Grupos privados de mães e noivas nas redes sociais são alvos de golpes

A exposição excessiva de mulheres em fóruns fechados na internet, atraem pessoas de má-fé: tem roubo de vestido de noiva a falsa gravidez para angariar doações

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postado em 22/01/2015 08:00 / atualizado em 22/01/2015 13:04

Olívia Meireles - Especial para o Correio /Especial para o Correio

Os grupos privados de mães e noivas no Facebook, nos últimos dois anos, mudaram a maneira como as mulheres do Distrito Federal se relacionam e trocam experiências. Em um mesmo espaço, esses fóruns reúnem, em média, 15 mil pessoas. Os mais populares, entretanto, ultrapassam a marca de 20 mil usuários. Estão cadastradas brasilienses de todas as regiões, classes sociais, idades e culturas. As participantes denunciam irregularidades, trocam conselhos, engajam-se em causas sociais, discutem temas polêmicos, comentam a novela, compram e vendem trabalhos. É uma capacidade de mobilização muito grande. E também uma exposição incalculável. Aproveitando a situação, começaram a surgir picaretas que se aproveitam da boa-fé das participantes para dar golpes.

Em um fórum de casamento que reúne 18.500 pessoas, por exemplo, uma das mulheres se dispôs a emprestar o vestido de noiva a quem não tivesse dinheiro para comprar. A única condição era devolvê-lo limpo. A primeira que levou a peça não trouxe de volta. Após tentar, por dias, sem sucesso, o contato por telefone e internet, acabou expondo a situação no grupo. As companheiras se solidarizaram e foram questionar, via rede social, uma resposta. Em meia hora, tiveram retorno: a lavanderia teria sumido com a peça. Bastou mais um pouco de pressão e ela devolveu o vestido.

Bruno Peres/CB/D.A Press


Não é possível afirmar se a situação resultou da falta de comunicação ou má-fé. Afinal, não houve queixa na polícia e o post foi apagado do grupo. Mas a moderadora do fórum, Lívia Oliveira, proibiu pedidos de doação por aquele meio. “Nós recebemos denúncias de mulheres que iam buscar as arrecadações com carro importado”, revela. Mas a gota d’água ocorreu quando uma das participantes fez um depoimento emocionado, pedindo donativo de ouro para poder fazer a aliança de casamento. “É difícil avaliar se as pessoas são sem noção, se as participantes interpretam errado ou se de fato existe quem atue de má-fé.”
 
Segundo a Polícia Civil do Distrito Federal, os crimes no Facebook são cada vez mais comuns. Além de links e aplicativos falsos que instalam vírus e roubam dados, há truques banais. O caso relatado acima não é necessariamente um crime cibernético, mas sim apropriação indébita— e as pessoas que foram vítimas devem registrar ocorrência. Se ontem, entretanto, for doação, não há golpe, pois receberam o produto de livre espontânea vontade. “É uma situação ética e moral, porém não é crime”, explica a polícia, em nota.

Arrecadou e vendeu

Essa situação ocorreu em um grupo destinado às mães de Águas Claras, com 21 mil cadastradas. Uma mulher, anunciando a gravidez, contou que foi abandonada pelo pai da criança e não tinha como montar o enxoval. Rapidamente, as participantes se mobilizaram para ajudá-la. Doaram berço, roupa, fralda, decoração para o quarto e mamadeira. Em um outro grupo do Facebook de compra e venda, acharam o mesmo perfil cobrando dinheiro por todos os bens arrecadados. A mulher bloqueou as participantes da rede social, mudou o telefone e sumiu do mapa. As mães, agora, pensam duas vezes antes de se mobilizar novamente.



Devido ao aumento dos truques, as gestoras passaram a estabelecer regras de boa convivência. Para entrar em um desses grupos, por exemplo, elas avaliam o perfil de cada pessoa. Notam se o cadastro é recente, se de fato mora em Brasília e avaliam as fotos. A ideia é destinguir as pessoas de verdade daquelas que apenas fizeram cadastro no site para dar golpes. Existe até uma lista suja, nos bastidores, entre algumas moderadoras e as usuárias, de participantes com registro por agirem de má-fé. Algumas procuram fazer uma relação de telefones para as pessoas poderem ser contactadas fora da rede social.

Outra maneira mais eficiente é conscientizar os membros do grupo: alertando sobre os cuidados a serem tomados e explicando os direitos de quem participa. Carol Porto Xavier, por exemplo, modera um grupo com 16 mil mulheres. Consultou advogados para saber quais responsabilidades tem como gestora do grupo e como pode ajudar as participantes a se protegerem. Com ajuda dos especialistas, listou dicas sobre segurança na internet e postou na comunidade. “Sempre desconfie, questione, pergunte, se abasteça de informação para não cair em golpes”, avalia.

Problemas dos dois lados

Breno Fortes/CB/D.A Press


A preocupação tem aumentado, pois não são apenas mulheres pedindo doações que cometem esses crimes nas redes sociais. Empresários aproveitam-se da concentração de gente para fazer propaganda de produtos e serviços e, às vezes, aparecem negócios e clientes picaretas. A designer gráfica Milla Machado, por  exemplo, conheceu por meio do grupo uma pessoa interessada em fazer a logomarca para uma loja. Por ser conhecida do fórum, não fez contrato e nem pediu pagamento adiantado.Mandou o esboço, mas a pessoa nunca respondeu. “Depois de um tempo, vi a mesma usuária anunciando a inauguração da loja com a cópia do meu desenho. Acabei não prestando queixa porque seria difícil provar o crime”, explicou.
 
O diretor geral do Procon-DF, Paulo Márcio Sampaio, ressalta que não importa omeio pelo qual a negociação foi feita: telefone, pessoalmente ou via rede social. Quem se sentir lesado tem direito de procurar a Justiça para recuperar o prejuízo. Basta documentar provas, como e-mails, prints de conversas ou trocas de mensagem. Se a empresa tiver CNPJ, o órgão ajuda a proteger o consumidor. Caso a negocição seja feita de maneira informal, como um contrato de compra e venda, a Justiça é o modo correto para fazer as partes chegarem em um acordo. “O melhor, entretanto, é prevenir-se para evitar esse tipo de crime”, conclui Paulo Márcio.

Ajuda no grupo

Bruno Peres/CB/D.A Press


Haglas e Túlio Neres viveram os dois lados da moeda na hora de decidirem se casar. Eles conheceram o serviço de cerimonialista em um desses grupos, e fecharam o valor total de R$ 14.300 para o bufê, a decoração, o fotógrafo, os doces e o DJ, todos os itens necessários para a festa de recepção. Pagaram, mas a empresa não cumpriu o que foi acordado: parou de atender telefone e não respondia mais pelas redes sociais. O casal, entou, procurou a Justiça depois de a cerimonialista cancelar o contrato um mês antes do casamento.

Uma conhecida, simpatizando com o desespero do casal, relatou o caso no mesmo grupo. Rapidamente, 11 empresas se prontificaram a realizar a cerimônia cobrando apenas o valor de custo dos produtos necessários e deixando de lado a mão de obra. “Nós seremos eternamente gratos àquelas que transformaram meu conto de fadas em realidade”, relata. O processo corre há quatro meses na Justiça e eles até hoje não recuperaram o valor.
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Márcio
Márcio - 22 de Janeiro às 10:36
incauculável? destinguir?
 
Márcio
Márcio - 22 de Janeiro às 10:32
incauculável?