PERSONALIDADE

O teórico de tudo

O genial físico Stephen Hawking é pop. Parte importante de sua vida agora é recontada num filme, forte candidato ao Oscar 2015

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postado em 15/02/2015 08:00 / atualizado em 13/02/2015 18:58

Rafael Campos

Entender Stephen Hawking não é algo simples. E nem estamos falando aqui das revolucionárias teorias físicas que ele desenvolveu. Há um aspecto do cientista mais conhecido do mundo desde Albert Einstein que causa tanta comoção quanto a sua inteligência. Desacreditado pelos médicos desde 1962, quando foi diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica, doença degenerativa que debilita os músculos do corpo, ele segue vivo e atuante. Com o lançamento de sua cinebiografia, A teoria de tudo, ficou mais fácil entender de onde o físico tira suas forças.

Hawking nasceu em 8 de janeiro de 1942, exatos 300 anos após a morte de outro revolucionário, Galileu Galilei. Nascido em uma família que incentivou o talento dos filhos, ele sempre demonstrou interesse pela ciência, apesar de não ter sido considerado um aluno excepcional durante a infância. Porém, aos 17 anos, foi aprovado na University College, em Oxford e, a partir daí, começou a trajetória científica. Sua ascensão se deu simultaneamente ao diagnóstico da doença, que ficou conhecida mundialmente ano passado por conta do Ice Bucket Challenge, o desafio em que os participantes jogavam baldes de água fria sobre o corpo para angariar fundos para pesquisa.

Hawking ouviu dos médicos que teria, no máximo, mais três anos de vida. Aparentemente, nunca acreditou no prognóstico e manteve os estudos até concluir o doutorado em cosmologia pelo Trinity Hall, Cambridge, em 1966. No começo dos anos 1970, ao mesmo tempo em que via seus movimentos diminuirem gradativamente, sua mente se encontrava no auge. E, ainda que obrigado a usar uma cadeira de rodas, casou-se com a primeira esposa, Jane, com quem viveu até 1995. É esse relacionamento que dá mote ao filme que concorre ao Oscar em várias categorias, inclusive melhor ator — Eddie Redmayne está fantástico no papel.

Em entrevista ao site da revista The Wired, o diretor do filme, James Marsh, afirmou que, muito mais do que a vida de um cientista, o que ele viu no roteiro foi uma história de amor: isso que o fez encarar o projeto. Mesmo tendo sua vida como estrela de uma produção hollywoodiana, não é a primeira vez que Hawking se torna uma celebridade além do mundo da física. Suas limitações nunca atrapalharam o seu lado pop, muito menos suas aventuras: Hawking conhece todos os continentes, viajou de balão e submarino e até mesmo teve uma experiência com gravidade zero. Isso sem falar nas aparições em programas de sucesso — como o seriado Jornada nas estrelas: a nova geração e o talk show do apresentador britânico John Oliver, Last week tonight — e nos best-sellers que lançou dissecando suas teorias para leigos, como Uma breve história do tempo e O universo numa casca de noz.

De acordo com Sérgio Caldas, pós-doutor em física pela Mcgill University e professor do Instituto de Física da Universidade de Brasília, as contribuições de Hawking para além da academia também são importantes, já que ele faz com que as teorias possam chegar à sociedade. Afinal, ciências como a física tendem a carregar um estigma de complicação. "Só que consideramos nossas pesquisas obras de arte. E queremos que as outras pessoas possam ver a física pela beleza estética que ela tem."

Cinco curiosidades

1 - Hawking acredita que a Terra vai sucumbir diante da sua própria fragilidade nos próximos 1.000 anos. Por isso, recomenda que os humanos comecem a procurar um novo planeta para chamar de lar.

2 - Mesmo com um boletim mediano durante a juventude, ele foi apelidado de Einstein, pois, entre os professores e alunos, era perceptível a sua aptidão para a ciência.

3 - Ao diagnosticá-lo com esclerose lateral amiotrófica, aos 21 anos, os médicos garantiram que ele teria apenas mais três anos de vida. Em 8 de janeiro passado, Hawking fez 73 anos.

4 - Além de seus best-sellers científicos, Stephen Hawking escreveu um livro para crianças. Em 2007, com a filha, Lucy, ele publicou George’s secret key to the universe, sobre um jovem que viaja pelo espaço.

5 - Hawking apareceu em cinco episódios do seriado Os Simpsons e já disse, em entrevistas, que suas participações na série fizeram com que muita gente pensasse que ele era um personagem.

Principais contribuições científicas

De acordo com o professor Sérgio Caldas, da UnB, para contextualizar o trabalho de Hawking, é necessário lembrar que a física atual se apoia em duas estruturas amplamente corroboradas pelos experimentos: a Teoria da Relatividade e a Teoria Quântica. A relatividade foi descoberta por Einstein no domínio dos fenômenos macroscópicos, ou seja, coisas do dia a dia, ou muito grandes, como estrelas e galáxias. A física quântica foi descoberta por vários físicos, entre eles Max Planck, Niels Bohr, Einstein, Werner Heisenberg, Louis de Broglie e Erwin Schrödinger, examinando fenômenos microscópicos, ou seja, objetos minúsculos, como átomos e núcleos. Segundo Caldas, há mais de sete décadas se busca a unificação: uma única teoria que descreva tanto as grandes escalas (universo) como as escalas muito pequenas (partículas elementares). No jargão da física atual, a teoria da relatividade é denominada "clássica" ou não-quântica. A partir dessa contextualização, ele descreveu para a Revista as principais contribuições de Hawking para a ciência.

1 - Singularidades do espaço-tempo

Foi o primeiro trabalho de Hawking, em colaboração com o matemático inglês Roger Penrose. As singularidades são pontos do espaço-tempo onde o campo gravitacional é infinito (e a curvatura do espaço-tempo é infinita). Eles provaram matematicamente que as singularidades são consequências inevitáveis na relatividade geral (ou gravitação clássica), por exemplo, nos buracos negros e no Big Bang (início do universo). Um buraco negro clássico absorve tudo e dele nada escapa, nem mesmo a luz. Hoje há confirmação de centenas de buracos negros em núcleos de galáxias espirais.

2 - Dinâmica dos buracos negros

Hawking e outros descobriram as leis da mecânica dos buracos negros. Hawking desvendou sozinho a segunda lei, que afirma que a área de um buraco negro nunca diminui. Essa lei é análoga à segunda lei da termodinâmica, que afirma que a entropia — medida de desordem das partículas em um sistema físico — de um sistema isolado nunca diminui. Na verdade, as quatro leis dos buracos negros são análogas às quatro leis da termodinâmica. Por um lado, isso significa que um buraco negro deveria ser quente e emitir radiação. Por outro lado, na gravitação clássica usada na descrição dos buracos negros, um buraco negro teria temperatura nula e não irradiaria (calor/energia). Parecia haver uma inconsistência.

3 - Evaporação do buraco negro (Radiação de Hawking)

Há 40 anos, Hawking mostrou que, devido a efeitos quânticos dos campos, um buraco negro emite radiação e tem temperatura definida. Assim, uma parte da matéria/energia do buraco escapa dele. Com este resultado, a inconsistência mencionada acima desaparece: as leis dos buracos negros são semelhantes às leis da termodinâmica dos corpos usuais, porque são simplesmente as leis da termodinâmica aplicadas aos buracos negros. Esse trabalho, que envolveu uma combinação da gravitação com a quântica (denominada teoria semiclássica da gravitação) veio apoiar a ideia de que gravitação e a quântica devem ser unificadas.

Cena de A teoria de tudo: o ator Eddie Redmayne é um dos favoritos ao Oscar

Hawking apareceu em mais de um episódio dos Simpsons

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