ENTREVISTA

Aids em perspectiva

Um dos maiores especialistas em HIV do mundo, Jürgen Rockstroh afirma que, apesar de a doença ainda não ter cura, os tratamentos disponíveis atualmente garantem qualidade de vida aos pacientes

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postado em 21/06/2015 08:00 / atualizado em 19/06/2015 18:10

Carolina Samorano




Desde que o mundo conheceu a aids, nos anos 1980, e perdeu inúmeros gênios para a doença, a cura para esse mal é discutida. Quase 40 anos depois, ainda não a vimos noticiada em capas de revista. No entanto, segundo o especialista alemão Jürgen Rockstroh, é possível que, em um futuro, ela chegue. É o que buscam todos os grupos de pesquisa atualmente.

Rockstroh é um dos maiores especialistas no assunto do mundo. É professor da Escola de Medicina na Universidade de Bonn e chefe de uma clínica especializada em tratamento de pacientes hemofílicos portadores de HIV desde os anos 1990. Além disso, integra o Grupo Alemão de Trabalhos Clínicos de Aids (KAAD, na sigla em alemão), foi presidente da Sociedade Alemã de Aids entre 2007 e 2011 e ainda é membro do Comitê Executivo da Sociedade Europeia de Aids desde 2009. No mês passado, ele esteve no Brasil para participar de um encontro internacional de infectologistas e outros especialistas no tratamento da doença, promovido por um laboratório farmacêutico.

Uma cura para a enfermidade não é exatamente o melhor dos cenários, mas outros avanços da medicina confortam quem convive com o vírus atualmente. Nos últimos 25 anos, o tratamento contra o HIV evoluiu a ponto de garantir vida quase normal aos pacientes, especialmente quando o diagnóstico é feito precocemente. "O problema não é o tratamento. O que temos hoje é bom. Honestamente, o que precisamos, agora, é lutar para que ele esteja disponível em todos os lugares, para mais pessoas", defende o especialista.

O lado B da boa notícia é que, diante de tantos avanços, a doença aparentemente deixou de ser uma ameaça aos jovens que não viveram o medo da aids dos anos 1980 e 1990. Em dezembro passado, a Secretaria de Saúde do DF e o Ministério de Saúde divulgaram que a taxa de contaminação nesse faixa etária por 100 mil habitantes no Distrito Federal cresceu 86% desde 2004. Número que indica, segundo o especialista, que talvez seja hora de rever as campanhas de prevenção. À
Revista, ele falou, por telefone, sobre tratamentos, o cenário atual e as perspectivas para o futuro.

O que podemos esperar do tratamento para a aids no futuro? Veremos mudanças importantes?

É importante dizer que, com os tratamentos atuais, conseguimos alcançar uma coisa que pensávamos ser impossível. Se nós começarmos a cuidar cedo, podemos garantir vida normal ao paciente. Medicamentos como o dolutegravir, por exemplo — antirretroviral liberado pela Anvisa no Brasil no ano passado que deve ser tomado apenas uma vez ao dia, ao contrário da rotina antiga de tratamento, com mais remédios e horários rígidos —, tornaram o tratamento muito fácil. Ele é mais flexível hoje, mais seguro. Honestamente, o que precisamos agora é lutar para que ele esteja disponível em todos os lugares, para mais pacientes.

Mas não estamos falando de cura ainda?

Com a evolução das coisas, hoje, eu posso oferecer aos meus pacientes ótimos tratamentos e uma boa expectativa de vida. O próximo passo seria trazer uma vacina ou a cura. Todos os grupos de pesquisa que eu conheço estão atualmente trabalhando com a busca da cura, mas, por enquanto, não a temos. Os esforços ainda estão sendo feitos. Não poderia dizer que contamos com uma agenda, uma data para isso acontecer.

Alguns especialistas dizem que uma vacina contra o HIV estaria disponível a médio prazo, em 10 ou 15 anos. Acha que isso é realmente possível?

É possível que tenhamos uma vacina nos próximos anos, mas precisamos ter cuidado com essa informação. Já chegaram a dizer que ela seria lançada em 2000 e isso não aconteceu. Os resultados ainda estão longe do ideal. Precisamos entender melhor, aprender melhor. Ainda estamos bem longe de uma vacina.

Por que o senhor acha que vemos agora uma geração de jovens pouco preocupada com a aids?

São muitas razões diferentes. Com o tratamento oferecido atualmente, obviamente, eles pensam: ‘Se eu pegar, posso me tratar, então não é tão ruim assim’. Mais recentemente, não vemos tantas mensagens alertando sobre o HIV. Essas pessoas talvez não morram da doença, mas vão viver com algumas barreiras e limitações. Temos que retrabalhar as nossas mensagens de prevenção, pensar como podemos alcançar os jovens, envolvê-los na prevenção, falar a língua deles. Mesmo em países como a Alemanha, há grande aumento no número de contaminações. É preocupante.



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