MODA

Ronaldo Fraga reúne em livro memórias que ganharam as passarelas nacionais

Obra disponibiliza estudos e pesquisas feitas por ele durante o processo de produção de uma peça

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postado em 30/08/2015 08:00 / atualizado em 28/08/2015 17:57

Flávia Duarte

Zé Takahashi / Agência Fotosite.
 

 

Todo artista se torna notório por sua singularidade. É o diferente que o faz destacado, merecedor de aplausos e dos holofotes. O estilista mineiro Ronaldo Fraga, mais do que qualquer outro nome da moda brasileira, tem no trabalho autoral o seu grande diferencial. Durante a semana de moda do São Paulo Fashion Week, não há cansaço, atraso, line up apertado ou dead line da redação que faça imprensa ou convidados desistirem de assistir à apresentação desse artista. Ronaldo não faz roupa, ele transforma tecido em arte. Um desfile assinado por ele dificilmente não emociona. É um show. Chora, vibra, sorri a plateia, na mesma intensidade que o estilista também se entrega. Ronaldo admite até hoje "sentir borboletas no estômago" ao apresentar uma coleção em público.

Antes de transformar tecidos em roupa, Ronaldo desenha à mão livre. Do papel branco surgem as ideias e as formas. São justamente esses cadernos de desenho do estilista que despertam interesse dos entendidos da moda. Os croquis das peças feitas por Ronaldo, num total de 38 coleções, desde a "Eu amo coração de galinha", do inverno 1996 — desfilada no Phytoervas Fashion, em São Paulo (evento que antecedeu o São Paulo Fashio Week) —, até a apresentação "O caderno secreto de Cândido Portinari", do verão 2014/2015. Os rabiscos, traços e desenhos coloridos foram compilados e acabam de ser lançados em forma de livro. Ronaldo Fraga: caderno de roupas, memórias e croquis reúne os estudos e as pesquisas feitas por ele durante o processo de produção de uma peça. Em um bate-papo com a Revista, o mineiro falou desse projeto e de como vê a moda.

Por que lançar um livro baseado em seus cadernos?
Os primeiros cadernos eu jogava fora. Nunca dei valor a eles, mas o meio acadêmico começou a me cobrar esse registro do processo de criação. A intenção é despertar, com esse trabalho, a atenção do profissional da moda. Porque hoje não é preciso saber desenhar para ser estilista, então há um movimento no mundo valorizando o desenho à mão livre, a memória gráfica visual. Hoje, nem se escreve mais, que dirá desenhar. O livro é uma memória gráfica, de como se encara soluções de estamparia e de formas que a computação não vai te dar.

E você acha que as pessoas estão interessadas em aprender a desenhar?

Vivemos em um país com poucos títulos de memória da moda brasileira. A coisa do desenho tem despertado muito interesse nas pessoas que trabalham com moda, com artes visuais, e até nas crianças. De tempos em tempos, a sociedade busca novos valores e você vê isso no sucesso dos livros feitos para você se sentar e colorir. Quem sabe desenhar é mais feliz.

E qual a sua relação com os desenhos?

Sempre desenhei. Meu sonho era fazer um curso de desenho, mas naquela época isso não era coisa para homens. Até que, quando tinha 15, 16 anos, encontrei uma vizinha figurinista que me levou para fazer um curso no Senac. Eu era um adolescente militante, no fim da ditadura. Desenhar não combinava com tudo aquilo. Fiz o curso. Metade da turma era de senhorinhas de cabelo lilás que queriam aprender a desenhar para copiar a roupa da madame, e, a outra metade, era de travestis que queriam aprender a desenhar a fantasia de carnaval. No fim, somente eu aprendi a desenhar e ganhei um emprego em uma loja de tecidos.

Como foi esse primeiro contato com o mundo da moda?

O que definiu a minha alma profissional foi a experiência na loja de tecidos. Eu nem sequer tinha vocabulário de moda, mas tinha que atender por dia a 30 mulheres querendo uma roupa. Eu tinha que conquistá-las. Assim é a moda. Atrás da história de uma roupa, sempre existe uma conquista amorosa.

Seu trabalho é conhecido pela riqueza de detalhes das peças, pela originalidade das formas e das temáticas. Onde você busca inspiração?
Você pode ter inspiração em qualquer lugar. Se não vir, olhe de novo. Passada a euforia da globalização, caminha-se em direção do que é autoral. Valoriza-se o que é feito de modo especial. O que justificaria uma mídia espontânea? É aquilo que é caro para a gente, que tem valor, mas não tem preço.

 

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