COMPORTAMENTO

Os almoços na Vila Planalto que viram um forró arretado

Entre churrasco, feijoada e saladas, a sexta-feira se transforma em festa

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postado em 19/07/2015 08:00 / atualizado em 17/07/2015 12:12

Flávia Duarte

 Zuleika de Souza/CB/D.A Press.
 

 

Não fosse o movimento intenso de carros, poder-se-ia dizer que era um almoço comum de sexta-feira. Logo atrás da Esplanada dos Ministérios, um vaivém denuncia que aquele não é um self-service qualquer. Na tentativa de encontrar uma vaga, o motorista tem que ir devagar, cauteloso. Por vezes, é preciso parar no estacionamento empoeirado para que se negocie quem entra e quem sai. Há pouco espaço para tanta gente. Enquanto isso, o relógio marca 12h. Não é fim de semana, tampouco dia de festa. Mas toda sexta, naquele restaurante da Vila Planalto, o agito não precisa de comemoração especial. A festa já tem agenda fixa e acontece na hora do almoço.

Superada a etapa de garantir uma vaga, é hora de entrar no restaurante. À primeira vista, difícil imaginar o que aquele lugar, que mais parece um grande galpão cheio de mesas, teria de tão especial. No cardápio, uma lista de variedades que, apesar da diversidade, não justificaria a singularidade. Churrasco, feijoada, saladas, carboidratos de todos os tipos, gorduras para todos os gostos e condições de saúde, além de diversos tipos de acompanhamento e uma mesa de frios. Ainda que gostoso, não pode ser considerado um menu inédito.

Mas, se não é o tempero que justifica o burburinho, então, certamente, o segredo está na clientela. Com uma análise atenta e direcionada aos fregueses, aí talvez se chegue a um entendimento. Você olha e é olhado. Todos querem ver e serem vistos. Nas mesas, reúnem-se grupos enormes. Os ternos e as gravatas deles, as calças sociais e o blazer de tom sóbrio delas indicam que, provavelmente, a turma de amigos também trabalha junto. A distância entre a Vila Planalto e a praça onde se concentram os poderes da capital facilita a reunião informal em dia de semana e na hora da fome.

E são muitos homens juntos. A aliança no dedo não esconde que a maioria é de casados. Mas não é almoço em família, fica claro. Mais provável que seja intervalo do expediente. Garrafas de cerveja na mesa dão sinais de que, para muitos, o fim de semana começa mais cedo, ou que pouco importa a lei seca, ou menos ainda a metade do dia de labuta que têm pela frente.

 

 Zuleika de Souza/CB/D.A Press.
 

 

Difícil mesmo é conversar. O sucesso do restaurante não é o menu corriqueiro, ainda que farto. A música é o maior atrativo daquele self-service badalado. A banda ao vivo enche o ambiente e abafa as risadas, o som de talheres, dos pratos ou dos passos apressados dos garçons. Começa a tocar um sertanejo apaixonado. Música de "sofrência", como diria o rótulo popular. Afinal, os fregueses ainda estão comendo. É preciso respeitar o ritmo. Tem quem aposte em outro palpite: "É preciso esperar que a cerveja faça efeito e suba à cabeça".

Seja como for, o cenário muda à medida que a hora avança. Finalizada a refeição, a movimentação já não é mais em direção à fila para servir a comida. O primeiro casal se arrisca e vai para a pista de dança improvisada, que fica em um dos cantos do amplo restaurante, de onde as mesas foram retiradas. Proporcional à animação da clientela, a música, aos poucos, também muda o tom. Forró animado é entoado pela vocalista da banda, que sorri e pisca ao perceber que está sendo fotografada por uma equipe de jornal. Ela sabe que sua música é o grande chamariz daquele lugar. Seu parceiro exibe chapelão e também não faz feio. Juntos, cantam e tocam os sucessos do momento, com nomes da moda. A trilha inclui Pablo, Wesley Safadão e Aviões do Forró.

Aos poucos, mais casais deixam a mesa e vão dançar depois do churrasco e do prato cheio de feijoada. Ao primeiro olhar, aposta-se que a afinidade de passos entre os parceiros é sinal de amor. Mas a maioria deles não são amantes. São amigos de trabalho ou gente que se conheceu ali entre uma música e outra e compartilha o gosto pela dança. A parceria é logo desfeita ao fim de cada canção e um novo casal se forma.

Nas mesas próximas à pista de dança, muitos homens antes vestidos para o trabalho burocrático se livraram do blazer para deixar o momento mais informal. Não se sabe se a presença de um fotógrafo sem aviso prévio atrapalhou os planos dos amigos. Fato é que só observaram a dança, riram e acenaram, pedindo para não serem fotografados.

 Zuleika de Souza/CB/D.A Press.

 

Os descomprometidos, ou mais despreocupados, não se importaram, porém. Exibiram o ritmo. Chegam às mesas e convidam as mulheres para dançar. Um homem de traços orientais chama a atenção pela empolgação. Foi o primeiro a se levantar e, depois que deu o primeiro passo, não deixou mais a pista de dança. Começou com uma loira. Mostrou que suas habilidades não se restringiam a dois para lá e dois para cá. Rodopiou. Girou a parceira. Fim da música e ele prontamente convidava uma nova companheira de dança. Não xavecava. Só conduzia os passos da moça escolhida. Lá pela quinta música, já não estava mais na pista. Dançava entre as mesas. Vai saber se a parceira era mais tímida. Para ele, tudo bem. Seguia frenético.

Enquanto as letras sem a menor profundidade eram entoadas no ritmo empolgante do forró, muitos arriscavam seus passos. Teve moço que dançou, mas pediu para que deletassem suas fotos. A aliança dourada na mão esquerda faz suspeitar que a preocupação com a exposição indesejada tinha o nome da esposa. Mas ele negou. Apenas justificou, de forma simpática, que o pedido era devido a "outras questões envolvidas". Os amigos riram da explicação. Não importavam as desculpas. Afinal, precisavam ir embora e trabalhar. Qualquer intenção escondida naquele almoço acabava por ali.

A partir das 14h, a fila para pagar a conta cresce. De fato, muitos precisam voltar à rotina. O forró e a comida foram só uma pausa animada na rotina semanal. Quem tomou a cervejinha precisava disfarçar o hálito etílico. O rapaz que recebe o dinheiro das comandas dá uma dica. Diz que os tabletes de chicletes em cor preta são os mais indicados para se livrar do bafo da gelada e não deixar rastros da escapada durante o horário de trabalho.

Entre os que precisam voltar, um casal que mostrou sintonia na pista sai de mãos dadas. Animação dele ao exibir a seu lado uma moça de vestido curto e colado, que deixava evidente o bumbum de tamanho avantajado. Ela, impressionada com o passeio. Disse que era a primeira vez no almoço do forrobodó. Dançaram muito. Foram embora abraçados. Se não era namoro novo, ao menos o almoço musical foi novidade na relação.

Quem não pôde fugir da obrigação foi embora no auge da festa, mas o arrasta-pé do restaurante da Vila Plantalto segue, uma vez por semana, até as cinco da tarde. O movimento não cessa. Os engravatados vão. As moças de calça social e scarpin em tons pastéis também. Ficam os que provavelmente desfrutam da tarde livre.

O frio lá fora não impede que se escolha um visual sensual pelas mulheres que estavam ali para dançar. A moça de minivestido verde estampado, com cabelos tingidos e um visual bem moderno, foi muito cotada. Volta e meia estava na pista com novo parceiro de dança. Uma outra chamou a atenção. O sapato bico fino rosa neon se destacava em meio aquele visual formal de alguns. Apesar da temperatura baixa do dia, ela dispensou casaco. Escolheu a regata de renda que valorizava os seios fartos. Tão logo comeu, aproximou-se lentamente da pista de dança. Fazia bico com a boca e o movimento discreto dos quadris e da cabeça eram sinais de que esperava um convite para dançar. Não demorou a chegar. E ela logo rodopiava nos braços de um senhor que tomou a iniciativa para tirá-la da inércia. E ela se soltou. Empolgada, dançava a música de Wesley Safadão que repetia animadamente o refrão sem o mínimo de poesia: "Ipod, Ipod, Ipod, Ipod arriar / Já tem um Ipad / Já tem um Iphone / Já tem um Ipod /Agora é Identro".

Assim como ela, outros seguiam no ritmo da música. O dançarino com traços de japonês não parou. A camisa de algodão rosa já estava empapada de suor nas costas. A loira que o acompanhou quando abriram a pista de dança também seguia firme em outra companhia. O cabelo solto colava no pescoço. Ali, naquele calor, não há chapinha que resista nem inverno seco de Brasília que atrapalhe. A festa seguiu para os que podiam. A essa altura, o cheiro da carne assada já se misturava ao de suor e de cerveja. Na caixa de som, a letra do forró perguntava "quem vai comer a minha xaninha", em plena luz do dia, na vizinhança do Palácio do Planalto.

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