeira edição da Feira da Gratidão em Brasília, no Parque da Cidade. A iniciativa já existe em alguns estados. A ideia era levar peças de roupa, livros, DVDs, objetos diversos e deixá-los à mostra. Quem quisesse podia pegar sem pagar e sem, necessariamente, deixar nada em troca.

"Eu e dois amigos do trabalho pensamos em fazer algo diferente no fim do ano. Vimos na internet uma Feira Grátis da Gratidão, em São Carlos. Pesquisamos e achamos outra no Rio de Janeiro. Conversei com a organizadora e trouxemos a ideia para cá. A intenção é conscientizar as pessoas sobre a ilusão de escassez: temos uma abundância de coisas, mas sempre achamos que precisamos de mais. Acumulamos e muitos estão precisando. Resolvemos aproveitar o Natal para fazer a feira, para as pessoas trocarem coisas em vez de comprar. As coisas nos servem, mas, às vezes, nos tornamos escravos do que a gente consome. A ideia é usar o melhor daquilo que se tem e, quando não tiver mais utilidade, dar para outra pessoa. Ao mesmo tempo, agradecer por ter tido aquela coisa, como uma corrente. O mais importante são as pessoas, não as coisas que temos." - Lucia Pilar Fernandes, 28 anos, técnica em laboratório de vestuário

"A ideia de transformação me motiva. Vejo que o consumismo não tem fundamento. Abracei a iniciativa porque acho que tem de mudar essa coisa de comprar. Por que não reaproveitar? Gratidão, para mim, é quando você doa, de peito aberto, seja uma atitude, seja uma roupa de que você não precisa mais. Gratidão é doação. Sou grata pelas amizades que fiz e pelas alegrias que tenho."
- Luana Helena de Melo Caetano, 26 anos, recepcionista

"Temos uma cultura muito forte de comprar coisas que nem são necessárias, só parece que são. A ideia (da feira) é acabar com esse sentimento de posse e trocar o armário cheio por algo mais bacana. É algo até meio pueril, infantil, de ‘não estou usando o brinquedo, mas é meu’. Mas é complicado se desvencilhar disso. Penso na gratidão como um misto de oportunidade, sorte e um monte de outras coisas. O que mais se aproxima da gratidão hoje é poder pensar nesse acaso, nesses milhões de detalhes que convergiram para estarmos aqui hoje. Sou grato por esses detalhes, que acabaram se tornando cruciais para eu ser quem sou hoje." - Carlos Vinícius dos Santos Oliveira, 27 anos, servidor público
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