A imagem natural

Não que as nudes representem uma revolução nos costumes, mas a popularidade delas indica uma vontade de ver e ser visto sem inibições

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postado em 25/10/2015 08:00 / atualizado em 23/10/2015 12:32

Juliana Contaifer , Renata Rusky

 

 

 

Raquel Pellicano/ Divulgação

 

O corpo despido era natural na Grécia Antiga. Foi parcialmente ocultado na Idade Média, sob a rigidez da religião. Reapareceu com o Iluminismo. Os grandes museus exibem nus célebres, obras de Renoir, Botticelli, Cézane, Manet, Modigliani, Picasso. Os povos do Xingu vivem nus até hoje. O topless é prática corriqueira em diversos países europeus. Nudez que não coincide necessariamente com sexualidade.

“Há menos de um século, apesar do calor tropical, os homens vestiam fraque, colete, colarinho duro, polainas e as ‘santas’ mulheres cobriam-se até o pescoço. Hoje, as anatomias mostradas parecem confirmar a ideia de que vivemos um período de afrouxamento moral nunca visto antes”, analisa a antropóloga Mirian Goldenberg em seu livro O nu e o vestido (Editora Record). O corpo despido está na televisão, nas revistas, na internet. De certa forma, não choca mais.

Ainda assim, o corpo nu não é visto com a naturalidade que merece. Com o costume de cobrir a pele, a nudez ainda está relacionada à vergonha, à intimidade — mesmo no Brasil, com o calor escaldante e as roupas cada vez menores. Agora, parece se desenhar uma forte investida contra o pudor. As forças libertárias vêm da internet: mandar nudes virou uma moda. Compartilha-se material íntimo com parceiros e não parceiros, com ou sem filtros.

“A maioria das pessoas tira fotos nuas no sentido de libertação: ‘O corpo é meu, posso fazer dele o que quiser, não tenho vergonha dele’. Tem um sentido muito libertário nessa prática, principalmente do corpo feminino. E não enxergo como exibicionismo. Há milhares de outras maneiras de se chamar a atenção sem tirar a roupa”, afirma Mirian, em entrevista à Revista. Ela explica que esse movimento é importante exatamente porque, no Brasil, ainda não temos essa liberdade de estar nu. É preciso estar confortável e feliz na própria pele, e as nudes são um instrumento de afirmação.

“O corpo aqui ainda é visto como capital, principalmente feminino. Precisa ser magro, jovem, sexy, bonito. E, por isso, não aceitamos que qualquer pessoa possa fazer nudes. Ainda temos muita repressão. Vivemos entre a prisão e a libertação, é um paradoxo mesmo. Por um lado vivemos esse movimento de liberação de todos os corpos, mas de outro, eles estão aprisionados em um modelo muito fechado”, afirma. No livro, a antropóloga conta que o corpo dentro do padrão não é tão chocante. “Pode-se dizer que, sob a moral da ‘boa forma’, um corpo trabalhado, cuidado, sem marcas indesejáveis (rugas, estrias, celulites, manchas) e sem excessos (gorduras, flacidez) é o único que, mesmo sem roupas, está decentemente vestido”, provoca.

Defensora da nudez como expressão artística, a fotógrafa Raquel Pellicano aponta a incoerência do imaginário brasileiro sobre o assunto. “Na Europa, a nudez não está diretamente ligada à sexualidade como aqui. Existe essa contradição: embora nas praias use-se biquínis minúsculos e no carnaval pessoas desfilem seminuas, ficar pelado ainda é um tabu.” Ela fotografa garotas comuns nuas há quatro anos e sempre procura a espontaneidade.

 


Gabriela Nehme, 25, arquiteta, já havia posado nua, como modelo-vivo em aulas de artes. Professora de desenho, ela quis experimentar o olhar do outro. Chegava a ficar quase meia hora na mesma posição, o que era um tanto desgastante. Por meio de amigas, conheceu o trabalho de Raquel Pellicano. Começou a pesquisar sobre fotógrafos que se autorretrataram nus com seus filhos com o objetivo de desmistificar a nudez e decidiu que posaria num contexto diferente. Posou para um ensaio completo, que chegou a ser publicado em um revista.

Para ela, a experiência foi importante para adquirir consciência corporal. “Eu descobri meu corpo, os aspectos físicos dele, me senti bonita. Até então, eu não ligava, não pensava nele”, conta Gabriela. Além da confiança na profissional, outro fator que deixou Gabriela segura foi saber que estava posando em busca de algo maior: “Seria uma nova descoberta”. Em relação às artes plásticas, Gabriela descobriu que, na fotografia, o processo era muito mais dinâmico e descontraído. “O trabalho é conjunto”, afirma. Atualmente, tem curiosidade de posar de novo, pois o corpo mudou bastante. Na opinião da jovem, foi criada uma seriedade desnecessária no ato de ficar pelado. “A gente coloca muito tabu. Eu queria mostrar que ele é natural”, afirma.

Os amigos próximos apoiaram a ideia e a arquiteta nunca se importou com a opinião dos outros. Para os pais, demorou mais para contar, com medo da reação. As fotos já estavam na internet e eles poderiam ser surpreendidos. A mãe foi a que mais se preocupou, o que ela atribui ao fato de ser mulher e estar acostumada a se proteger o tempo todo. O pai simplesmente aceitou que o corpo era dela e ela faria o que quisesse com ele.

 

Leia a reportagem completa na edição nº545 da Revista do Correio. 

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