DEBATE

Encontro sem filhos

Uma tem 22 anos, a outra, 50. Em comum, a certeza de que não nasceram para ser mães

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postado em 31/05/2015 08:00 / atualizado em 05/06/2015 13:55

Ailim Cabral

Por quê? Essa questão ainda persegue a mulher que não tem filhos por escolha. Anos atrás, a pergunta era pronunciada com um severo tom de crítica, principalmente de outras mulheres, quase como uma bronca. O tema, que continua em pauta, ganha ares mais amenos, mas não deixa de ser encarado com estranheza e com preconceito, ainda que de forma velada.

A Revista conversou duas mulheres, de idades diferentes, que têm em comum a opção de não ter filhos: a estudante de medicina Camila Valadares Santana Recch, 22 anos, e a professora universitária Marilza Saraiva de Souza, 50 anos. O papo, divertido e cheio de cumplicidade entre duas pessoas que acabaram de se conhecer, você confere abaixo.

A decisão

Camila — De um ano e meio para cá, venho pensando seriamente em não ter filhos. Antes, eu apenas não me imaginava sendo mãe. Acho que prende um pouco. Eu sempre quis viajar, conhecer o mundo e quero uma carreira mais sólida. Acho que uma criança não seria boa ideia, ia me prender muito. É preciso muita responsabilidade e acho que não vou ter tempo para dar a atenção que uma criança necessita.

Marilza — É algo bem parecido com o que ela (Camila) disse, nunca me imaginei mãe. Não tinha tino. Na adolescência, sempre pensei que era algo que dava muito trabalho. Aos 8 anos, minha mãe me designou para cuidar de um dos meus irmãos mais novos e eu simplesmente não cuidava (rindo), não tinha o dom. Pensei que poderia atrapalhar a minha carreira. Com o passar dos anos, percebi que realmente não tinha estrutura, ser mãe não é só colocar uma criança no mundo.

Camila — Não me imagino grávida, (sentindo) as dores. Só de pensar no parto, fico apavorada. Eu, como estudante de medicina, passei um tempo na obstetrícia e aquilo me apavorava. Cada vez que via um parto, tinha mais certeza de que eu não ia ser mãe. Quero viajar, ter a minha profissão, não viver para os filhos.

Marilza — Mães sofrem muito, não tenho estrutura para isso. A minha teve nove filhos e, até hoje, com 79 anos, vive para eles.

Arrependimento

Camila — Você se arrependeu de não ter tido filhos?

Marilza — De forma alguma, não me arrependi. É muito claro para mim que eu não tenho condição de ser mãe ou estrutura psicológica. Não tenho aquelas características que uma mãe tem. Se o menino chorar de dor, eu choro junto. Quando trabalhava com crianças, ficava desesperada, com medo de acontecer alguma coisa. Não consigo nem pegar bebê pequeno.

Camila — Nossa, eu também não. Hoje, estava na pediatria e é complicado, fico sem saber como segurar. Não tenho o menor dom com criança. Minhas amigas dizem que eu vou me arrepender, mas eu duvido.

Marilza — Hoje, tentei imaginar alguém falando ‘mãe’ para mim, é algo muito irreal. Nunca ninguém vai me chamar assim.

Relacionamentos

Marilza — Camila, vou te perguntar uma coisa que sempre me perguntam. E os namorados? (risos)

Camila — (Risos) Nossa, eu ia te perguntar a mesma coisa! Teve um que eu não esqueço, falou que queria ter oito filhos. Disse que ele estava louco e corri na mesma hora. Eu quero me casar um dia, só não ser mãe nem dona de casa.

Marilza — Eu fui noiva algumas vezes. A primeira, eu tinha 14 anos e a última foi recente. No começo, todos concordavam em não ter filho, achavam legal. Quando o namoro se fortalecia, mais perto do casamento, eles tentavam mudar a minha cabeça e eu me distanciava. Não acho justo me envolver com alguém que quer ser pai. Também quero me casar, mas com alguém que queira as mesmas coisas que eu. Também não quero ser dona de casa (risos).

Egoísmo

Camila — Eu fico pensando que não consigo organizar nem a minha vida nem os meus horários. Imagina com um filho? Com aquela rotina? Já acho ruim quando preciso buscar minha irmã no cursinho, não posso sair para almoçar com minhas amigas. Imagina isso todo dia? Se for viajar, só pode se for com os filhos.

Marilza — Você não acha isso um pouco egoísta não?

Camila — Pode parecer, mas eu não acho. Cada um escolhe viver de um jeito, quero fazer as minhas coisas e não viver em função de ninguém. Egoísmo seria ter um filho e abandonar.

Marilza — Eu ouvi essa pergunta muitas vezes e por isso te perguntei. Quando as pessoas me falam isso, não me sinto nenhuma culpada. Respondo a verdade, que eu não quis ser mãe.

Solidão

Camila — Você não tem medo de ficar sozinha quando ficar velha?

Marilza — Isso é uma questão interessante, tenho um exemplo na minha casa. A minha mãe teve nove filhos e ficou sozinha. A minha mãe nos criou bem e nenhum filho mora com ela hoje. Ajudam financeiramente e fazem visitas, mas ninguém vive com ela.

Família

Marilza — A minha família entende que eu não nasci para ser mãe. Hoje, eles concordam comigo, sabem que não ia dar certo.

Camila — Nunca conversei sobre isso com meus pais, apenas com a minha irmã. Ela diz que não ia dar certo. A minha mãe vai me matar quando ler isso (risos).

Troca de experiências

Camila — Essa conversa foi muito boa. Eu nunca tinha conversado com alguém que decidiu não ter filhos. É bom ter uma ideia de como pode ser o meu futuro. As pessoas sempre me dizem que vou me arrepender se não tiver filhos. Ver você, feliz com sua decisão, me dá uma boa perspectiva.

Marilza — Não volte atrás por causa dos outros, você pode não ter filhos e ser feliz e realizada. Hoje, eu estou exatamente onde queria estar, realizei meus sonhos e pude investir tudo em mim. Para as pessoas que querem, deve ser ótimo ter filhos, mas são prazeres diferentes.

"Mães sofrem muito, não tenho estrutura para isso. A minha teve nove filhos e, até hoje, com 79 anos, vive para eles"

Marilza Saraiva de Souza

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