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Solidão, solidões...

A sensação de isolamento é personalíssima %u2014 afeta cada um de um jeito. Até por isso, a ciência ainda ensaia uma resposta ao fenômeno, que toma dimensões de "mal do século"

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postado em 28/06/2015 08:00 / atualizado em 26/06/2015 13:19

Carolina Samorano

Kris, Pablo e Cindy são todos moradores do Distrito Federal. Cada um em um bairro ou em uma cidade diferente. Pablo é advogado no Varjão, trabalha em uma Organização Não Governamental (ONG) que auxilia refugiados, e mora em um condomínio, dividindo um apartamento com uma amiga, no Lago Norte. Cindy é estudante da Universidade de Brasília em Planaltina; mudou-se de Formosa para cá quando passou no vestibular, há quatro anos. Hoje, mora sozinha nos arredores da faculdade. Kris é professora de inglês, morava em São Paulo até alguns anos atrás, onde levava uma vida satisfatória, mas se viu obrigada a vir para a capital quando lesionou o tornozelo e os cuidados da família, instalada aqui, se tornaram fundamentais para que ela se recuperasse. Suas histórias de vida, seu grupo de amizades e relações, sua rotina e seus dilemas em nada se parecem. Mas todos eles — assim como você, leitor — fazem parte do que alguns especialistas têm chamado de "a era da solidão".

 

 Zuleika de Souza/CB/D.A. Press
 

 

Ao que parece, nem mesmo as redes sociais, os grupos de conversa no celular e os aplicativos de paquera têm dado conta de aplacar o sentimento de se estar só, ainda que em meio a uma multidão. Objeto de contornos pouco definidos, a solidão assume diferentes rostos a depender da abordagem. Ela pode ser um sintoma, quando se fala de depressão. Pode ser um sinal dos tempos, especialmente nas grandes cidades, onde impera o individualismo. Pode ser ainda consequência do envelhecimento da população: as pessoas se aposentam, deixam de frequentar o trabalho e se isolam.

Há um fundo científico para a recente preocupação em relação ao tema. A tal era vem respaldada em números. Diferentes pesquisas ao redor do mundo têm comprovado que a solidão é um sentimento cada vez mais experimentado pelas pessoas. Na Grã-Bretanha, um estudo de 2010 da Mental Health Foundation chamado de The lonely society (A sociedade solitária) apontou que pelo menos 10% da população da região se sente só. Um terço diz conhecer um familiar ou um amigo próximo solitário e 48% têm a impressão de que as pessoas em geral estão mais solitárias. Quase a metade, 42%, disseram já ter se sentido deprimido alguma vez por estarem só e apenas 22% afirmaram nunca se sentir solitários. Nos Estados Unidos, acredita-se que um em cada cinco americanos sofre com a solidão. Outro levantamento constatou que, entre 20% e 40% de pessoas com mais de 55 anos, se sentem solitárias em algum ponto da vida.

"Essa série de estatísticas sugere que as relações que os estudos vêm provando serem tão vitais para nossa saúde e bem-estar estão ameaçadas por tendências da nossa sociedade", conclui o relatório da Mental Health Foundation, acrescentando que, mesmo que as cidades estejam mais populosas, as pessoas estão vivendo cada vez mais sozinhas: de 1972 a 2008, o número de casas e apartamentos ocupados por uma única pessoa na Grã-Bretanha passou de 6% para 12%. No Brasil, no último Censo do IBGE, de 2010, o número de residências fixas com apenas um ocupante era de quase 7 milhões, 12,1% do total, o que também representa um aumento significativo desde a última estatística, de 2002, quando esse número era de 9,2%.


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marcos
marcos - 29 de Junho às 09:37
O que os três personagens tem em comum? São da geração Y - no geral a mais conectada. Envelhecimento não seria a causa da solidão desses personagens. Solidão sempre foi um problema para os idosos. Individualismo não leva necessariamente à solidão. A questão é a conectividade. Quem viveu os dias pré-internet sabe que as relações eram diferentes - penso que mais saudáveis. Quando a relação com alguém distante vai produzir a mesma sensação de uma presencial? É uma ilusão. Relação virtual não produz satisfação real.