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Conheça o sapateiro que faz ajustes em peças do Louboutin e da Prada

Grifes internacionais, com loja no DF, escolheram mão de obra brasiliense para fazer pequenos consertos nos sapatos e bolsas das marcas

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postado em 08/02/2015 08:00 / atualizado em 05/02/2015 17:43

Olívia Meireles - Especial para o Correio /Especial para o Correio

 

Há cinco anos, lojas de grifes internacionais começaram a abrir as portas em Brasília. Louis Vuitton desembarcou primeiro, depois vieram Burberry, Tiffany & Co. e, mais recentemente, a Dolce & Gabbana. Além de mudar o hábito dos brasilienses consumidores de peças de luxo, esse tipo de marca movimenta o mercado de trabalho, pois exige mão de obra qualificada. As empresas não buscam somente vendedores especializados, mas, também, profissionais capazes de fazer reparos em peças delicadas. Muitas lojas mantêm a "assistência técnica" em São Paulo, fazendo o cliente esperar até 90 dias para receber o produto de volta. Mas a Prada e a Christian Louboutin escolheram um brasiliense para promover os reparos nas mercadorias.


Em uma pequena loja de 90m², dividida em três pavimentos, na 208 da Asa Sul, Leonardo Ribeiro, 55 anos, realiza ajustes em sapatos e bolsas dessas duas grifes, conhecidas no mundo inteiro pela excelência em produzir artigos de couro. Os produtos chegam lá depois de vendidos ou até mesmo antes de aportarem nas prateleiras. Eles trocam o taco do saltinho, laceiam ou apertam o material para conforto, instalam palmilhas a fim de ajustar a peça no pé, higienizam e até repintam a sola, caso apareça arranhão — mesmo se for o vermelho Louboutin. A parceria não surpreende o empresário. "Estamos há 31 anos no mercado e esses não são os primeiros artigos de luxo que passam pelas nossas mãos", revela. Acostumados a cuidar das peças da elite brasiliense, lidar com saltos da Valentino e bolsas Chanel sempre fez parte da rotina da loja.

 

Esses clientes fiéis — e cheios de grana — indicaram aos representantes das lojas em Brasília o trabalho da família Ribeiro. Mas Leonardo só conseguiu firmar o contrato depois de passar por testes — fazendo serviços em alguns produtos de mostruário — e provar se, de fato, tinha a excelência exigida por essas marcas. Fora isso, não foi preciso muita adaptação: eles já trabalhavam com o material exigido pela grife e o único funcionário responsável por esses consertos, que era do quadro, foi treinado na própria empresa.

 


A parceria com esses nomes internacionais não subiu à cabeça do empresário. Afinal, ele atende há décadas milionários do Lago Sul e políticos da Esplanada. Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, quando ainda morava no Palácio da Alvorada, mandava os sapatos de couro para serem cuidados ali. O sucessor, Luiz Inácio Lula da Silva, também era um cliente fiel. A presidente Dilma Rousseff manteve a tradição e encaminha seus sapatos para serem forrados lá também. Ribeiro conta que, nos anos 1990, uma diretora norte-americana do Fundo Monetário Internacional (FMI), ao visitar Brasília, trazia na mala todos os sapatos para serem consertados por ele e sua equipe.


A fama de melhor sapateiro da cidade foi conquistada com muito suor e uma bela história de amor. Ele veio do Rio Grande do Norte, em 1978, para tentar a vida em Brasília. Quando chegou aqui, conheceu membros de uma família, proprietários de algumas lojas de couro pela cidade. Em uma delas, arrumou um emprego fixo. Mas ele gostou mesmo da filha do dono. Contrariando o chefe, se apaixonou por Maria Teresa rapidamente e começou a namorá-la. Mas ela tinha planos de abrir a própria empresa, dedicada exclusivamente a sapatos. Em 1984, deixou a rede comandada pelos pais e lançou a própria marca. Leonardo não se aguentou de saudade e foi atrás. Assumiu em tempo integral a loja, com auxílio da mulher, quando ela engravidou do primeiro filho deles, dois anos depois.


O casal começou em um pequeno endereço em Taguatinga, em poucos meses se mudou para uma loja no subsolo da comercial da 304 Sul e, há 18 anos, está no local onde ocupa hoje. Viajam 12 vezes ao ano pelo país em busca de novos materiais, maquinário e técnicas para melhorar o serviço. Além disso, nessas saídas, se atualizam das tendências de moda. Os filhos, Leonardo e Ana Angélica, que assumem a empresa aos poucos, colocaram na rota uma parada internacional por ano, a fim de garimparem produtos ainda mais especializados, como fechos e detalhes chineses e peças italianas para refinar os serviços oferecidos.


Os materiais — e a mão de obra qualificada dos 12 funcionários — faz fama por todo o país. Hoje, eles têm clientes no Tocantins, no Pará e em Curitiba, que encomendam sapatos sob medida, seja porque têm pés pequenos, seja problemas ortopédicos, seja simplesmente porque não encontram nas lojas um modelo específico. O sapateiro conta ainda que alguns clientes já chegaram a pedir que ele reproduzisse modelos de grifes famosas. Afinal, quem tem Ribeiro, não precisa de designer italiano.

 

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