[an error occurred while processing this directive] O mais nobre dos instrumentos - Revista do Correio - Correio Braziliense

REPORTAGEM DE CAPA

O mais nobre dos instrumentos

Os pianos já foram símbolo de status, patrimônio de família, hobby feminino, a estrela dos salões. O romantismo arrefeceu, mas o encantamento das 88 teclas jamais se perdeu

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postado em 01/02/2015 08:00 / atualizado em 30/01/2015 16:28

Juliana Contaifer

Carlos Vieira/CB/D.A Press

Dizem que os pianos estão acabando. Que ninguém mais os toca. Que não há espaço para eles nos apartamentos, cada vez menores. Que é caro. Será? Muitíssimo tradicional, o piano, que significa "suave", ou "lento" em italiano, ganhou esse nome por oferecer ao instrumentista a possibilidade de um som leve ou forte na mesma tecla, dependendo da força empregada, e teve seu auge nos séculos 19 e 20. À época, era quase obrigatório que as mulheres aprendessem a tocar o instrumento.

Uma pesquisa americana divulgada no fim do ano passado afirma que, de lá para cá, o sucesso do piano diminuiu, e muito. Em 1909, mais de 364 mil exemplares eram vendidos por ano nos Estados Unidos. Hoje, não passam de 40 mil. Outros instrumentos tomaram o lugar e a preferência dos interessados em fazer música. Acompanhando o declínio, várias fábricas clássicas fecharam as portas nos últimos anos. Em 2013, por exemplo, foi a vez da francesa Pleyel, empresa que assinou pianos usados por Chopin, Liszt e Debussy. Os fabricantes brasileiros seguem a mesma tendência — apenas um sobreviveu. Além da queda nas vendas, contribuiu para esse quadro a concorrência chinesa e coreana, que oferece produtos muito mais baratos.

"Havia muito preconceito com os pianos orientais, mas hoje eles são muito respeitados e disputam salas de concerto ao redor do mundo. Eles produzem o luxo e o lixo, é possível encontrar qualquer tipo de piano chinês. As grandes marcas europeias moveram parte de suas produções para a China. Mas só temos a agradecer. Por conta deles, o piano ficou mais acessível", pondera o afinador, construtor e reformador de pianos Rogério Resende.

A praticidade dos teclados eletrônicos e os aplicativos "pianísticos" para tablets também impactam o mercado. "O piano é rico, é um mundo de cores, de timbres, de imagens sonoras. O repertório pianístico é muito grande e não dá para fazer tudo em um teclado, por exemplo. Tocar piano não é só mexer os dedos. Para quem quer aprender mesmo, não tem como fugir do instrumento", explica a pianista e professora Tamara Ujakova. "O teclado é frustrante e decepcionante para o estudante que quer melhorar. Por isso, a tendência é adquirir o piano — o comércio de um não interfere no outro", afirma Rogério.

Brasília, porém, atravessa esse fenômeno de forma suave, pianinha. Em uma cidade com menos de 3 milhões de habitantes, os 10 afinadores de piano locais — uma profissão cada vez mais rara — contam cerca de 80 mil exemplares, segundo cálculo dos afinadores. O número é alto, e ao contrário do que se possa imaginar, os instrumentos não estão concentrados apenas nos endereços mais ricos. "Estamos vivendo um movimento especial em Brasília, a demanda é muito boa. Os pianos ultrapassaram as divisas da região central de Brasília. Tenho clientes novos todos os dias. A capital é um celeiro de pianos", garante Rogério Resende. O afinador calcula que 25% deles estão na Asa Sul. Alguns apartamentos, como o da tradicional professora de piano Neusa França, contam com três pianos.

Natália Borges é a orgulhosa proprietária de um dos três pianos de Planaltina de Goiás. "Sempre gostei muito de música. Quando eu era pequenininha, comecei a tocar órgão na igreja. Mas o piano sempre chamou a minha atenção. Com 9 anos, meus pais me matricularam em uma escola de música aqui em Planaltina e comecei a estudar", conta. Em 2014, Natália fez 15 anos e ganhou dos pais um instrumento só para ela — um piano de parede, usado, que encontrou à venda pela internet no Lago Norte.

A estudante explica que o piano virou ponto turístico — vários amigos e famíliares foram à casa dela conhecer o instrumento. Mas Natália não toca em público, prefere a companhia solitária das teclas quando toca as partituras de música clássica. "Não pretendo seguir carreira, toco para mim. Parei de fazer aulas, mas treino todos os dias, sempre que tenho tempo. Sou minha própria professora", explica.


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