CRÔNICA DA CIDADE

A Justiça de pedra-sabão

Aos pés da Torre, os turistas buscavam o souvenir mais típico da capital

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postado em 04/12/2015 13:35 / atualizado em 04/12/2015 13:53

Gustavo Falleiros


A escolha geralmente recaía sobre as flores desidratadas do cerrado, mas o artesanato feito em pedra-sabão rivalizava. Eram pequenas catedrais e estátuas esculpidas de forma singela. As que reproduziam as obras de Bruno Giorgi e Alfredo Ceschiatti tinham apelo garantido. Ao menos, foi assim que a memória registrou.

Hoje, a feira não tem cara de feira e não contorna desordenadamente as pilastras da Torre de TV. As imitações d'A Justiça agora são de resina e pintadas de modo a parecer bronze. Não são bem-acabadas, mas, ainda assim, guardam uma fração do carisma da original, trabalhada a partir de um único bloco de granito de mais de 3m de altura. Está na Praça dos Três Poderes desde 1961, como que guardando o Supremo Tribunal Federal.

Só recentemente tive notícia de que existem miniaturas “autorizadas” da estátua. Ceschiatti assinou uma tiragem de 200 cópias feitas pela Fundição Zani. De vez em quando, aparecem em leilões de arte e custam caro. Outra novidade, ao menos para mim, é que a criação do artista ítalo-mineiro é vista com desconfiança por diversos juristas. Eles deploram o fato de que a Justiça está sentada e que, portanto, transmite a sensação de apatia.

Como Ceschiatti já se foi, temos de buscar na própria obra os símbolos que confirmam ou não essa tese. Pois a professora de filosofia do direito Gisele Mascarelli Salgado fez exatamente isso. O primeiro fato relevante apontado por ela é que são raríssimas as representações sentadas da Justiça. As deusas gregas Diké e Themis jamais descansam.

Em favor da acusada, podemos argumentar que um de seus pés está avançado em relação ao outro, o que sugere prontidão para se reerguer. Data venia, outro ponto positivo é que a imagem candanga exibe os seios nus, o que a humaniza. Ela está vendada e carrega uma espada (a força da lei) no colo, mas nenhuma balança (a ponderação), o que é grave, muito grave. Quer saber qual foi o veredicto da professora Gisele? Leia aqui: migre.me/seGfV.
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