Artesania

No segundo episódio da série, conheça a arte de João Gomes

Na divisa de Goiás com o DF, o artesão produz delicadas peças com capim-colonião

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postado em 19/07/2015 08:00 / atualizado em 24/09/2015 14:39

Zuleika de Souza , Gustavo Falleiros

Zuleika de Souza/CB/D.A Press
 

Zuleika de Souza/CB/D.A Press

 

"Todos os meus sonhos, eu realizei com artesanato. Lugares onde estive, gente que conheci, todas as minhas coisinhas." João Gomes diz isso com os olhos claros voltados para o mar de capim-colonião que recobre a faixa de terra entre Goiás e DF, na altura do Novo Gama. Pouco antes, ele havia trançado para nós uma pequena peça com a ajuda de uma ferramenta inventada por ele mesmo, o puxador.


O processo dura um minuto cravado e pode ser visto em vídeo produzido pela reportagem. Como ele explica, é um trançado de quatro fios, feito a partir de capim coletado verde, que precisa ser trabalhado em, no máximo, cinco dias após o corte, senão estraga. "Olha que riqueza é um capim desses. Ele parece com o DNA humano." Quando está pronto, a gente entende: o cruzamento das fibras resulta numa estrutura curiosamente elegante.

Às vezes, artesãos precisam se proteger de quem desmerece o fazer manual. Daí perguntam: "Achou rápido? Quanto tempo precisei para ser rápido?". No caso de João, a experimentação começou na adolescência, na beira dos córregos, em meados dos anos 1980. "Olhava para uma folha e já via uma rosa. Olhava para um galho, e via uma guirlanda. Mas aquele era um cerrado que a gente depredava muito, tinha mania de tocar fogo", lamenta. "Depois, minha consciência ambiental foi se criando."


Zuleika de Souza/CB/D.A Press


Não teria alcançado a excelência sem fazer amizade com a natureza: no linguajar técnico, ele é um "mestre artesão em fibras de referência cultural". "Significa que eu me adapto à região. Se tiver coco, trabalho com coco. Se tiver bananeira, é com bananeira. Não saio de lá sem deixar produto pronto, sempre de forma sustentável", explica. Com essa expertise, ele presta consultoria em diversos estados. Ao transmitir o ofício, melhora a vida de muita gente, que passa a ter uma fonte de renda.

Dos longos anos de aperfeiçoamento, destaca o salto qualitativo após acessar a obra da artesã conhecida como dona Antônia, uma pioneira do trançado no DF. "Aos 19 anos, eu já fazia artesanato, mas tinha vontade de fazer um trabalho como aquele. Pedi a um professor do Sebrae que me desse uma peça dela. Levei uma noite toda, à luz de lamparina, desmanchando e construindo... E aí descobri todo o processo. Por isso, reconheço que ela é uma inspiração."

 

Zuleika de Souza/CB/D.A Press
 

Durante nossa visita, a lembrança de Antônia foi como nuvem em dia ensolarado. "Eu acho tão pouco duas pessoas (ele e ela) desenvolvendo um trabalho com capim. Poderia ter uma gama de produtos e é algo tão bem-aceito lá fora... Eu me sinto meio desolado, querendo que os outros saibam um pouco mais", admitiu o mestre, antes de retomar o sorriso e nos mostrar, sem pressa, o quão preciosa é sua matéria-prima.

ASSISTA AO VÍDEO

No perfil da Revista no YouTube, João mostra peculiaridades do trançado feito em capim. Veja aqui.

João Gomes, 45 anos
Tipologia: Trançado de fibras vegetais.
Localização: Novo Gama (GO)
Contato: (61) 9665-5415

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