REPORTAGEM DE CAPA

Asta-Rose Alcaide, a dama da ópera

Segunda reportagem da série Maturidade compartilhada

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postado em 04/10/2015 08:00 / atualizado em 13/10/2015 12:52

Cristine Gentil , Luís Tajes , Flávia Duarte

Luís Tajes/CB/D.A Press

Os quadros bordados à mão pela mãe, as preciosidades russas, as aquarelas, os retratos. Os abajures de Sintra nas mesinhas, as fotografias das óperas. Os castiçais de uma catedral portuguesa. As partituras assinadas por artistas de renome. Tantas condecorações. E os livros, muitos, em todas as línguas. A casa de Asta-Rose Alcaide não é apenas o memorial de uma vida que se fez pródiga em conhecer pessoas e lugares interessantes. "As paredes me consolam", diz.

A função das coisas naquele apartamento da Asa Sul não é servir à ostentação. Tudo aquilo tem papel de companhia. O marido se foi há muito; os parentes todos já morreram. Aos 93 anos, Asta-Rose está só. Esta é uma verdade incontestável, a ponto de ela repetir algumas vezes, com total desprendimento, que preferia já ter ido embora. Que graça tem a vida sem poder usar as sapatilhas de pontas de bailarina? Se o corpo não responde às vontades? Se todos se foram?

Apesar do reconhecimento de que viver quase um século não é "brincadeira", Asta-Rose não faz da solidão um lamento bobo, um sofrer sem trégua. Os livros, a música, a escrita ajudam a compor uma rotina em que ficar na cama não é opção. Todos os dias, ela se levanta, passeia, faz compras, escreve cartas, ouve música, vistoria o apartamento. Faz carinho no acervo, que é o motivo central de um só pensamento intermitente: o que fazer com essas coisas todas? Mandar para Portugal, para um teatro onde já existem algumas coisas do marido, o tenor Tomás Alcaide? Deixar numa sala do Teatro Nacional, em Brasília?

A vaidade continua como fiel companheira. É assim desde a infância, pautada por regras de comportamento ditadas pelo pai e pela mãe, criados em escolas europeias, na Alemanha e na Suíça. Os cabelos, marca registrada, ainda muito arrumados, imponentes; o lencinho, sempre amarrado no pescoço. O sonho de estudar na Europa foi sufocado por uma guerra, mas o desejo de aprender línguas foi saciado. Fala seis idiomas e escreve também. Tantas referências influenciam no sotaque, no jogo de palavras. A ponto de a origem brasileira — ela é de Joinville (SC) — não ser evidente.

Asta-Rose comporta-se como uma grande dama. Aprendeu tudo o que se propôs: da dança aos instrumentos musicais. Recebeu a equipe do Correio com extrema gratidão. Durante duas horas, conversou sem trégua, sem um gole d’água, sobre vida, saudades, velhice, morte, música, guerra, amor ao marido. As traições da memória foram compensadas pelo vasto conhecimento acumulado. Pouco falou sobre a grande contribuição a Brasília. Foi ela que trouxe a ópera para a cidade, fez audições, deu aulas, proporcionou grandes momentos à cultura brasiliense. Pena que a modéstia não lhe deixa dizer a verdade.



O BALÉ
"Eu sempre estudei balé. Desde criança, eu tinha mania de dança. Quando terminei a escola alemã em Joinville, fui para São Paulo. Lá, eu comecei a levar tão a sério o balé que fui logo admitida no Teatro Municipal de São Paulo. Passei num concurso e fui uma das três principais bailarinas de São Paulo. Eu tinha a impressão de que não podia viver sem balé. Hoje, estou velha e gorda (risos). Balé não é mais uma coisa recomendada."

O AMOR
"Eu queria muito ir estudar na Europa, mas veio a guerra e complicou a nossa vida. Muitos artistas e muitos cantores começaram a vir se apresentar na América do Sul. Em Buenos Aires, o teatro era muito importante. Tanto o Municipal do Rio quanto o de São Paulo estavam muito ativos, porque os cantores de ópera vinham da Europa contratados. Meu marido veio assim, chegou com outros cantores e, como eu era do corpo de baile do Municipal, nós nos conhecemos. Foi uma coisa imediata, embora tivéssemos uma diferença grande de idade. Então, foi contratado para cantar em Buenos Aires e queria se casar comigo para irmos, já casados, para lá. Fomos a Joinville avisar aos meus pais. Eu me casei lá e fui com ele. Aproveitei, enquanto ele cantava, para aprender balé com uma senhora que tinha fugido da Alemanha na guerra e era muito conhecida. Por dois anos, melhorei muito o balé. Ele era uma pessoa muito boa, um artista, um homem muito bonito, muito elegante, cantava muito bem, falava muitas línguas. Teve muito sucesso na Europa, cantou nos grandes teatros de Paris, em todos os grandes teatros da Europa. Era, além disso, uma pessoa sempre preocupada em estudar, cantar melhor. Nós nos dávamos muito bem, éramos muito felizes. "

A ÓPERA
"Comecei a me interessar por ópera quando conheci meu marido. Antes, tudo era balé. Eu gosto muito ainda e a gente descobre sempre coisas novas, é extraordinário. Se são óperas bem cantadas, bem tocadas pela orquestra, se fazem sentido, eu gosto. Uma Bohème é uma delícia, eu posso ver e ouvir todos os dias, nunca me canso. Um Wagner também. Algumas eu gosto mais, outras não gosto nada, são chatas."

DA ARGENTINA PARA PORTUGAL

"O pai do meu marido morreu e a mãe dele estava tristíssima. Então, ele quis voltar para Portugal. Meus pais não queriam que eu atravessasse o Atlântico, mas meu marido decidiu atravessar esse mar extraordinariamente grande e perigosíssimo. Fomos num barquinho pequeno de Buenos Aires até Santos, onde encontrei os meus pais para me despedir deles. Tivemos a sorte de conseguir entrar em um barco que levava mulheres e crianças para Portugal e embarcamos nessa viagem bastante perigosa. Quando estávamos perto de Portugal, no cantinho em frente à África, a gente começou a ver de longe uma quantidade de barcos que até hoje fico espantada. A Europa estava toda estragada e os ingleses queriam pegar o norte da África. Ingleses, franceses e outros europeus se reuniram na Inglaterra. Meus pais não queriam que eu fosse, mas, como meu marido estava preocupado, porque ele tinha perdido o pai e só tinha a mãe e o irmão, nós fomos. Depois de um tempo lá, ele morreu. Já não me lembro exatamente de quê, mas foi uma morte meio inesperada."

A VOLTA AO BRASIL

"Portugal, embora eu gostasse, era uma terra muito pequenina; a cabeça das pessoas, também. Não me senti tão bem lá quando já estava sozinha, então eu preferi voltar ao Brasil. Como já tinha sido da embaixada americana antes de me casar e falava muito bem inglês, voltei pro Rio."

BRASÍLIA

"Cheguei a Brasília em 1975. Acho que pude ensinar muita gente aqui. Colocar na cabeça de várias pessoas como é importante a música... Mas música de verdade, não essas coisas que existem hoje por aí. Também pude dar a noção do quanto a arte é importante. Qualquer forma de arte faz uma diferença extraordinária na vida das pessoas. Quem não teve a sorte de aprender qualquer coisa, música, dança ou pintura, ou seja o que for, fica pobre. Sem arte, a vida fica pobre."

TEATRO NACIONAL

"Já me falaram para fazer uma sala no Teatro Nacional com as coisas do meu marido, porque tenho muitas coisas dele... Mas, infelizmente, o teatro está uma coisa terrível, num estado desgraçado. Estão deixando estragar esse teatro. Eu disse a eles: ‘Assim não, o teatro tem de ser arrumado. No estado de lixo que ele está, Deus me livre, não vou fazer isso. Eu deixo aqui no apartamento ou mando pra Portugal.’ Eles querem que a sala tenha o meu nome, eu já disse que eu não quero. Meu marido é que era importante, não eu. Ele tinha uma carreira, chegou a cantar aqui; fizemos uma ópera, ele cantando e eu dançando. Estou fazendo um esforço para ainda ter força e ver o que fazer com tudo que tenho aqui, para que as coisas do meu marido não se percam…"

ACERVO

"Algumas pessoas já estão vindo aqui, queriam fazer disso um museu quando eu morrer, mas também não estou muito convencida, é preciso ter gente que saiba como as coisas devem ser (preservadas). Tenho tantas coisas lindas, vários quadros, coisas que enriquecem a vida de maneira extraordinária e que eu tenho pena de, quando for embora, não poder levar comigo. Mas gostaria de deixar para outros, tenho muitas partituras de ópera, bem conservadas, assinadas pelos próprios artistas que a escreveram, gravações, e isso é muito interessante. Coisas que realmente valem a pena e que eu gostaria de deixar nas mãos de gente que realmente queira. Tive a sorte na vida de poder conhecer muitas coisas e pessoas interessantes. Não digo isso com orgulho, mas para mostrar que vale a pena. Por isso, tenho que ver muito bem o que vou fazer com tudo isso. Tenho muitos livros, em várias línguas, e isso para mim dá um prazer tão grande, mas nem todo mundo se interessa."

SOLIDÃO

"Eu sinto, mas isso não é complicado. Porque tive uma vida tão interessante, tão rica, tão boa... Gostaria de ter o meu marido, evidentemente, que era muito bonito, muito correto em tudo, e isso é uma coisa que não tenho hoje, estou aqui sozinha. A vida fica um cadinho difícil, porque, na verdade, da minha família, só eu quem sobrou. Já morreram pai, mãe, irmão, cunhado, primos… Outro dia, estava fazendo uma lista e é impressionante: todos morreram. São as pessoas mais queridas e que você gostaria de ter perto… Agora estou sozinha e pronto. E eu não estou muito contente de ainda estar viva. É verdade! Onde estão os outros? Não tive filhos, mas não porque não quisesse. Acho que eu gostaria de ter tido. Talvez agora eu tivesse mais companhia. Mas, por outro lado, eu consigo viver sozinha. Os livros, a música, todo esse acervo substituem essa falta. Sim, estou sozinha, mas tenho tanta coisa, minha casa tem tantas coisas nas paredes ao meu redor, que eu não me canso disso."

VELHICE

"Eu sempre tive uma vida com cuidado. Não exagerei na comida nem na bebida nem em nada que pudesse fazer mal. Agora, 93 anos é muita coisa. Se vocês chegarem lá, preparem-se porque não é brincadeira. É tudo difícil. Não tenho mais a força que eu tinha, não tenho mais fisicamente possibilidade de fazer o que fazia. Não tem graça nenhuma. Isso é verdade, é autêntico. A gente não pode se enganar. Essa quantidade de anos desgasta o nosso corpo. Eu queria já ter ido embora. Não precisava nada chegar a essa altura da vida. Não tenho nenhuma doença, mas vejo mal e isso é uma coisa que cansa. Já caí algumas vezes. Tenho dores também. Mas o que vamos fazer? Não estou com essa coisa de ficar na cama. Levanto, passeio, vou fazer compras e escrevo cartas. Sempre vejo se as coisas estão em ordem em casa porque esse apartamento tem muita coisa interessante, porque realmente estive em lugares e conheci muita gente interessante. Isso tudo me enche o dia, nunca estou chateada. Não tenho nada assim que eu diga que preciso das outras pessoas. Comigo mesmo, estou muito bem. Basta olhar as paredes e fico consolada. O que não me consolou nunca foi a falta do marido, porque era muito inteligente e muito culto. Isso realmente me fez muita falta."

MORTE

"Quando a gente morre, morre, acabou e pronto, mas tem a parte espiritual que não deve ir assim embora tão depressa. Não tenho medo porque acho que é uma coisa natural da vida. Só acho que já devia ter acontecido, era muito melhor. Porque, evidentemente, fisicamente a gente vai embora. Com a idade, vai perdendo. Claro que eu era mais bonita, mas a gente tem de viver dentro daquilo que tem e pode. Hoje, não posso fazer as coisas que eu fazia antes. Fica diferente. Sempre me maquiava, agora não posso mais. Não posso mais dançar. Eu, com pontas agora, nem pensar, nem tenho forças nem possibilidades, isso já faz pena… Antes, bastava pôr o sapatinho e pronto, e era ótimo. Eu quero estar preparada, pronta, é isso que eu quero."

O QUE É IMPORTANTE E O QUE NÃO É

"A minha maior preocupação não sou eu, mas os outros. As pessoas que podem precisar de mim e não poder recorrer. Mas existem coisas que antigamente me magoavam, que pessoas podiam dizer ou fazer, isso, hoje em dia, não existe mais. Quando ouço alguém falar de outro, para mim, não tem mais importância. É engraçado como isso pode acontecer, mas acontece. Há coisas que antigamente eram muito importantes e hoje não têm nenhuma importância. A gente também acumula uma quantidade de conhecimento, que, hoje, às vezes, preferia nem ter. Na minha idade, a gente também deixa de ter paciência. Há pessoas que, às vezes, vêm me chatear e já não me interessam nada. Tenho pena, mas já vivi a minha vida. Não gosto de machucar ninguém, não gosto de dizer coisas que possam ferir as pessoas, e a maioria das pessoas não pensa nisso. Mas, de forma geral, as pessoas me tratam muito bem."

TEMPERAMENTO

"Não me casei de novo. Sempre tive muito definido aquilo de que gosto e do que não gosto e não dá para mudar, nem por gentileza. Não tenho paciência. Isso se refere às pessoas, mas também a livros, a música. Há coisas, por exemplo, que eu não faço questão nenhuma de ver ou ouvir outra vez. Já estava muito refinado, por exemplo, o meu gosto pela arte, sempre estive com artistas muito bons. E o meu marido também era assim, apreciava muito as coisas, mas tinham que ser muito boas. Aprendi com ele."

MEMÓRIAS DE GUERRA

"A guerra estragou muita coisa e foi uma divisória nítida na minha vida. Foi só aí que eu comecei a ter problemas. Sempre quis ir à Europa. E a guerra afastou esse sonho. Quando fui com meu marido, meus pais não queriam que eu atravessasse o Atlântico em guerra. A guerra destruiu tudo na Europa, tudo o que a gente tinha, conhecia, que sabia que era bom, nem a comida era a que se comia antes. As pessoas passaram a desconfiar das outras. Não se podia falar tudo o que se pensava. Isso é muito terrível. Vocês nunca passaram por algo assim."

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