REPORTAGEM DE CAPA

Ser avô é ser o pai ideal

A palavra em francês para avô é grand-père. Em inglês, grandfather (grande pai). Ambas expressam com perfeição o sentimento da paternidade reprisada, só que de um ponto de vista "mais elevado"

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postado em 02/08/2015 08:00 / atualizado em 31/07/2015 15:13

Juliana Contaifer

Na linha da vida, um dia, os progenitores voltam a ser um casal sem filhos. Os pequenos crescem, casam, viajam, estudam. E a casa vai ficando vazia. A vida vai passando cada vez mais devagar, cada vez menos colorida. Até que um dia, os filhos geram netos. O choro dos bebês e a correria das crianças provocam uma saudade da juventude, como se o filme voltasse a se repetir. Agora com mais tempo, sabedoria, serenidade e paciência — ser avô é ser o pai ideal.

É uma figura paterna mais experiente, pronta para aconselhar, ajudar e dar bronca se for necessário. Que dá segurança. Que, com a aposentadoria, tem tempo para acompanhar de perto o crescimento das crianças, que pode passar horas olhando os netos a brincar sem a obrigação de correr para o trabalho. Ser avô é aprender, apesar dos cabelos brancos, a enxergar o mundo sob uma ótica mais leve, mais inocente.

Claro que nem tudo são flores. Os netos de hoje são expostos diariamente a uma sociedade muitíssimo diferente da época dos pais. A maioria tem celular, sabe mexer em qualquer tablet, e consegue se virar no computador (vide a facilidade em encontrar os vídeos na internet), enquanto os adultos ainda têm certa dificuldade com as novas tecnologias. Ao mesmo tempo, os avôs não são os mesmos. Saem de cena os velhinhos de cabeça branca que ficam o dia inteiro em cadeiras de balanço. Entram os vovôs ativos, que acompanham os netos, que fazem piadas.

E não é todo avô que se dispõe a cuidar dos netos enquanto os filhos trabalham. Muitos consideram que a convivência diária com as crianças ficou para trás quando os filhos cresceram, que a bagunça diária dos netos é um problema. Que a insubordinação da nova geração é um ruído na tão sonhada tranquilidade da aposentadoria. A verdade é que esses perdem muito. Perdem a chance de uma relação tranquila e de passar para a frente todo o conhecimento de uma vida. Dizem que só se é imortal pela lembrança, e construir uma relação com os netos é o jeito perfeito de fazer a memória perpetuar.

Neste domingo, homenageamos os avôs que não se limitam a visitas esporádicas. Falamos daqueles sempre presentes, que têm responsabilidades com os netos e ajudam os filhos na difícil tarefa de criar um adulto respeitador e responsável. Avós que se tornam cada dia mais jovens com a convivência dos pequenos.

 

As recompensas do amor

 

Zuleika de Souza/CB/D.A Press
 

 

"Ele é vovô, mas é pai e mãe quando preciso. Ele cuida, protege e orienta. Ele brinca com ela como criança, assim como ele fazia comigo, quando a criança era eu. Ela, toda orgulhosa, fala em alto e bom som para as pessoas: ‘Sabia que esse é o meu vovô?’. Ele retribui o orgulho com sorriso fácil a cada frase inteligente dela. O amor dos dois transborda nitidamente pelo coração", conta a mãe de Beatriz, Amanda Walter, 36 anos, sobre o relacionamento da menina de 4 anos com o avô, o aposentado Valmir Ferreira Walter, 64.

 

Amanda e o pai de Beatriz são separados, mas dividem igualmente a criação da pequena. O pai busca na escola e fica com ela nos fins de semana. Como ambos trabalham muito, precisam de ajuda volta e meia. É aí que Valmir entra na história. Vem do seu rancho, que fica a 100km de Brasília, só para passear no shopping com a neta. Encara a viagem de carro por uma tarde no parquinho ou por um passeio de bicicleta. Está presente em todas as festas do colégio. Quando os pais de Bia viajam, Valmir fica longe da própria casa sem reclamar.

 

"Acho importante estar perto, fazer parte da criação dela. Faço por ela o mesmo que eu fazia pela minha filha. Eu me sinto pai duas vezes e ao mesmo tempo. É um sentimento que não dá pra explicar nem medir", filosofa. Valmir avalia que a responsabilidade de ser avô é até maior – com mais experiência, avalia melhor as necessidades das crianças, e essas informações pequenas ajudam muito na criação.

 

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