MODA

Antes nacional do que importada

O luxo e o acabamento impecável podem estar bem à mão. Conheça quatro fabricantes brasileiras de bolsas que não deixam nada a dever a grifes estrangeiras

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postado em 17/05/2015 08:00 / atualizado em 15/05/2015 14:48

Carolina Samorano



Existe um mercado de bolsas no Brasil que vai muito além dos modelos monogramados expostos nas vitrines de lojas gringas (e que ostentam preços de mais de quatro dígitos). Acessórios com certidão de nascimento e identidade brasileiras têm ganhado cada vez mais espaço no mercado fashion aqui e de fora, e conquistado a clientela ligada em produtos mais originais do que aqueles estampados em blogs e revistas à exaustão e reproduzidos às centenas por redes de fast fashion. A bolsa brasileira tem couro de curtumes escolhidos a dedo, todos de território nacional, tem cores, materiais e trançados que só os artesãos daqui sabem fazer. O acessório prodizido aqui pode ter tanto valor e qualidade quanto o importado, defendem os designers.

Mas não são para qualquer clientela. A impressão geral de quem está por trás dessas marcas — sejam elas veteranas ou novatas no mercado nacional — é que a mulher que procura pelo produto brasileiro, mesmo podendo pagar por uma Louis Vuitton, está muito menos preocupada com a etiqueta do que com o design da peça. Prefere uma bolsa de tressê com matéria-prima nacional a um modelo esgotado de uma grife internacional. Há até quem não troque uma coisa pela outra, mas alterne sua coleção de it-bags gringas, muitas vezes conseguidas após fila de espera ou por encomenda com importadoras de luxo, com as nacionais. "Tenho clientes que só viajam para o exterior com as minhas bolsas, de tanto sucesso que elas fazem lá fora. Elas contam que as pessoas param para perguntar de onde é", conta Ana Paula Ávila, da Confraria, que nasceu em Belo Horizonte, mas há 14 anos está instalada no DF.

A chave do que parece ser uma espécie de mudança no conceito de luxo também pode estar, na visão de outros designers, mais perto do que se imagina. "Existe um movimento mundial de as pessoas darem valor ao que é local. Isso importa, sim, para muita gente e vejo isso acontecendo no Brasil não só no design, em todas as áreas", comenta Clara Tarran, sócia da carioca Escudero &CO. ao lado do marido, Renato Pereira. A marca existe há três anos e meio, mas sofreu mudanças e voltou ao mercado há poucos meses — e já sua para manter o estoque em dia com a demanda. "As pessoas começam a ver que a gente é capaz, que aqui tem qualidade e design bom. Quando participo de eventos, sempre me perguntam se não somos de fora, e as pessoas ficam amarradonas quando descobrem que somos 100% brasileiros", continua.

Nesta edição, a Revista apresenta quatro marcas brasileiras de bolsas com estilos e histórias bem diferentes. Em comum, compartilham o fato de estarem crescendo no mercado nacional sem nenhuma intenção de copiar grifes estrangeiras. A maioria nasceu em terras mineiras. Três delas são de Belo Horizonte, mas alcançaram territórios bem além dos limites do estado em que nasceram. A outra, do Rio de Janeiro, incorporou no seu DNA o lifestyle da capital fluminense.





A marca de Belo Horizonte nasceu em 2008 por obra das designers Fernanda Dubal e Tatiana Azzi. E é o design o maior atrativo da grife — mesmo os modelos mais básicos têm personalidade marcante. As peças se sobressaem pela cor (os clássicos preto e caramelo dividem espaço com tons de vinho, azul, verde e cinza), pela distribuição de bolsos, pelos cortes geométricos O primeiro produto foi uma carteira de mão com elementos do congado, que, na época, fazia parte do trabalho de conclusão de curso de desenho industrial de Tatiana. Hoje, a Adô tem uma loja na capital mineira e um canal virtual que escoa a produção — mais de 70% das vendas são para clientes fora de Belo Horizonte.

"Nossa proposta é o desenvolvimento de produtos originados de um processo criativo espontâneo, marcado pela experimentação e pela busca constante da inovação no design", conta Fernanda Dubal. A Adô tem lançamentos quinzenais, que garantem a renovação dos estoques e dos desejos das consumidoras. O catálogo contempla de modelos míni, para eventos de fim de semana, até mochilas de couro e bolsas grandes, para o dia a dia. Acessórios secundários, como capas para tablets, estojos, porta-passaportes e tags para malas, complementam a linha de bolsas. Hoje, um dos xodós da fabricante é a bolsa saco, disputada unidade a unidade pelas clientes, em diferentes cores e tamanhos. Os preços variam entre R$ 200 e R$ 600, a depender do tamanho.

Em pouca coisa as bolsas das sócias mineiras lembram as dispostas nas vitrines das marcas nacionais: não levam correntes, têm ferragens discretas e design chique, mas simples. "Quando focamos na função e no usuário dos produtos, consequentemente o design das peças se torna mais atemporal, menos ligado às cores da estação ou a tendências ditadas pelo mercado da moda", argumenta Fernanda. "Os consumidores brasileiros estão amadurecendo. Eles já conhecem as grandes marcas de fora e sabem que a qualidade e o design nacionais não deixam nada a desejar. Pelo contrário, empregam e ajudam a estimular a economia do nosso país. Isso, sim, é sustentabilidade e consumo consciente", complementa a empresária.



A Confraria já é parte da moda brasiliense, mas começou sua história há 19 anos em Belo Horizonte, terra da proprietária da marca, a designer Ana Paula Ávila. Quando Ana Paula se casou, em 2001, veio para a capital construir a vida ao lado do marido e trouxe na mala a Confraria, que transformou em símbolo de produto de luxo no Brasil e no mundo. As bolsas da marca podem chegar aos R$ 5 mil, e começam na faixa dos R$ 800. Os produtos sensação da marca, confeccionados na fábrica do Núcleo Bandeirante, e que andam nos braços de moças requintadas do mundo inteiro, são as bolsas feitas de junco, um material mais nobre que o vime.

"A Confraria sempre procurou usar uma matéria-prima superior, o que acaba elevando o custo", comenta a empresária. O junco, por exemplo, só pode ser extraído pelos índios, o que o torna um material mais raro e mais caro. Além disso, é característico do Brasil, o que o faz crescer aos olhos dos consumidores gringos. A carteira de junco com fecho de cristal, por exemplo, é o best-seller da marca, com bastante saída nos resorts de praia no Nordeste.

É Ana Paula quem cria os modelos da Confraria. "Desenho em qualquer lugar, toda hora. Dormindo, eu sonho com bolsa, tem papel e lápis até no meu banheiro", brinca. Hoje são mais de 2 mil peças em catálogo, todas com a assinatura dela. Tudo é meticulosamente estudado e desenhado antes de virar realidade. "Eu e meu modelista, que está comigo desde o começo, às vezes até nos desentendemos. Eu teimo com ele que quero, ele teima comigo que não dá, até que sai", ri Ana Paula. Algumas peças chegam a levar 9 meses para sair da ideia e chegar até a mesa da designer, pronta. As bolsas de junco nasceram assim, de uma teimosia de Ana Paula em transformar o material em bolsa, e são patenteadas pela Confraria. Ela mesma ensinou o trançado a alguns artesãos. Cada um tece uma bolsa por dia. Alguns modelos — os que vendem mais de 500 unidades — fazem parte da linha Classic, que fica permanentemente em catálogo, mesmo com as mudanças de coleção.

Além dos produtos de junco, a Confraria tem modelos básicos de couro liso; mais sofisticados, como as bolsas feitas de python (as cobras usadas por Ana Paula são criadas em liberdade e apenas liberadas para abate quando começam a influenciar na cadeia alimentar); e mesmo os de tom mais fashion, com cores e desenhos marcantes, que enlouquecem o público jovem e blogueiras de moda. Como representante do mercado de luxo, Ana Paula também passou por dificuldades para se manter no topo. Com os impostos que cabem ao setor, com a dificuldade em achar e manter mão de obra e com a burocracia para exportar.

"O Brasil não tem competitividade alguma. Nós, designers, não temos condição de conciliar a política comercial do Brasil com os nossos desejos. Tudo aqui é difícil", lamenta a empresária. "O Brasil não tem mais mão de obra interessada em trabalho artesão. Na Itália, as pessoas têm o maior orgulho disso, herdam a função do pai, do avó. Aqui, isso não existe mais. As tradicionais fábricas de couro do sul estão fechando", continua. A Confraria, no entanto, se impôs no mercado. "Foi o que me fez não desistir. Tem muitas clientes que só viajam de Confraria. As minhas consumidoras têm uma veia de arte. Querem ter o que ninguém mais tem", atesta Ana Paula.

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