REPORTAGEM DE CAPA

No quintal por trás de casa...

Nas zonas rurais ao redor da capital modernista, existem famílias que tiram o sustento do solo e fornecem aos brasilienses os alimentos mais saudáveis que podem existir

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postado em 31/05/2015 08:00 / atualizado em 29/05/2015 20:09

Zuleika de Souza/CB/D.A Press

Viver na cidade significa, com frequência, perder o contato com a origem dos alimentos. Eles vêm de longe — embalados e recheados de aditivos, para aguentar as longas distâncias. Quem tem curiosidade de ler o rótulo acaba se deparando com acidulantes, corantes e conservantes, quase sempre "disfarçados" sob nomes extravagantes. Porém, recuperar a ligação com a terra é possível. Além de investir em hortas urbanas, uma atitude valiosa é preferir alimentos produzidos mais perto de casa. Uma opção são as produções familiares.

Visitar feiras é um bom começo. "Antigamente, as pessoas compravam sempre nas feiras e conheciam o produtor", ressalta Jean Marconi, representante da Slow Food Cerrado, braço local da organização criada em 1989 com o objetivo de confrontar a fast food e valorizar os conhecimentos alimentares tradicionais. Marconi recomenda frutas e legumes "da estação". "Os chefs contam que os clientes ficam indignados se não tem um prato porque falta algum ingrediente. As pessoas não respeitam a sazonalidade", protesta. Tomate, por exemplo, só tem condições adequadas de plantio na seca. Para ser produzido no período de chuva, demanda mais agrotóxico, mais insumos. O preço vai lá pra cima.

Quer saber em que época dá o quê? Pergunte a um produtor. Em se tratando de alimentos, há outros questionamentos importantes. Onde eles são produzidos? São orgânicos? Transgênicos? Quais são as condições de trabalho? Há problemas com pragas? Preocupar-se apenas com a quantidade de agrotóxicos não basta. "Não adianta desmatar uma área enorme de cerrado para produzir um único tipo de cenoura orgânica", ressalta Marconi.

As doçuras da família Araújo
"Modéstia não tem não, porque o trem é bom mesmo", brinca Teresinha Maria de Araújo, 58 anos. "Eu cresci vendo a minha mãe fazer doce e licor. Sempre fui apaixonada por isso", conta a produtora rural, que também fabrica geleias. Ela lembra que o interesse pelas iguarias começou na infância. Ela veio de Pernambuco para o DF quando tinha apenas 3 anos. A família trouxe a vontade de trabalhar e de se divertir. O pai preparava a roça, mas, nas horas vagas, assumia o cargo de sanfoneiro. Enquanto ele cuidava da música, a mãe providenciava a bebida, um licor caseiro. E, assim, "a festa zuava a noite todinha". Talvez tenha sido daí que ela tirou o jeito alegre e bem-humorado.
Zuleika de Souza/CB/D.A Press

Mas Teresinha demorou um pouco para se dedicar exclusivamente aos produtos artesanais. Primeiro, trabalhou como operadora de caixa. No entanto, ela nunca abandonou as receitas e levava alguns produtos para o trabalho. As delícias ganharam fama. Ela decidiu se especializar na área e fez cursos para aprimorar a técnica. Há cerca de 20 anos, assumiu a profissão de produtora rural, "com muito orgulho". A escolha não foi fácil. "Chegaram a me dizer que ninguém vence na vida vendendo doce. Mas eu sou capricorniana, pernambucana e criada na rapadura. Eu sou teimosa." O negócio deu certo. Hoje, a geleia de gengibre e os licores de pimenta são os destaques. Ela descreve algumas características. "Minhas geleias são todas naturais. Tem menos açúcar e o único conservante que eu uso é totalmente natural, o limão."

A rotina dela é puxada: dedica toda a manhã e tarde à produção. Por mês, são cerca de 400kg, 600kg de geleia. O licor exige mais tempo, são cerca de 400 litros a cada dois meses. Não conta com funcionários, mas tem ajuda da família, principalmente na embalagem e na entrega dos produtos. Ela envolve irmãos, sobrinhos, filhas e até os genros. Lamenta o falecimento do pai, no ano passado. "Mesmo com 91 anos, ele me ajudava muito. E foi a pessoa que mais torceu por mim." Na etapa da fabricação em si, ela faz a maior parte do trabalho sozinha, pois é necessário ter conhecimentos específicos. "Precisa de experiência para saber o ponto. Geleia mole não é geleia", exemplifica. Para Teresinha, o maior desafio é na hora da venda. "O pequeno produtor tem dificuldade de se colocar no mercado. Precisamos de mais divulgação e incentivos", opina. Ela considera que o público de Brasília deveria conhecer melhor os pequenos produtores, para ter acesso a alimentos saudáveis e de qualidade.

Delícias da primavera
Núcleo rural de Samambaia
Telefones: (61) 3359-5286 e 8482-6134.

Onde encontrar
Café da Torre, no mezanino da Torre de TV. De terça-feira a domingo. Telefone: (61) 3321-1289.
Mercado da agricultura familiar, no Ceasa. Aos sábado, das 6h às 12h.

Leia a reportagem completa na edição nº 524 da Revista do Correio.
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