ENTREVISTA

Para estar em paz

Lauro Henriques Jr. reúne em livro ensinamentos de grandes mestres na arte do viver. Aceitar os desafios que o cotidiano impõe é uma das lições presentes na obra

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postado em 28/12/2014 08:00 / atualizado em 26/12/2014 16:33

Rafael Campos

Luciana Nunes/Divulgação
O jornalista e escritor Lauro Henriques Jr. sabe que há muitos caminhos para o autoconhecimento e a espiritualidade. Tanto que, em sua série Palavras de Poder (Editora Alaúde), que chega ao terceiro volume, conversou com personalidades que, mesmo que distintas em suas crenças, têm uma busca comum: guiar as pessoas para compreenderem melhor seu lado espiritual. "Há um ensinamento trazido por todos os entrevistados, cada um do seu jeito, que vale destacar: é a importância da aceitação, de entendermos que tudo na vida acontece para o nosso aprendizado", disse, em entrevista à Revista. Em suas palavras, o escritor prova que, não importa o caminho escolhido, há como se encontrar a luz.


Qual é a sua definição de espiritualidade?
A espiritualidade não é uma esfera isolada da vida cotidiana, algo que vivemos somente quando estamos em uma igreja, templo ou sinagoga. A verdadeira espiritualidade é aquela que se manifesta de um jeito prático na vida, sob a forma de mais amor, tolerância, caridade. Um de meus entrevistados diz uma frase que acho perfeita: "Mais vale um ateu que ama do que um crente que odeia e discrimina". Seja em relação ao meu próximo, seja em relação à natureza que nos rodeia, a espiritualidade é aquilo que, em essência, nos religa com a própria vida. Como me disse o escritor Rubem Alves: "O arco-íris, a chuva, o cheiro de café, um bolo de fubá, o sorriso de uma criança — tudo isso são pulsações do sagrado. É preciso reencontrar Deus no assombro da vida. Para mim, a forma mais alta de oração é justamente esta: a reverência pela vida".

Há a ideia de que a iluminação é destinada a poucos. Esse pensamento atrapalha aqueles que buscam um caminho espiritual?
Essa ideia falsa de que a espiritualidade e a iluminação são milagres destinados a poucos escolhidos é fruto, sobretudo, da exigência de perfeição que temos em relação a nós mesmos. Afinal, como eu posso ser uma pessoa "iluminada", se todos os dias tenho de me preocupar com o horário de chegar ao trabalho, com a escola dos filhos ou as contas a pagar? Se eu parto dessa ideia — de que para ser uma pessoa espiritualizada tenho de estar isolado das demandas do cotidiano, vivendo num mosteiro —, realmente parece ser algo impossível. É justamente o contrário. O que as mais diversas tradições ensinam é que, mais do que ser uma "pessoa iluminada", o importante é procurarmos ter "ações iluminadas", ou seja, agir de forma consciente, amorosa, digna. Isso tudo, claro, com a consciência de que somos seres humanos e, como tais, estamos sujeitos a errar. Mais do que exigir de mim a perfeição, procuro fazer sempre o meu melhor. E isso é algo que todos nós podemos fazer.

O que todos os seus entrevistados têm em comum? E em que pontos suas crenças convergem para o bem-estar de cada um de nós?
Há vários pontos em que as diversas tradições e linhas terapêuticas convergem, como a importância da humildade, da compaixão, de cultivarmos um sentimento de gratidão pela vida. Mas há um ensinamento trazido por todos os entrevistados, cada um do seu jeito, que vale destacar: é a importância da aceitação, de entendermos que tudo na vida acontece para o nosso aprendizado — mesmo uma situação que, a princípio, parece ser um problema, na verdade só acontece para o nosso próprio crescimento e bem-estar maior.

Como aceitar algo difícil?
É uma aceitação que nasce da consciência de que, por trás de todos os eventos, há uma força superior trabalhando para o nosso bem. Uma história que conto no livro ilustra isso: "Havia um rei que só andava acompanhado de seu conselheiro, um sábio que, a todo sucesso ou fracasso do soberano, repetia: ‘Tudo o que Deus faz é bom’. Certo dia, porém, numa caçada, o rei disparou sua arma e o tiro saiu pela culatra, decepando-lhe o dedão da mão direita. Revoltado, o monarca ficou ainda mais furioso ao ouvir o ancião lhe dizer: ‘Tudo o que Deus faz é bom’ — e, na hora, mandou prendê-lo numa masmorra. Passado um tempo, o rei voltou a caçar, mas, numa das viagens, sua comitiva caiu nas mãos de uma tribo de canibais. Quando o soberano ia ser devorado, os canibais viram que lhe faltava um dedo e o soltaram, pois não comiam pessoas mutiladas. E foi aí, enfim, que o rei compreendeu as palavras do conselheiro. Agradecido, ele mandou libertar o velho mestre, mas algo ainda o intrigava: ‘Se tudo o que Deus faz é bom, como Ele deixou que você fosse preso injustamente?’. Ao que o ancião respondeu: ‘Majestade, se eu não estivesse na masmorra, também teria sido pego pelos canibais. Só que, como não sou mutilado, seria devorado por eles’.

São 11 entrevistados no terceiro volume. Consegue citar três que mais o tocaram?
Sinceramente, eu não teria como destacar este ou aquele entrevistado, pois a troca com cada um deles foi muito gratificante, transformadora, trazendo diversas lições e aprendizados marcantes. Muitas vezes, o próprio ambiente onde se deu a entrevista trouxe insights e histórias surpreendentes. Por exemplo, durante minha conversa com Rubem Alves, num determinado momento, ele apontou para um quadro na parede — uma colagem com três folhinhas de árvore — e disse: "Você vê aquele quadro ali? Pois então, são apenas três folhinhas, sem nenhum valor estético. Mas, se eu te contar a história por trás dessas folhinhas, tudo ganha um novo sentido, a imaginação floresce". Daí, então, ele me contou uma história maravilhosa, de como aquelas folhinhas, na verdade, foram colhidas de um caquizeiro que conseguiu brotar em meio à devastação causada pela bomba atômica em Hiroshima. E o caso é que os japoneses ficaram tão maravilhados com aquele caquizeiro que brotou das cinzas, que ele passou a ser o símbolo de que a vida venceria a morte. E, ali, na parede do Rubem Alves, estavam as folhinhas "netas" desse caquizeiro. Na hora que me contou o caso, seus olhos se encheram de água, e os meus também.

Vivemos em uma época em que há maior busca por espiritualidade e autoconhecimento?
Com certeza. Nós vivemos em um mundo que, basicamente, nos vende uma ideia falsa de que só depois de ter isto ou aquilo é que vou ser feliz, só depois de ganhar tal ou tal coisa é que vou me realizar. Acontece que essa suposta felicidade futura nunca chega, e o resultado, naturalmente, é o acúmulo de frustração e estresse. Agora, o lado bom disso tudo é que, a cada dia, mais e mais pessoas têm acordado dessa ilusão, dessa espécie de sonambulismo consumista, e começam a se perguntar: "O que eu estou fazendo da minha vida? Estou realmente realizando todo o meu potencial amoroso, todo o meu potencial profissional, criativo?". E é justamente o contato com a espiritualidade e o autoconhecimento que traz as respostas para essas perguntas e, com elas, uma vida de mais significado e plenitude.

Leia a íntegra da entrevista na edição impressa
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