REPORTAGEM DE CAPA

O barato é bazar

Passar para frente o que não se usa é, mais do que um negócio, uma espécie de fenômeno cultural. Penetrou no inconsciente coletivo como um antídoto para o desperdício e como uma tremenda diversão para quem exercita o desapego

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postado em 14/06/2015 08:00 / atualizado em 11/06/2015 18:19

Renata Rusky /Revista

Ed Alves/CB/D.A. Press

 

Se vender e comprar peças de vestuário e acessórios usados já esteve associado a eventos de igreja, as coisas mudaram bastante. Se comprar roupas de segunda mão já foi visto como hábito de quem não tinha condições financeiras para adquirir peças novas, a situação deu uma reviravolta nos últimos tempos. A prática ganhou muitos adeptos em Brasília. Por motivos e objetivos diversos, brasilienses estão procurando uma forma de dar destino àquilo que ainda tem valor, mas está parado no guarda-roupa.

Na Europa, é uma atitude corriqueira há muito tempo. Segundo o coordenador do curso de design de moda do Centro Universitário Iesb, Marco Antônio Vieira, as guerras no continente teriam fortalecido a consciência do reaproveitamento (não só de roupas) entre a população. "Eles viveram momentos de escassez de materiais. Na Segunda Guerra Mundial, Ferragamo fez sapatos de cortiça, papel-jornal e acrílico. As mulheres usavam cortinas para fazer vestidos", exemplifica. O contato maior dos brasileiros com esses valores — por meio de viagens e da internet —, impulsionou uma nova mentalidade. Não espanta que alguns brechós estrangeiros tenham, inclusive, apelo turístico.

Além desses endereços de escambo, uma nova geração aposta em formas mais baratas e menos burocráticas de vender o que não se usa mais, mas que ainda está conservado e pode servir perfeitamente a outra pessoa. Exibem os objetos em feirinhas, em plataformas on-line ou em casa mesmo. E nem sempre a estrutura caseira significa "pensar pequeno". O sucesso dos bazares é tamanho que, em alguns casos, supera o faturamento de lojas famosas. Afinal, um dos baratos desse ramo é que cada "comerciante" pode imprimir sua personalidade e se voltar para públicos superespecializados.

Cada um tem seus motivos para entrar na onda: economia, ideologia, insatisfação com a moda que se encontra no shopping. Muitos responsabilizam a crise econômica pela vontade de vender e comprar roupas usadas. Desse ponto de vista, crise é oportunidade. Aqueles que querem garantir um dinheiro extra se uniram aos que querem comprar roupas por preços mais acessíveis e todo mundo sai ganhando.

O coordenador do curso de moda do Iesb, Marco Antônio Vieira, acredita que a disseminação dos bazares é parte de um fenômeno de busca por personalidade. As pessoas já não se enxergam no fast-fashion. "Sabemos que se vamos à liquidação da Zara comprar uma roupa nova e vamos a uma festa com ela depois, vai ter um monte de gente igual", lamenta. "A roupa de bazar, naturalmente mais barata, ainda dá possibilidade de criar em cima e customizar. Quando se paga caro em algo, não se corre o risco de estragar a peça", especula.

 

A questão do consumo consciente, por sua vez, ganhou espaço na mídia e na mente das pessoas depois que diversas confecções têxteis — fornecedoras de grandes marcas — foram flagradas usando trabalho escravo. A tragédia com um prédio repleto de lojas em Bangcoc também levantou a polêmica sobre consumo excessivo e fez com que pessoas buscassem alternativas.

Claro, existem também os bazares despretensiosos. Algumas pessoas querem dar uma movimentada no fim de semana e se divertir ao mesmo tempo em que exercem o desapego. Para isso, os recursos são variados, como o convite a artistas e oferta de drinques, comidinhas. Há quem queira apenas se ver livre do excesso de coisas e levantar uma grana. Motivos nobres e não tão nobres... Não importa: não há regra.

 

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