REPORTAGEM DE CAPA

Os caminhos que levaram ao monge

Ademar Kyotoshi Sato teve muitas encarnações antes de ser sacerdote. A impermanência o levou por diversos estilos de vida. Hoje, recebe os brasilienses de braços abertos no templo budista da Asa Sul

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postado em 13/09/2015 08:00 / atualizado em 11/09/2015 19:27

Flávia Duarte

Zuleika de Souza/CB/D.A Press

Faz pouco, ele decidiu saborear o gosto do cachimbo. Ex-fumante, reconhece a peleja que foi largar o cigarro há 20 anos. Então, melhor seria não se arriscar e procurar uma bengala emocional mais trabalhosa, “que tem de acender a toda hora” e cuja preguiça de manter a chama é maior do que o desejo da tragada. O cachimbo foi artifício encontrado pelo monge Sato, 73 anos, para acalmar a angústia diante da responsabilidade que ganhou oficialmente no último dia 25: o Templo Shin Budista Terra Pura Brasília, ao qual se dedica inteiramente desde 2008, recebeu o título de Patrimônio Histórico do Distrito Federal. Agora, a edificação ao estilo japonês, o sino Bonsho e seu campanário, além dos pórticos de acesso, estão protegidos.

Sato pessoalmente também recebeu nomeação de prestígio e, diante de familiares de pioneiros da cidade e das primeiras famílias budistas que vieram para a capital, foi agraciado como cidadão honorário de Brasília. O reconhecimento causou ansiedade, ainda que feliz. E, nas suas meditações, encontrou um caminho para acalmar os pensamentos: o cachimbo.

O monge ri da própria estratégia e garante que há muita fantasia, corroborada por livros e filmes, em torno do papel religioso que exerce. “As pessoas acreditam que monge é um grande sábio”, diz Sato. De fato, a sabedoria em torno dos ensinamentos do budismo é o que transforma um economista, advogado, ex-servidor público, como esse nissei, em um monge. Ao contrário do que se imagina, sua rotina não é sinônimo de serenidade e desligamento do mundo. Ele não nega que tem seus momentos de estresse e paciência contada. O que diferencia um sábio do budismo, no entanto, é o reconhecimento das próprias limitações. “O que o monge tem é a consciência de que é cheio de contradições, imperfeições, como todo ser humano, mas, tendo esse conhecimento, isso pode ser trabalhado, sem culpar inteiramente as condições objetivas. Estar no caminho do budismo é ter consciência de estar sempre tentando.”

Monges não são infalíveis. Sato não tem qualquer pretensão de ser. Quando recebeu o título de cidadão honorário da capital, ganhou discurso do amigo dos tempos políticos, o ex-governador Cristovam Buarque. Esse garantiu que Sato era símbolo da harmonia entre forças, ideologias e políticas. Sato reagiu e não aceitou o predicado. “Tive que responder a ele: ‘Não sou nada harmônico como você está pensando. Se fosse tão harmônico como me descreve, estaria morto. Pelo contrário, tive que lutar muito para sobreviver a várias situações, além disso, não vivo de forma tão harmônica com minha esposa, ainda que ela seja a minha referência para manter o sonho de um mundo melhor’.” E, para a surpresa dele, a plateia gostou da fala, que o desnudou um pouco e apresentou a personalidade do paulista Ademar Kyotoshi Sato.

A mulher é Maria Cristina Holanda, com quem compartilha a rotina há oito anos. Ela também é monja há três. Juntos, cuidam do templo, que fica na quadra 315/316 Sul. Mulher de personalidade forte, o monge diz que as desavenças entre o casal são resultado da diferença de gêneros, da diversidade cultural: ele, filho de pais de origem oriental, ela, cearense. Mas é justamente a oposição de ideias e de comportamentos que leva ao crescimento. E isso o monge considera um caminho para o crescimento espiritual. “Brigamos porque somos de gêneros diferentes, não podemos ser iguais. Não existe alma gêmea, cara-metade. Se existisse uma parte perfeita, não haveria interação. É na interação que o outro o ajuda a ter consciência de si mesmo. É nesse momento que você se percebe melhor. Quando fico com raiva, eu expresso. Acho que, no mínimo, estou sendo autêntico”, comenta.

 

Leia a reportagem completa na edição nº 539 da Revista do Correio.

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