REPORTAGEM DA CAPA

Quem tem medo do tempo?

A cada dia que passa, seu corpo envelhece um tiquinho mais. Mas esse processo não precisa ser cercado de temores. Se você estiver preparado, tem tudo para viver uma etapa emocionante e libertadora

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postado em 09/08/2015 08:00 / atualizado em 06/08/2015 16:25

Gláucia Chaves

Ana Rayssa/Esp.CB/D.A. Press
 

 

 

Você já deve ter reparado que o mundo está envelhecendo. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) também notou. Segundo dados do órgão, de 1960 a 2000, a população brasileira com 60 anos ou mais aumentou de 4,7% para 8,5%. O último levantamento, em 2010, mostrou que há 20,5 milhões de compatriotas nessa fase da vida, o que representa a generosa fatia de 10,8% da população. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que, em 2025, seremos o sexto país com maior número de idosos do mundo: 32 milhões de pessoas. Não é de espantar que, mais do que nunca, a envelhescência (ou gerontolescência) é tema de debates, estudos e até filmes.

Houve um tempo em que lugar de velho era dentro de casa ou no hospital. Como um roteiro, a vida seguia um ritmo pré-definido e previsível: nascer, crescer, casar-se, procriar, morrer. Acontece que as pessoas começaram a viver mais. Agora, o que tira o sono da humanidade é uma pergunta inquietante: o que fazer com o tempo extra, fruto da longevidade?


O levantamento Como os brasileiros encaram o envelhecimento, feito pelo Instituto QualiBest por encomenda da Pfizer, entrevistou 989 pessoas a partir de 18 anos de todo o país. O intuito foi justamente descobrir como a “nova geração” lida com o assunto. As descobertas são interessantes: embora apenas 9% tenham afirmado não temer os efeitos do tempo, quase um quarto espera viver entre 96 e 120 anos (!). Ao mesmo tempo, solidão e medo de perder habilidades cognitivas, como a memória, são preocupações que tiram muito mais o sono dos jovens do que o dos mais velhos.


Em geral, as principais preocupações dos entrevistados velhos estavam relacionadas à vida financeira (52%) e ao distanciamento dos familiares (37%). A novidade é que os idosos de hoje não pensam só em fazer a aposentadoria chegar ao fim do mês ou em cuidar de netos. Eles também querem paz interior (44%), vida sexual ativa (14%) e viajar (14%). “Ao detectar os principais mitos sobre a longevidade, é possível trazê-los ao debate e contribuir para uma maior reflexão”, analisa Eurico Correia, diretor médico da Pfizer.
A geriatra e gerontóloga Andréa Prates, mestre em Promoção de Saúde pela Universidade de Londres, sócia-diretora da Contemporânea — consultoria aplicada para a longevidade e coordenadora executiva do Centro Internacional de Informação para o Envelhecimento Saudável (Cies), explica que o processo de envelhecimento está relacionado a vários aspectos: físicos, emocionais, financeiros, sociais etc. “Um dos preconceitos que a gente mais tem, hoje em dia, é com relação à idade”, analisa. “É algo muito arraigado. Não vemos pessoas, mas números”, critica.


Antigamente, o curso de vida era inteiramente pautado pela questão familiar. A partir da Revolução Industrial, havia idade para tudo — para ir à escola, para ter uma união civil, para entrar no mercado de trabalho e, consequentemente, para sair dele. Nascia a aposentadoria. “Só que a aposentadoria foi criada em 1878. Naquela época, as pessoas tinham expectativa de vida de 40 anos”, completa Andréa Prates. “Passados mais de 130 anos nessa formulação, praticamente vivemos sob as mesmas regras.”


Olhando por esse lado, dá até para entender por que ainda há tanto estranhamento quando o assunto é idoso fazendo coisas de “gente jovem”. Com a aposentadoria, criou-se a ideia de que o indivíduo cumpriu toda a produtividade que tinha para cumprir. Embora o imaginário coletivo ainda tenha certos estigmas com relação aos mais velhos — 57% dos entrevistados da Pfizer acreditam que idosos tendem a ser mais teimosos e 33% acha que eles são impacientes —, a maioria, 77%, acha que envelhecer deve ser motivo de orgulho. Inclusive, essas mesmas pessoas acreditam que nunca se deve deixar de fazer certas coisas por “excesso de primaveras”, como dirigir (25%), namorar (76%) ou sair com amigos (77%).


Thiago Rodrigues Póvoa, geriatra do Hospital Santa Helena, explica que existem dois termos para o paciente que está envelhecendo. O primeiro é a senescência, ou o processo natural, em que as células envelhecem e há um conjunto de alterações metabólicas. “Isso é demonstrado no organismo pelo envelhecimento funcional, em que coração, rins, cérebro e músculos vão, pouco a pouco, perdendo atividade.” Já a senilidade seria o lado ruim, associado a alterações patológicas, ao desgaste precoce a tudo que prejudica a funcionalidade do indivíduo. Doenças como diabetes ou hipertensão são alguns dos fatores desse envelhecimento fora de época.


De alguma forma, o médico diz que é, sim, possível traçar um comparativo entre a adolescência e a envelhescência, no que tange as mudanças corporais, cerebrais e comportamentais. Se, na adolescência, o corpo está a mil, na fase avançada da vida há perda de funções motoras e declínio da audição e da visão. “É mais um estágio da vida”, complementa Thiago Póvoa.


Desnecessário dizer que, quanto antes o indivíduo se preparar para a velhice, melhor será essa fase. Um estilo de vida desregrado, com ausência de atividade física e cuidados médicos em geral dificilmente terá como resultado um idoso saudável, feliz e funcional. “Uma rotina estressante traz um desgaste em termos orgânicos e psicológicos que vão culminar em uma velhice mais sofrida”, reforça Póvoa. “A pessoa deve se preparar para a velhice a vida toda. Colhemos na velhice o que plantamos na juventude.”

Bônus de longevidade

À medida que o corpo vai envelhecendo, tudo muda. Os hormônios, certamente, não ficariam de fora. Patrícia Brunck, endocrinologista do Hospital Santa Lúcia, explica que há uma diminuição geral na produção hormonal, em específico, o GH (mais conhecido como hormônio do crescimento). “Ele continua sendo produzido mesmo quando não estamos em fase de crescimento porque é importante para a vitalidade”, justifica. Nas mulheres, acontece a menopausa (fim da produção hormonal pelos ovários) e, nos homens, a chamada andropausa (decréscimo da testosterona).


A queda hormonal causa impactos significativos na qualidade de vida do idoso. Quadros depressivos, diminuição da libido, alterações de humor, irritabilidade e insônia são sintomas comuns.

 

Josefa Rodrigues Neres, 72 anos, não teve o que a sociedade considera essencial para uma vida completa: o casamento. A aposentada perdeu vários irmãos ao longo de sua trajetória e, na casa onde moravam 10 pessoas, hoje só há ela. Para muitos, esses seriam motivos suficientes para que a idosa não tivesse mais vontade de sair da cama. Mas Josefa, uma senhora animada e com um sorriso luminoso, é o extremo oposto do que se poderia imaginar. Todos os dias, ela coloca seus tênis e caminha por Taguatinga. Na igreja, encontrou companhia, amigos e hobbies, como o coral, viagens, a pintura e o artesanato.

 

 

Josefa credita sua boa memória e humor irretocável à companhia dos amigos que fez no grupo. “Tenho que sair de casa, porque senão enjoo de ficar sozinha”, justifica. Para ela, só há uma palavra para definir a envelhescência: maravilhosa. “A gente aprende a conviver com as pessoas. Aquelas besteiras que a gente fazia quando nova, não faz mais.” Entender que a fase adulta acabou foi algo natural para ela: nada de problematizar. Com ela, o lance é agitar. Quem acha que a vida já acabou, ela tem um recado: sair da zona de conforto pode salvar uma vida. “Para que ficar em casa chorando?”.

 


Envelhecer sem vergonha
Veja alguns dados da pesquisa Como os brasileiros encaram envelhecimento, feito pelo Instituto QualiBest por encomenda da Pfizer:


- O maior medo de pessoas com 61 anos ou mais é ter problemas de saúde (71% dos entrevistados);
- 35% quer viver entre os 76 e 85 anos; 23% espera chegar entre os 86 e 95 anos; e 23% quer que a vida se estique dos 96 aos 120 anos;
- 77% considera o envelhecimento um motivo de orgulho.

 

 

Brasil em números

- De 1940 a 1990, a expectativa de vida ao nascer foi de 41,5 para 67,7 anos de idade;

- Em 2013, a expectativa de vida saltou para 74,9 — 71,3 para homens e 78,5 para mulheres;

- 55% da população com 60 anos ou mais é constituída por mulheres e a maioria (83,9%) vive em áreas urbanas — especificamente, na região Sudeste (56,7%);

- A média de estudo da população com 60 anos ou mais é de 4,7 anos de estudo;

- Quase metade (48,4%) tem rendimentos superiores a um salário mínimo. Mais da metade dessas pessoas (55,4%) vive na Região Sul;

- A maioria da população com 60 anos ou mais (76,1%) recebe algum benefício da Previdência Social.

Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)

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