REPORTAGEM DE CAPA

À flor da pele

Conheça a história de mulheres que decidiram ignorar preconceitos, recusar o rótulo de coitadas e aceitar com muita confiança os desafios impostos à aparência

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postado em 29/03/2015 08:00 / atualizado em 27/03/2015 18:09

Juliana Contaifer

Aos 2 anos e meio, um acidente mudou para sempre a vida de Ananda Martins. No interior do Maranhão, onde morava, não havia energia. Ela estava deitada em uma rede quando a irmã, dois anos mais velha, quis iluminar o ambiente com um lampião. A rede pegou fogo e Ananda sofreu queimaduras gravíssimas. Ganhou marcas irreversíveis, perdeu um braço. No ano seguinte, a família se mudou para Brasília à procura de reabilitação. Ao longo de 26 anos, ela sobreviveu às dores, ao tratamento, às sequelas físicas e emocionais. Vive uma vida normal. Por que não viveria?

A estudante de 26 anos teria, sim, motivos para se incomodar. Mora num país onde as pessoas retocam o corpo como se mudassem de roupa. Recordista em cirurgias plásticas, a mulher brasileira normalmente não gosta do que vê no espelho. É insatisfeita e põe defeito em tudo: da unha do pé à cor do cabelo. Obviamente, também aponta o dedo e julga os demais pela imagem. Ter crescido numa sociedade que sobrevaloriza a aparência física e impõe um modelo quase único de beleza, no entanto, não afeta Ananda. Ela não se lembra de ter tido outra imagem. Desde muito pequena, precisou lidar com o olhar curioso do outro. Aceitou sua condição.

Zuleika de Souza/CBD.A. Press


Ter marcas na pele chama a atenção. Provocadas por doenças crônicas, acidentes ou disfunções, que por vezes exigem tratamento constante e difícil, as cicatrizes físicas são a parte visível de uma história normalmente dolorosa, que pode ser associada a trauma e depressão. Quem é obrigado a conviver com uma condição irreversível precisa de força, autoconfiança, apoio. Muitos preferem se esconder. Outros vão à luta e encontram uma definição de si mesmo que não passe apenas pela aparência física. Enxergam além.

Hoje, a Revista conta histórias de mulheres como Ananda. Gente que aprendeu a viver do jeito que é. Que acredita que as marcas no corpo são, na verdade, algo único, lembranças da própria história. Que aprendeu a filtrar o olhar dos outros e a tirar dele também admiração. Que ignora o preconceito. Que transforma a expressão de piedade alheia em motivação para vencer na vida e recusa, com muita veemência, o papel de coitada e sofrida.


Tomada pelo estresse


Zuleika de Souza/CBD.A. Press


A professora Zilei Cintra, 42 anos, já teve quase 100% do corpo tomado pelas marcas da psoríase. O couro cabeludo, a testa, o pescoço, as pernas, os braços, a barriga. Tudo cheio de feridas vermelhas que coçam, descascam. "Começou aos 12 anos e nem sabia o que era. Os médicos disseram tratar-se de dermatite seborreica, era só uma manchinha pequena no couro cabeludo. Mas, somente aos 20, ao entrar na faculdade, as marcas se espalharam e recebi o diagnóstico de psoríase. Eu morava a 55 quilômetros de onde estudava, tinha uma rotina muito corrida, estressante", conta a professora.

A psoríase é uma doença genética, não contagiosa, e que tem tratamento — há vários remédios para cada tipo de paciente e, em alguns casos, as lesões praticamente desaparecem. Mas é muito ligada ao emocional. Se o paciente vive uma rotina estressante ou um período emocionalmente difícil, as marcas se multiplicam. Por isso, é complicado lidar com a imagem. "Há uma discriminação muito grande, as pessoas acham que não pode chegar perto, que é mulheres. Os maridos evitam as esposas, os pacientes se escondem, não vão à praia, não usam shorts. É um impacto muito grande na qualidade de vida", explica a médica Letícia Galvão, especialista na patologia.

Zilei manteve a rotina apesar da doença. Não deixou de se maquiar ou ir à praia, continuou fazendo as unhas, arrumando os cabelos. Não parou de frequentar o clube de Inhumas, sua cidade natal. Foi lá que passou por uma das piores experiências de intolerância e falta de conhecimento sobre o problema. Certa vez, os associados fizeram questão de pedir à direção que vetasse o acesso dela às piscinas. "A sorte é que minha prima era a diretora e fez questão de explicar para todos que a psoríase não é contagiosa, que ninguém corria risco. O preconceito pode vir de qualquer lado, até do próprio portador. Mas nunca me deixei abalar", afirma.


Às claras
A socialite americana também tem psoríase. O caso de Kim Kardashian foi diagnosticado em 2011 e é controlado mas, volta e meia, aparecem novas lesões. A socialite não esconde a doença, fala abertamente sobre o assunto e sempre dá dicas de maquiagem ou produtos que ajudam a disfarçar as marcas vermelhas.

REUTERS/Gus Ruelas
 

 

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Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
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suzana
suzana - 31de Março às 21:40
Curiosamente não tive meu comentário postado aqui,será por que eu não concordei com algumas frases da matéria?
 
Marcelo
Marcelo - 30de Março às 15:29
É isso aí...