REPORTAGEM DE CAPA

Sem medo de envelhecer

Aceitar e aproveitar cada etapa da vida pode ser a chave para tornar leve e feliz a passagem do tempo. A Revista conversou com homens e mulheres que encaram com suavidade a chegada da idade

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postado em 22/02/2015 08:00 / atualizado em 20/02/2015 17:58

Flávia Duarte

Ismar Ingber/Divulgação

 

Quando sua juventude se esvair, sua beleza irá com ela e você subitamente descobrirá que não há muitos triunfos que lhe restarão ou terá de se contentar com aqueles medíocres triunfos que a memória de seu passado tornará mais amargo do que as derrotas. Cada mês que míngua lhe trará mais próximo de algo terrível. O tempo tem ciúmes de você e luta contra seus lírios e suas rosas. Você sofrerá horrivelmente. Compreenda sua juventude enquanto a tem. (…) Mas nós nunca recuperamos nossa juventude. O pulso da alegria que reverbera em nós aos 20 anos se torna letárgico. Nossos membros falham, nossos sentidos apodrecem. Degeneramo-nos em marionetes horrendas, assombradas pela memória das paixões das quais tivemos tanto medo e as intensas tentações às quais não ousamos ceder. Juventude! Juventude! Não há absolutamente nada no mundo além da juventude!

 

O trecho reproduzido no início desta reportagem pode até ser digno de apreciação como parte de uma grande obra literária, mas interpretar seu significado e adotá-lo como verdade pode parecer um tanto aterrorizador. Trata-se de um parágrafo do livro O retrato de Dorian Gray, escrito em 1891, pelo poeta inglês Oscar Wilde. Em sua obra-prima, ele conta a história de um belo jovem que temia de forma tão patológica o envelhecimento que encontrou uma forma de fazer com que mudanças em seu físico acontecessem em um quadro, onde estava pintado o seu retrato. A pintura, assim, envelheceria. Já ele, se manteria para sempre jovem.

O medo de ter as feições transformadas pelo tempo pode parecer exagerado no relato de Wilde, mas seguramente é motivo de preocupação há incalculáveis anos. Tanto que hoje esse pavor ganhou um nome alcunhado pela psicologia de gerontofobia. Na tradução acadêmica e clínica, nada mais é do que o pavor de envelhecer. A terminologia pode ser novidade, a angústia, porém, não o é. "O conceito é novo, mas o sentimento é tão antigo quanto a história da humanidade", avisa o médico Alexandre Kalache, presidente da Aliança Global de Centros Internacionais de Longevidade (ILC) e ex-diretor do Departamento de Envelhecimento e Curso de Vida da Organização Mundial da Saúde.

Para Kalache, a sensação de inadequação surge quando a sociedade estigmatiza o velho como incapaz e inadequado. A partir de uma visão equivocada, surgem o preconceito e o temor de ser vítima da reprovação. "Muitos idosos que sentem a gerontofobia têm medo da discriminação e, por isso, não aceitam que estão envelhecendo. A sociedade usa ‘velho’ no sentido pejorativo, como se ele estivesse tirando o lugar do mais novo. São medos que se alimentam", afirma o especialista.

A fobia, no entanto, não é resultado apenas do olhar temeroso do outro. É também insatisfação com o que se vê diante do espelho. Para a psicoterapeuta Maura de Albanesi, a gerontofobia pode ser considerada um distúrbio de ansiedade e com chance de surgir em qualquer idade, desde que o sinônimo de felicidade seja a beleza e a juventude, não importa quanto anos se tenha. "São pessoas que não conseguem imaginar a vida depois dos 50 anos", considera a terapeuta. "Ela pode entrar em melancolia ou em depressão. O futuro passa a ser algo aterrador", acrescenta.

Há outros substantivos para nomear o mesmo estado de ânimo. O gerontólogo Vicente Alves, coordenador do mestrado de gerontologia da Universidade Católica de

Brasília, chama de idosismo o conceito que surge a partir do preconceito e da discriminação. Para ele, esse temor surge com as incertezas trazidas pelo passar do tempo e pelas limitações decorrentes do uso da máquina chamada corpo humano. "Envelhecer provoca nas pessoas um temor de se reconhecerem no velho; de estarem no lugar dele daqui a uns anos; de não serem estimados pelos parentes ou pela sociedade; de não serem mais produtivo", avalia o professor.

Se os mais jovens ainda encaram os idosos com desprezo, inclusive porque eles são o reflexo mais real do que serão com o passar dos anos, Kalache sugere que é preciso uma mudança imediata de mentalidade. De ambas as partes, ressalta. Os que viveram muito também precisam reconhecer o valor da experiência e o privilégio de ainda usufruírem da vida. O resultado seria o que chama de "geratividade", que, na prática, é a frutífera e prazerosa troca de conhecimentos e experiências de gerações diferentes.

Aceitar os idosos é uma demanda ainda mais imediata porque a expectativa é de que o Brasil se torne um país ancião muito em breve. "Você olha para a expectativa de vida do brasileiro na década de 1940 e conclui que pulou de 43 para 76 anos. São 33 anos a mais de vida e não de velhice", afirma Kalache. "Em 2050, passaremos a ter 30% da população com mais de 60 anos. Na década de 1940, esse número era de 5%. Isso abre oportunidades para as pessoas viverem mais de 70, 80 anos", acrescenta.

Pelas estatísticas, seremos então o primeiro país não desenvolvido a envelhecer. Isso porque a longevidade é resultado de qualidade de vida, acesso à saúde e à infraestrutura, prerrogativas inacessíveis em sociedades mais carentes. No contexto de tantos cabelos brancos, melhor mudar a forma de encarar essa etapa. "O importante é encontrar beleza em cada fase da vida e entender que não somos mais os mesmos. O medo faz com que a pessoa deixe de aproveitar o que tem de bom no momento. É preciso resignificar a própria vida", sugere Maura de Albanesi.

E os que passaram dos 60 estão cada vez mais produtivos e participativos na sociedade. "Hoje, falamos muito em envelhecimento ativo e também em funcionalidade, que tem a ver com as funções que a pessoa desempenha de acordo com a idade, buscando sempre a independência", comenta Vicente. "É preciso encarar o envelhecimento não como um término, mas como um coroamento da vida", defende o gerontólogo.

Se os sinais e as mudanças do passar do tempo são inexoráveis, o caminho que cada um vai trilhar para chegar e para desfrutar aquilo que ficou definido como terceira idade é extremamente idiossincrático. Envelhecer bem é mais do que uma lista de regras para manter a saúde e preservar a funcionalidade do corpo. Quem já passou da sexta década da vida e alcançou a oitava, por exemplo, garante que o segredo maior é o estado de espírito e o desejo de viver.

Em seu livro A bela velhice, a antropóloga Mirian Goldenberg descreve o resultado da pesquisa que desenvolveu desde 2007 com 5 mil pessoas, homens e mulheres, entre 18 e 90 anos. O objetivo era compreender como eles e elas encaravam a passagem do tempo, especialmente em uma cultura como a brasileira, em que o corpo tem valor de capital e obviamente o envelhecimento desvaloriza tal bem.

O resultado apontou diferenças entre os gêneros. Antes de completarem 60 anos, elas são as mais incomodadas com a mudanças físicas e as transformações do corpo. Ao mesmo tempo, as mulheres são muito generosas com o envelhecimento masculino, atribuindo inclusive, uma dose de charme ao volume abdominal dos homens; aos cabelos grisalhos e até a falta deles. De acordo com o estudo, até 59 anos, cerca de 38% das mulheres temem envelhecer, enquanto 25% dos homens compartilham a mesma aflição.

Depois dos 60, as preocupações, especialmente com o físico, amenizam. Após essa idade, cerca de 19% delas e 10% deles afirmam que têm medo de envelhecer. Os fantasmas são os mesmos para ambos: a possibilidade de ter limitações físicas, de depender dos outros, de serem abandonados, de perderem a memória, de ficarem sem dinheiro. Os homens, especificamente, mencionaram a preocupação de ficarem inúteis, chatos, deprimidos e sem atividades. Eles acham que a velhice é tempo de estar com a família, já que passaram boa parte da vida trabalhando.

Por sua vez, elas se reavaliam depois dos 60. Acham, se comparadas a seus pares, que envelheceram melhor. Cuidam-se mais e os efeitos do tempo são menos pesados. Também afirmam que passado o medo inicial, as mulheres definem a velhice como "o melhor momento da vida." "Elas dizem que, pela primeira vez, se sentem livres, despreocupadas com a opinião dos outros e que lamentam terem descoberto isso tão tarde", diz a pesquisadora.

A leitura de conclusão tão libertadora explica-se pelo fato de que a maioria das mulheres se vê pela primeira vez sem as obrigações de mãe, de esposa ou de trabalhadora. É o momento em que se redescobrem, fazem o que não tiveram tempo de fazer antes. Elas têm as amigas como melhores companheiras e as risadas como o melhor remédio. "Dizem que aprenderam a viver intensamente o presente; a dizer ‘não’; a respeitar as próprias vontades; a vencer os medos e a aceitar a idade", esclarece Mirian.

Somente assim se poderia alcançar a dita bela velhice. E cada qual deve encontrar o segredo para conquistá-la. Mas entre todos esses belos velhos têm algo em comum: um projeto de vida que não passe pelo corpo ou pela aparência. "Eles não se aposentaram de si mesmos, recusaram as regras que os obrigariam a se comportar como velhos. Não se tornaram insensíveis, apagados, infelizes , doentes, deprimidos. Estão criando possibilidades e significados para o envelhecimento", garante a antropóloga.

Para conhecer essas pessoas que, com experiência, sabedoria e muita lucidez falam do momento da vida tão temido e, ao mesmo tempo, tão desejado pela espécie humana, leia a edição imprensa da Revista.

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