REPORTAGEM DE CAPA

Perfumes que fazem parte da nossa história

Embora o olfato seja subestimado pela ciência, o ser humano nunca escapa ao poder dos odores, seja na forma de notas isoladas, seja como um poderoso acorde

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postado em 05/07/2015 08:00 / atualizado em 05/07/2015 13:36

Zuleika de Souza/CB/D.A Press

O cheiro do café logo ao acordar, o aroma do bolo espalhado pela casa da avó, a lembrança da maresia, o perfume da pessoa amada… Os aromas participam do cotidiano de diferentes e poderosas maneiras. O olfato é o sentido que mais se relaciona com o sistema límbico, que atua no processamento das emoções e da memória. Esse sentido também é fundamental no paladar. Sem os cheiros, reconheceríamos apenas as sensações identificadas pela língua: doce, amargo, salgado e azedo. Seria impossível saber a diferença entre uma maçã e uma pera, perceber os gostos da canela, da hortelã e do orégano. O olfato também é um grande negócio: o Brasil é o maior mercado consumidor de perfume no mundo, segundo a Euromonitor International, que levantou dados em cerca de 80 países.

A servidora pública Marisa Campos, 45 anos, é uma das brasileiras apaixonadas por perfume. "Eu não consigo sair sem", conta. Para Marisa, perfumar-se é tão importante quanto escolher as roupas. Hoje, ela tem sete frascos e uma colônia leve, que usa para dormir. Cada fragrância traduz um pouco da personalidade marcante e animada dela. Ela presta atenção ao clima e ao tipo de ambiente para não exagerar na dose. Atenta aos detalhes, Marisa gosta de moda e decoração, e não deixa de reparar no perfume dos outros. "Eu já terminei com namorado porque não gostava do perfume dele", confessa. O lar também não fica sem um aroma. Quem entra na casa dela é bem recebido por um difusor de ambiente. "Todo mundo que vem aqui em casa comenta, pergunta de onde vem o cheiro, pede indicação."

Mas nem todos se dão conta do olfato no dia a dia. No livro O cheiro das coisas, a bióloga Bettina Malnic afirma que, "no homem, dentre todos os sentidos, o olfato sempre foi considerado o menos importante, e até mesmo supérfluo. Em geral, negligenciamos nosso sentido do olfato e, muitas vezes, não prestamos atenção ao que o nosso nariz está ‘dizendo’". No entanto, a pesquisadora destaca que a percepção dos cheiros está relacionada de forma intensa à vida humana e induz emoções e comportamentos que, muitas vezes, não são conscientemente percebidos.

Às vezes, é quando o olfato é prejudicado que a importância dele se torna mais aparente. No fim de 2013, Rose Santos, 33 anos, perdeu a capacidade de sentir cheiros, condição chamada anosmia. Em um acidente de moto, ela teve um traumatismo craniano que afetou as células olfativas. "Eu não sinto nenhum cheiro nem gosto, apenas se é doce ou salgado, nada mais tem sabor", descreve. "Isso é triste e, segundo o médico, não vai ser possível reverter", lamenta.

A perda olfativa ocorre em diversas intensidades e durações: pode ser temporária ou definitiva, total ou seletiva, afetando apenas alguns odores. A otorrinolaringologista Larissa Camargo cita algumas causas. "Desde uma pequena dificuldade durante um resfriado ou rinite alérgica até um tumor nasal, passando por traumas na face, erros médicos durante cirurgias plásticas no nariz e algumas síndromes raras, em que a pessoa já nasce sem a capacidade de sentir cheiros", exemplifica a médica. Ela relata que é comum as pessoas chegarem com queixas em relação ao olfato — mas ainda não existe um exame de fácil acesso nos consultórios para determinar com precisão o nível de percepção olfativa.

Em seu livro, Bettina Malnic apresenta a estimativa de que cerca de 1% da população ocidental tem algum tipo de deficiência olfativa. Ela considera que ainda são necessários grandes avanços nesse terreno. "Do ponto de vista clínico, o olfato ainda é muito negligenciado, apesar de deficiências olfatórias serem muito comuns e afetarem a qualidade de vida de muitos indivíduos", disse à Revista.

Bettina lembra de um marco na história dos estudos dessa área foi o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2004, cujos ganhadores foram pesquisadores que descobriram os receptores olfativos (responsáveis por detectar os cheiros). "Acredito que, no contexto acadêmico, o sentido é o menos negligenciado, à medida que novas descobertas interessantes vêm sendo feitas", opinou à Revista. A otorrinolaringologista Larissa Camargo destaca que a diminuição da capacidade olfativa é um dos sinais iniciais de doenças neurológicas, como o Alzheimer e o Parkinson. O olfato tem, portanto, potencial para ser parte do diagnóstico dessas condições.

Leia a reportagem completa na edição nº 529 da Revista do Correio.

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