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Luz que não se extingue

Há 30 anos, desencarnava Tia Neiva, a médium que ergueu ao redor de sua pessoa uma das comunidades esotéricas mais intrigantes do país. O Vale do Amanhecer já não é o mesmo, com problemas típicos de periferia, mas a fé dos adeptos segue inabalável

Flávia Duarte
postado em 18/01/2015 08:00
[FOTO368924]"Salve Deus! Filhos, está passando da hora de minha filha cumprir sua grande missão. E essa missão não poderá ser realizada aqui na cidade. (;) O lugar já está escolhido e da parte material cuidarão vocês. Não se demorem."

Assim foi traçado o destino de Neiva Chaves Zelaya. A ordem superior emanada pelo mestre espiritual Pai Seta Branca, recebida por um médium incorporado, apontava o endereço onde Tia Neiva ergueria um templo, realizando no plano terreno os desígnios transcendentais. Ela saiu de Taguatinga e seguiu para o local idealizado, onde só tinha mato, alguns pés de manga e um casebre abandonado. O ano era 1969. Era o primeiro passo dado para o que seria o futuro Vale do Amanhecer, em Planaltina.

Tia Neiva construiu o templo Ordem Espiritualista Cristã (OES) no terreno de 25 alqueires que comprou com o dinheiro angariado com a venda da casa em que morava. Empenhou ainda uma kombi e contou com algumas doações. Ali, ela ergueu o espaço físico onde funciona até hoje a doutrina que congrega diversas crenças e reúne pessoas vindas de todo o Brasil.

Foi essa nordestina que deu vida e cara a esse lugar. Quem chega ao Vale do Amanhecer, logo sente sua presença. Na entrada, há um pórtico. Sol e lua, esculpidos no concreto, saúdam o visitante. Ao lado, a assinatura de Tia Neiva. Em letra cursiva. É o símbolo imortalizado de quem, de alguma forma, continua a ser a dona daquele lugar.

A morte dela, em 1985, não enterrou seu legado. Três décadas após ter "desencarnado", como preferem dizer seus seguidores, o Vale do Amanhecer continua a ser uma referência viva do trabalho de quem trouxe para as redondezas do DF uma manifestação religiosa única, que nunca tinha sido vista, até então, em qualquer canto do mundo. Até hoje, seus ensinamentos são mantidos. Eles são resultado da orientação do Pai Seta Branca, que, conforme a crença, após conseguir sua redenção pelas reencarnações, escolheu voltar em missão para ensinar aos homens como alcançar a paz.

Cada cor e cada espaço do Vale foram mantidos como Neiva foi orientada a fazer. O que ela talvez não imaginasse é que seus seguidores hoje somassem cerca de 200 mil pessoas, espalhadas por mais de 600 templos no Brasil, e também naqueles erguidos em outros países, como Bolívia e Portugal.

"No dia em que a mamãe desencarnou, me lembro de eu e meu irmão sentarmos em um meio-fio e pensarmos se era hora de arrumarmos as malas ou ficar de vez", comenta uma das filhas de Neiva, Carmem Lúcia Zelaya, que acaba de lançar um livro sobre a trajetória da mãe: Neiva ; sua vida pelos meus olhos. Decidiram ficar. Tanto pelo legado da mãe quanto pelos pedidos das forças sobrenaturais.

Trinta anos depois de a líder na terra ter partido, o Vale do Amanhecer está diferente. A imensa fazenda de antes ganhou asfalto. O casebre recebeu paredes de madeira e chão de cimento foi tingido com cera vermelha. Chegaram mais centenas de moradores ; os seguidores de Tia Neiva. Gente que veio atrás dela e foi ficando. E também há aqueles que ela trouxe consigo: mais de 100 crianças que Neiva cuidava como se fossem suas. Foi daí que ela virou a "tia". Além disso, nunca gostou de ser tratada como um médium, dona de poderes tidos como paranormais. Assim, a referência carinhosa a aproximava dos mortais sem as mesmas habilidades.

Ela cuidava das crianças na própria casa, como uma grande família. O orfanato de Neiva não tinha a burocracia exigida pela lei. Assim, quando morreu, os filhos conseguiram manter a estrutura até 1993. Depois, tiveram que fechar as portas para esse tipo de caridade. "Tive que levar umas 25 crianças para minha casa", conta Lúcia.

Leia a reportagem completa na edição n; 505 da Revista do Correio.

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